domingo, 15 de março de 2009

Assim começarei...

I

Calei-me. Não que estivesse em diálogo com alguém ou talvez comigo próprio, mas porque o silêncio parece não existir mesmo calado. Desta vez, calei-me por tempo indeterminado. Agora não há voz que ouça, ou sons que se façam ouvir: a mudez reina! Intitulava-me conversador, um conversador solitário de colóquios surdos internos que idolatravam o existencialismo. Intitulo-me, hoje, um opaco ser só porque sim. Optei – nunca é demais reforçar – pelo vazio do não-pensamento. Surge-me, no entanto uma questão, um dilema quiçá: se não pensar o que sou eu então? Pensar que não penso, penso que não penso; não pensar que não penso, penso; Não pensar que penso, penso porque estou a pensar, mesmo não pensando que penso; alheando-me do pensamento, o pensamento me encontra e dele não consigo fugir. Que fuga é esta que tanto desejo e que deveras penso nela, mas de que dela não queria pensar? A simples decisão de me calar foi fruto de um pensamento lógico e racional, que assim sendo poderei afirmar que calei-me na ilusão de me conseguir calar.


Desisti. Admito uma desistência. Logo eu que gosto tão pouco de desistir, não tive outra alternativa. Decidi libertar a palavra em mim. Assim teve que ser. Não faz muito tempo, estava convicto da liberdade da tranquilidade, concluía eu que seria possível viver em harmonia na solidão do silêncio que me permitiria depois alcançar um estado de leveza única. A verdade pouco depois veio ao de cima por essa mesma falta de tranquilidade que irrompeu: só a morte proporcionará o silêncio absoluto. Aliás, na morte não haverá silêncio, muito menos barulho, simplesmente não haverá... nada. E nada é o quê? Nada no que me toca é dormir sem sonhar? Conseguem imaginar dormir sem sonhar? Eu não imagino. Eu sonho sempre que durmo, mesmo que não me lembre quando acordado do sonhado, sei por natureza que sonhei. Facilmente se percebe que se sonha quando se dorme, sente-se! Sem dúvida que se sente, abrem-se os olhos e eles sentem que absorveram imagens imaginadas, sonhadas. Quando as pálpebras abrem caminho para a luz da realidade, por milésimos de segundo nada nos parece familiar, isto porque a familiriazação estava naquilo que durante aquelas horas o nosso cérebro inconscientemente produziu. Ora, e se o nosso cérebro nada produzisse? Nada! Maldita palavra que muitas vezes, despreocupadamente, antecede uma conjugação de um verbo. Nada fiz. Nada comi. Nada colhi. Nada senti. Nada li. Nada escrevi. Nada. Leva-me a concluir afinal, que nada é tudo aquilo que não é. Se eu não sou, é o nada. Biliões de pessoas existem afirmarão, mas se eu não existir aí está o nada. Se eu não existir, finalmente me calarei. Como não morri, como não sou ainda o nada, desisti de me calar, retomando as palavras que de mim se soltam.