quinta-feira, 25 de novembro de 2010

MAPA

Nascer é a primeira grande vitória, mas se não continuarmos a vencer ela facilmente transfigurar-se-á em derrota, a maior e mais proeminente derrota. Pode-se objectar dizendo-me que a morte, essa sem dúvida é a pior e imensa queda, além de frustrante visto – salvo raras lamentáveis excepções – consitir numa inexorabilidade, injustiça e incontrolabilidade indubitável. Respondo afirmando que tudo aquilo que não é já vida, mas o fim desta, é uma simples contingência da nossa natureza, enquanto que quando em vida só nós próprios impossibilitar-nos-emos, seja por voluntarismo ingénuo, seja por pura incapacidade, seja, pior ainda, por repudiosa inércia e execrável ócio, de vencer continuamente.
Entendo as nossas limitações como penso todos nós entendemos, se não entendem começa desde aí o erro e o princípio para a derrota eterna; conheço também todas as nossas virtudes enquanto homem, tal significa que conheço bem a terra que piso, no entanto avisto frequentemente o céu que me vai pairando. Por isso, o ser humano olha para os seus pés, para a terra que os sustenta e interpreta subjectivamente - porque todos apesar de homens somos acima de tudo sujeitos – qual os passos limitativos e sinuosos do caminho a percorrer, para que depois de interpretados possa aí sim iniciar a sua caminhada já de cabeça erguida para o céu, o mesmo é dizer, para a vitória. Quero com isto demonstrar que, porventura, não alcançaremos o céu, não voaremos, não ganharemos asas, é essa uma das nossas físicas limitações; contudo, como seres pensantes voamos com asas ainda bem mais belas e eficazes, e no percurso que aceitamos e escolhemos explorar, as vitórias são conseguidas etapa a etapa, estrada a estrada: todas elas são vitórias. Parar, perdermo-nos no mapa que de antemão delineamos são sintomas de derrota. Sentir que em breve pararemos ou que nos perderemos são sintomas derrotistas, que apenas levam ao porto da derrota. Vencer caminhando só se conseguirá pensando que estamos a vencer, que continuaremos a vencer e que qualquer contratempo não passa disso, um contratempo, resolúvel com mais uma e outra, e mais outra revisão do mapa.
Estejamos, todavia, alertados para a presunção, ilusão, arrogância e maldade. Nada atingiremos sem uma dose, mais do que significativa de realismo, sem que se confunda realismo com pessimismo e resignação; nada atingiremos às cavalitas de outros, nem de nós próprios: não sejamos mais do que aquilo que somos verdadeiramente em cada ocasião e situação, não sejamos menos do que aquilo que somos verdadeiramente em cada ocasião e situação e, não sejamos medíocres e maldosos para com os que nos rodeiam porque no fim a taça estará nas nossas mãos, mas esta em vez de ouro será de um qualquer metal bem rasca sem qualquer valor. Pior, a vitória saberá a derrota pois ganhar à custa de outros é desviarmo-nos para uma outra estrada: a da perda de personalidade e identidade. Não é isto que deve ser entendido como vitória, compreendo a vitória como uma superação constante de novos desafios, insisto, olhar para o mapa desenhado a nossa gosto depois de minimamente conhecer o mundo, e dentro do possível profundamente a nós próprios, e assim assinalar todos os pontos do mesmo que fomos passando, e quaisquer outros que ainda possamos ao longo do tempo desenhar. O mapa é infinito, a nossa vida não. O nosso corpo é contingente, a nossa razão dizem que sim, mas os sonhos, desejos e vontades absolutas que racionalmente nos vamos cercando são ilimitados. Pois bem, é nisso que consiste o mapa. Pois bem, a vida consiste em ganhar. Como? Desenhando-o (o mapa), percorrendo-o, desenhando mais sempre que atingidos os pontos fulcrais, e assim sucessiva e continuamente.
O homem nasce da vitória festejando o seu nascimento com gritos e grande aparato, e, não obstante morrer - sendo que essa é uma tremenda derrota da natureza –, é nosso dever fechar os olhos para a eternidade com uma sensação silenciosa e emocionada de vitória. Honremos o que somos, trabalhemos para ganhar não só durante toda a vida mas também no momento da morte com um último pensamento suspirante: “Venci!”.

25/11/201

terça-feira, 23 de novembro de 2010

TU

I

Espantei-me com o crepúsculo,

Lembrei-me de ti espantado.

