sábado, 27 de outubro de 2007

Faminto

Sede de conhecimento, fome de pensamentos organizados em pequenas gavetas, onde sempre que assim quisesse poderia escolher qual o alimento para cada dia.
Ser faminto na razão é, exageradamente distinto da necessidade puramente fisiológica do alimento comestível. A grande diferença está na insaciedade : por muito que se coma, o estômago superior sentir-se-á, sempre, insensivelmente vazio ou talvez indigesto.
Mera informação infinita, ilusivo infinito, que me faz ganhar litros de saliva racional, que me ampara da desidratação, mas me consome pela gula e a frustração de poder cheirar, de poder tocar sem, no êxtase, conseguir transformá-la no nosso devido alimento. Estado de loucura !
Futuramente, a indigestão continuará, continuando eu por necessidade e obrigatoriedade a tomar os meus medicamentos : uma caneta nos dedos durante duas horas, digerida com papel para saudavelmente ser registado pelo estômago superior; e pois claro, uma colher de pensamentos soltos, depois de todas as refeições reflectivas, que levarão à criação de anti-corpos de palavras.


A razão, a alma, a psyche, o que assim lhe queiram chamar, sendo o veículo prioritário na vida do Homem, sem dúvida alguma, permitir-nos-á praticar o Bem, incutir valores e princípios a todos que nos vao rodeando, fazendo do Mundo um lugar cada vez melhor. No entanto, as estradas que esse veículo percorrerá serão certamente sinuosas, levando a vómitos e enjoos racionais, que finalmente se concluirá num diagnóstico : quem é guiado pelo pensamento tem o poder de criar a Saúde, mas nunca será saudável.

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Antítese

Escrever poderá ser, nada mais nada menos, do que uma antítese óbvia da razão. Não haverá melhor disfarce carnavalesco, a máscara das sintaxes permite a quem a utliza com ajuste e perícia inúmeras formas de enganar a razão. A sua*1 e a de todos*2.

*1 A sua é enganada inconscientemente, pois as palavras tomam um controlo incalculável e imperceptível, pois é isso que o faz mover, é um poder incontrolável, é uma oligarquia da linguagem, onde a alma primeiramente quer governar, mas pobre deixa-se ser governado pelo que é mais apetitoso. Aí temos mais uma antítese curiosa : para liderar é necessário ser liderado. A razão por tanta vontade (Muitos falam o quão incorrecto e prejudicial pode ser a vontade) de manipular a vida, é batida sem mágoa pelas próprias armas simples/banais da própria vida.

*2 A de todos é, minuciosamente, defraudada, desta vez conscientemente (terceira antítese: Consciência e Inconsciência) pela razão de quem a se serve do dom da palavra. E afiarmar-me-iam : "Estarás a contradizer-te, pois anteriormente, terás dito que a razão é manipulada, portanto não poderá, por ventura, ter a capacidade de manipular outrem". A refutação a essa afirmação é-me facilmente explicável e, absolutamente, descritível : o activo controla o passivo sem sequer se aperceber que ele está também a ser controlado pela mesmíssima arma que está a usar e a abusar para dissuadir o objecto. Ou seja, a mentira prevalece sem ninguém concluir que é uma mentira. Porque acima de tudo, cada um mente e aldraba a sua razão, encadeando a razão de todos outros numa bola gigante e em crescimento, sem fim á vista, de mentiras e mais mentiras.

Depois destas duas situações, a conclusão dúbia, sempre dúbia, que posso chegar é que incessantemente, tem-se tentado, sem sucesso, alcançar uma desejada e, acima de tudo, intolerável verdade ! Mas a buscar será interminável, visto que enquanto existir a antítese raínha nada fará sentido : existem mentiras, mas só existe uma verdade. Porquê ?! Prefiro acreditar no valor antitético da coisa, siginficando, prefiro realmente acreditar que a minha verdade pode ser mentira, e a tua mentira pode ser verdade, e que a minha verdade pode ser a tua mentira, e a minha mentira pode ser a tua verdade ; prefiro acreditar governar-me a mim próprio e deixar-te governar-me, ou governar-te a ti e tu a mim ; prefiro conscientemente atingir a minha inconsciência, ou inconscientemente ser consciente. O importante será nunca deixar nada de lado, não excluir o que é contrário, não ter medo do erro, do que é falso, do que é sentido, do que é causado por percepções duvidosas.

Certamente, optarei pela pluralidade e não pela singularidade, optarei pelo tudo e o nada e não pelo DEFINIDO.

Escrever poderá ser, nada mais nada menos, do que uma antítese óbvia da razão.
Estou a ser altamente contraditório, não ?!

Deixem-me usar a minha máscara de Filósofo da treta para enfraquecer a ridícula busca pela verdade.

Eu sou a antítese.

domingo, 21 de outubro de 2007

6.14

No primeiro dia em que escrevo para este blog são exactamente 6h14m da manhã, vinte e dois de Outubro de 2007. Desdo logo, factuei algo : o tempo. Desde logo, a partir daí, desse facto, sou condicionado por memórias e pensamentos antecipados por percepções e sensações particulares. Assim o Ser Humano é conduzido, por filtros de recordações, experiências e emoções que nos precipitam em buracos de profundidade inalcançável, que nos fazem, durante essa queda, perceber que a razão não é mais do que uma simples pena a cair de um precipício. Ou seja, durante toda a vida nos iremos questionar sobre tudo que nem sequer sabemos que é tudo, e responderemos com um nada que não o conhecemos, pois não existe. O pior é que esse tumúltuo de questões sem resposta prolongar-se-á vagorasamente e, provavelmente, eternamente ( para quem acredita na eternidade).

"Vou dormir, dormir, dormir,
V0u dormir sem despertar,
Mas não dormir sem sentir
Que estou dormindo a sonhar."

Com Ricardo Reis me apresento e despeço deste primeiro dia de palavras racionalizadas em uma razão quebrável e frágil, visto que poderei estar apenas a sonhar.

Se assim for, está a ser um longo e fértil sonho que acabará quando perceber que jamais será possível despertar dele. E porquê ?! Porque a existência é, acima de tudo, questionável...