quinta-feira, 31 de março de 2011

À Procura da Leveza do Ser

“Acorda João!”, ouvi nem sei bem se na fantasia do sonho ou se na real sobriedade percepcionada. A verdade é que com isto despertei e muito lentamente me fui levantando. Senti-me sobretudo pesado, sem sono porém. Desgraçadamente nunca li “A Insustentável Leveza do Ser” de Milan Kundera, como também ainda mais desgraçadamente me é desconhecido o seu conteúdo. Algo, no entanto, me atormenta e inquieta: como pode a leveza dum ser ser insustentável? Hoje intitularei o meu dia “O Insustentável peso do Ser”.
À medida que vou preenchendo o dia solarengo com as mais elementares acções que alimentam o monstro insaciável da rotina, a carga ia também ela aumentando, enquanto a inquietude engordava e ganhava uma força tal que a única solução para a defrontar seria parar de me alimentar, ou seja, voltar ao sono que, não obstante, não raras vezes sucumbisse à poderosa consciência, sempre ia conseguindo manter a inconsciência tão prazerosa.
Enfim pronto para enfrentar o mundo lá fora que me espera sem saber que me espera e sem saber que eu a ele o espero – nem eu sei o que espero. Os quilos impesáveis que comigo levo fazem-me compreender a impossibilidade de serem constituídos por massa física: é um peso todo ele resultado de vivências, experiências, pessoas, conhecimento e desconhecimento, e, por último, pelo “Eu” deveras influente máximo. São quilos dum espírito pesado com tendência a pesar cada vez mais. Sei que assim é, e por isso, parto em busca de um regresso à inocência, ao espírito não influenciável e fechado em si mesmo, em si refugiado e pronto para voar sobre a beleza simplista da vida. Reflicto: será verdadeiramente possível encontrar o objecto desta busca? Não terá a vida uma beleza que se define por toda uma obesa complexidade?
Estas interrogações dão-me uma relativa sensação de desespero, até porque o peso que me acompanha e que inexoravelmente me cansa não desaparece. Devo é (será esta a solução a que me apresento e me proponho) procurar saber lidar com ele, recorrer ao mundo exterior sem qualquer medo de não aguentar a propagação do número de quilos do meu espírito, pois este só terá a ganhar com isso. Apesar de acordar exausto o objectivo é dar ao mundo o meu ser para que este me continue a dar a possibilidade de evolução, por muito árduo que tal seja.
Presumo ter ouvido “vai dormir João!”; noto que, na verdade, já me encontro no mundo dos sonhos. De momento deixo-me estar nesta – num certo sentido – leveza, mas amanhã e em todos os amanhãs repetirei a mesma rotina de sempre com a única diferença de vir a sentir-me ainda mais pesado (o importante é não me sentir cansado; caso me sinta esse é o inimigo a combater e vencer). Todos os dias sei que acordarei dizendo pensando “O Insustentável Peso do Ser”; contudo, depois de interiorizada a realidade irei todos os dias vivendo pela superação dessa insustentabilidade, por via de uma contínua gradação do peso do meu ser: só assim poder-me-ei vir a sentir puramente leve.

31/03/2011

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