A isto é comum a sublimidade

Tanto das nuvens em redor do Sol

Como do teu rosto coberto pela memória.

A minha percepção visual é contingente

E a memória presente, mas impotente

Perante o Sublime do Céu

E o Sublime da tua recordação -

Do teu corpo, do teu jeito, do teu sorriso.

Quero tocar-te, não posso todavia.

Desejo admirar-te, não te toco porém.

És tão intangível como as matizes

Tão profunda como as raízes

Tão pouco visível como o pensamento

E tanto por mim amada, neste momento.



II

Entretanto escureceu, o Sol morreu,

A recordação permaneceu.

Sendo que tu aí estás, aí

Por entre o Sol e o Mar

Onde tudo é aparente,

Mas onde tudo se sente.

Ouço, agora, no escuro da luz artificial

A tua voz que é sentida como especial,

E ela dentro de mim, faz-me especial.

Fecho os olhos, ouço-a nitidamente.

Vejo novamente o Sol, de olhos fechados

Vejo-te a ti, e sinto-a ti nos meus braços;

Enclausorado no teu corpo

Sou o sublime do crepúsculo

Invadido pela tua recordação.

Sou fugaz paixão de um Sol

Que em breve repousa no Mar.

Esse Mar és tu, descanso para te amar.

Abro os olhos, e afinal é já noite.

Momentaneamente, pensei ser poderoso

A tal ponto de fazer noite dia.

Um poder cedido pela Deusa

Que és tu na minha memória.

É certo eu não ser milagroso

É-lo tu.

Crias milagres em mim

Contanto toda a tua sublimidade

Me causar tanta saudade,

Manter-me como homem que ama;

Mesmo sem te poder tocar

Continuarei a amar.

Haverá maior milagre do que esse?

Sem te poder percepcionar

Continuarei ciente de que sou o Sol

Que aparentemente repousa no teu mar.

Análogo ao milagre estético do anoitecer.



III

Este não é mais um poema de Amor:

É Amor em forma de poema.

Este não é um belo poema:

É a tua Beleza retratada em poema.

Minimamente.

Pois tamanha Beleza

Não ousa ser equiparada a simples

Palavras.

Bem, apenas uma:

Tu.


23/10/2010 - 17h45m

sábado, 20 de novembro de 2010

O MEU NOME É VIDA

Quem me pode condenar por a morte me aterrorizar? Eu sou a Vida e temo que deixe de o ser, pois o nada é o meu maior inimigo; não que me considere tudo num sentido estrito e literal de tudo, mas entendo que se o meu nome é Vida este pressupõe realidade, matéria, forma, paixões, pensamentos, prazeres – como, por oposição, certas irrealidades (os sonhos por exemplo), imatéria (fundamentalmente conceitos dos quais eu, entre muitos outros, sou criador), ausência de paixões e pensamento (sou livre de não sentir e/ou pensar), desprazeres. Possivelmente, isto que apresentei pode não estar inteira e inequivocamente conotado como sendo tudo, compreendo e aceito que assim é. Até porque se o tudo fosse este tudo, naturalmente resignar-me-ia, acomodar-me-ia e deixaria de ser Vida para me transformar num ser imutável, infalível e essencialmente estagnado. Ora, o meu nome não se coaduna com estas palavras.
Concluo, portanto, que não sou tudo e nem será esse o objecto que devo procurar. Concluo também que não quero ser nada porquanto apesar de possuir um signficado antitético de tudo, são dois conceitos equivalentes. Eu que sou Vida, não temo o tudo porque este é inantigível enquanto tudo, mas inevitável enquanto nada. O que é a imutabilidade, a infalibilidade, a estagnação – e outros nomes a estes subjacentes – do que meros atributos do nada? A evolução, a continuidade, a mutabilidade e, por aí adiante, estes sim são efectivos atributos da minha personalidade enquanto aquilo que sou – Vida.
Assim, o medo da morte é-me intrínseco, até porque, na verdade, ela é minha parente: a minha filha bastarda. Não me condenem por ter medo dela, é ele que me faz viver ainda mais; é resultado deste medo que o meu nome é Vida; é de todo preferível temer a morte do que morrer ainda vivo. Eu sou a Vida e, inexoravelmente deixarei de o ser, mas jamais mudarei o meu nome para Morte quando em vida.

