terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

À MEMÓRIA DOS NOSSOS EDUCADORES

Não é meu costume – nem o será – explorar por esta via das letras a minha vida pessoal. Hoje abro uma excepção. Hoje faleceu o último de um dos meus grupos de educadores: o meu avô.
Há um ano atrás morrera a minha avó (sua esposa) e, na verdade, foi como que um dos membros do meu corpo tivesse sido amputado. Agora outro membro desapareceu. (Dói.) Mas como outrora regenerar-se-á o membro perdido, surgirá mais forte e rejuvenescido, guarnecido de memórias que não mais se perderão. É sabido que a educação é crucial para o ser humano, o que não se sabe é que a educação que dos meus avós recebi foi de uma inigualável e incomparável importância – se sou o que sou a eles muito devo.
É difícil imaginar uma vida que não tivesse sido marcada pela existência destas duas pessoas que percorrerão a eternidade através da minha e da vida dos restantes familiares. Tenho uma dívida para com eles que só poderá ser saldada continuando o meu caminho, seguindo os ensinamentos que me passaram e transmitindo-os, eu próprio, depois, às gerações vindouras. Eles não morreram, a sua obra continua em todos nós – obras dos grandes obreiros, um dia obreiros de outras obras, recordando sempre e continuamente que a magna obra fisicamente morreu hoje, é certo, mas axiológica e geracionalmente é infinita. Em mim, avô e avó, vocês são infinitos!; luzes que vão brilhando no meu ser a cada passo que dou, a cada palavra que pronuncio, a cada sorriso que brota do meu rosto – o mesmo que sempre vos encantou.
Morte? Não. Vejo vida em cada morte. Hoje observei um corpo morto e dele só conseguia ver vida, a minha, a dos meus familiares, a das recordações... enfim, todo um legado deixado que ofusca a tristeza e a fatalidade da extinção. Prometo dar continuidade a uma herança que pode ser muito simplesmente e metaforicamente isomorfizada como o menino deitado na cama entre dois idosos que o aconchegavam. Esta é a imagem que carregarei comigo até à minha velhice, esta é a vida imortal: o mesmo farei com os meus netos e estes com os seus e, por aí adiante, até à imortalidade hereditária.
É verdade que não acredito em Deus. É verdade, porém, que os meus avós conseguiram tanto em vida que Deus e a morte tornam-se irrelevantes. Sois tão ou mais presentes na noite como na luz!, pois a riqueza resultante desta última é de tal forma tamanha, profunda e enraizada que, daí, não há morte que valha. Em mim e em todos nós viverão!

Deixo um excerto de um texto escrito por mim na minha adolescência (o início do fim da educação prestada pelos meus educadores), ainda ingénua na escrita e, por conseguinte, mais pura; onde recordo com emoção alguns dos momentos da minha infância.

“Ai a minha infância, ai avô e avó! Que altura tão mágica foi essa! A rotina que eu tanto gostava. Ser acordado bem cedo pelos meus pais, ser depois levado a pé no colo do meu pai desde a minha casa até vossa casa no Bairro dos Pescadores. Mal lá chegava ia a maior parte das vezes para a vossa cama, dormir para o vosso meio. Que segurança, que tranquilidade sentia então. (...) Não existem pessoas pelas quais tenho mais gratidão do que os meus avós. Vou-vos ficar agradecidos para todo o sempre. Existe é um momento que vai ficar sempre marcado, aquele ou aqueles em que o meu avô me levava até ao rio douro, e atravessávamos de barco o rio, até a Afurada (terra natal do meu avô). Mas basicamente, o que ficará realmente marcado será a rotina da minha infância, o dia-a-dia que era protagonizado pelas mesmas personagens, o mais engraçado é que gostava dessa rotina, gostava mesmo. Avô e Avó adoro-vos, estarão sempre no meu coração.”


Por fim, um poema, porventura poderá parecer triste, mas que tem como objectivo fazer de um falecimento de um ente querido motivo de superação e exaltação da vida, das várias formas de vida:

Ó morte!,
Nada podes contra a
Sorte da vida passada do
Corpo.
Dele tomaste posse
Mas só nós o amámos.
E, só ele próprio efectivamente
Se possuiu.
Ó morte!,
Nada podes contra a
Sorte das recordações plantadas em
Vida.
Com ela acabaste
Mas só de nós depende a
Imortalidade.


22/02/2011

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