terça-feira, 5 de maio de 2020

Num Café.


Tomo um café. Fumo um cigarro. Depois outro. “Está frio”, ouço por entre outras palavras, umas percetíveis outras não, que são soltas e propagadas num espaço onde coexisto com esses seres falantes. Olho lá para fora e tudo é radicalmente diferente mas maravilhosamente semelhante ao que aqui dentro deslumbro. Ao meu redor, neste pequeno espaço interior, sou alguém, mesmo que numa micro-escala, sei que, se sair e abrir as portas do exterior serei apenas mais um: invisível, indetetável e insensível até para mim próprio. Opto e prefiro, portanto, ficar. Fumo mais um cigarro. E penso. E sou alguém.
A janela que me separa do exterior reflete árvores despidas sem pudor nem frio, pessoas que, pelo contrário, respiram ar gelado combatendo-o com roupas quentes sobre roupas quentes, ajeitando-as por vezes quando estas teimam em não as proteger convenientemente, como se tivessem vida própria. Todas estas pessoas caminham paralelamente aos carros que vão circulando na estrada. Não sei para onde vão, nem os caminhantes nem os condutores e respetivos passageiros. Possivelmente todos eles têm um fim nesta rotineira viagem, impossível porém de o determinar. Sei sim que a Grande Viagem comum a todos nós tem também em comum o seu destino. É dado adquirido, não o debaterei por isso.
Por ora, analiso o que os meus sentidos me declaram. Vejo uma imensidão que me fere os olhos, todavia, é como que se essa ferida me cegasse – tudo observo e nada se me deixa observar. Quanto aos outros quatro sentidos posso simplesmente constatar o paladar, ora agradável ora execrável a tabaco, embora compensado pelo sabor do café ainda presente; a audição já se perdeu em bosques de sons exteriores e mares de sons (vozes) interiores, assim sou surdo e tudo ouço, mas só a mim me faço ouvir, não compreendo pois o que ouço; o tacto é caneta e papel, pouco mais a dizer; por fim, não tenho olfacto apurado, digo então que cheiro palavras e pensamentos, sinto o perfume da escrita.
Dou por mim sentado e a fumar novamente. Tanto movimento à minha volta e eu não saio do sítio. Mesmo que me mova, na realidade continuarei imóvel enquanto os outros giram num carrossel onde sou espectador. Posso correr a maratona, pode consequentemente o meu corpo esgotar-se, continuarei mesmo assim, inerte. Podem todos os outros estarem estáticos e eu só interpreto movimento. Enfim, parece que o que me é exterior é a Terra e eu sou Sol, um Sol, no entanto, que nada ilumina nem se deixa iluminar. O Sol natural dá luz a tudo o resto e eu que nem sei que tudo o resto é esse.
Tenho a impressão de aqui estar há uma eternidade quando só há pouco existo. Tenho, ao invés, a impressão de que ninguém está aí, nem esteve, nem nunca estará. Existo e imobilizo-me intemporalmente pensando. O tal resto talvez exista, mas não pensando o seu pensar e o seu existir temporalmente contínuo.
Fumo o último cigarro. “Adeus” é a última palavra que ouço. “Quem me fala”, é a primeira e eterna pergunta que faço. Saio para o exterior e volto assim a ser mais um caminhando em direção incerta, mas sem sair do sítio.

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