20/11/2010

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

BEIJO

Num toque de umas mãos macias e reconfortantes o toque é cada vez mais especial porque é um toque de mãos especiais. Por isso, um toque teu, então sempre especial. No entrelaçar dos teus dedos nos meus, é como que dois corpos se fundissem numa espécie de ser inigualável e desconhecido, contudo tão forte e tão belo. São os teus dedos que saciam os meus, os meus servem-se dos teus para se sentirem possuídos e amados. Agora não tremem! Nem transpiram! E porque os teus dedos são especiais e por serem teus são especiais, e por fazerem os meus se sentirem especiais tornam-se ainda mais especiais. Só porque são teus.
Num abraço onde os meus braços jogam com os teus, encaixam como uma peça num puzzle, e o meu tronco cola-se ao teu, eu deixo de existir, deixo de sentir os meus pés pousados no sólido chão. Fico descalço e ganho asas, asas que não voam mas que flutuam, parece que tu me seguras com o teu olhar de longe. Sim, porque o teu corpo naquele instante também é meu, e o meu é teu, eu já não sei o que nos distingue. Apenas sei que naquele momento tudo à nossa volta está deserto até porque nada existe a não ser o nosso abraço. E por ser o teu abraço é especial, não só por ser teu, mas por me proporcionar o que me proporciona, não só por ser um abraço, mas também por ser o teu abraço. Por isso um abraço especial, por isso me é concedido a magia do céu. Só porque a tua cabeça se encosta ao meu ombro.
Num beijo ofegante, numa junção de dois lábios húmidos de sede de se beijarem, no leve fechar de olhos, eu figuro-me transcedente até o meu humanismo se esconder dentro da minha língua. Na escuridão da minha visão na hora vejo perfeitamente, o teu rosto. Admiro-te antes de derradeiramente fechar os meus olhos antes do beijo, e a tua imagem fica, deixo de ser composto por sangue, é a tua expressão que me invade e que me preenche, como ondas fortes a destruirem o areal de uma praia. Quando, depois do afastamento dos lábios, trincados de seguida pelos nossos dentes como sinal do nosso desejo, tudo o que é fisico em mim adormece menos a boca que sorri e os olhos que brilham de um brilhar inocente, não consigo afastar-me mais de meio centímetro da tua cara e, os meus lábios mais uma vez tremem. Sofrem por ti, pelos teus lábios. Porque querem-te beijar, o teu beijo especial. Aquele que por ser dado pelos teus lábios, pela tua língua torna-o especial, por ser sentido por ti já por si só é especial. É especial não porque é um beijo, mas sim porque é o teu beijo, o nosso beijo. Será sempre especial para nós!
Amanhã quando acordarmos vamos sentir o toque da mão de cada um, o corpo um do outro perto apesar de distante, e vamos sentir os lábios que ainda ontem foram beijados e tudo vai parecer uma insanidade, uma ilusão fresca e recente, um sonho precoce, uma irrealidade desejada... Mas, quando finalmente saborearmos o nosso paladar e sentir o aroma que nos circunda apercebemo-nos que o sabor é maravilhoso e bem real, e o cheiro é imensamente bom e bem presente. Porque afinal tu existes e eu existo. E nós, nós somos especiais por sermos nós! E nós tornamo-nos especiais por existirmos e sabermos da existência um do outro. Amanhão ou depois de amanhã continuaremos a ser especiais, porque isso não morre.

15/01/2005

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

A MONTANHA

Sei que um dia morrerei

E com isso tudo o resto

Morrerá.

A Montanha que treparei

Cobrir-se-á de gelo que

Inundará

A subida que foi tão prazerosa.

Enquanto que agora não descerei:

Morrerei.

Já não terei o topo como objectivo

Nem as profundezas como algo a

Evitar.

Assim subir ou tentar não descer

Parece sobremaneira uma paráfrase de

Amar.

Viver é, tanto amar o processo de escalar,

Como amar o processo inevitável de

Escorregar.

Ora na morte posso amar

Não escorrego nem escalo, porém posso

Morrer.

Então que se encare a morte

Como o último acto de

Amor.

Que a morte seja o fim,

O fim da Montanha, o fim do

Amor.

Seja esse fim no seu fim

Seja esse fim no fim do início.

Primordial é que o fim

Possa ser aceite como fim de um

Amor pela vida.

Um amor pela morte como fim

De uma vida

Amada.


01/11/2010