terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Breve Ensaio Sobre uma Ética da Aceitação

Neste dia do qual nada sei, não mais de que é meramente um dia como qualquer outro, debruçar-me-ei sobre um tema implicitamente por mim abordado em outras situações, e que o continuará a ser, por muito cansaço que daí advenha. Contanto seja para minha realização pessoal, como talvez – espero, mas não desespero – para realização dos outros, tornar-me-ei incansável no que a ele diz respeito, sendo que depois de muita reflexão decidi fazê-lo e iniciá-lo hoje. Refiro-me, pois bem, à problemática da ‘aceitação’.
Importante, antes de mais, salientar que, por ora, a dissertação tem uma raiz empírica e reflexiva, não obstante algumas leituras de certos autores e correntes, sejam elas filosóficas, poéticas ou romancistas. O que indicará uma análise de grosso modo subjectiva – sê-lo-á sempre, contudo mais do que poderá vir a ser futuramente. Daremos então início ao pequeno ensaio.
Se há, quanto a mim, maior mal no mundo antropológico, ético e social, ele é indubitavelmente a constante, contínua e, parece-me, infinita revolta interior de cada ser humano. Não me vou, adivinha-se, alongar numa abordagem e leitura sociológica ou numa ética global, pois, como proémio, devo e devemos esmiúçar a psicologia humana até ela estar completamente fragmentada. Depois sim, poderemos consequentemente e quase obrigatoriamente avançar para a etapa da Humanidade como um todo, passe o pleonasmo.
Ora, o que me diz a experiência é que arduamente o ser humano é capaz de, primeiro, aceitar o mundo tal como ele é, e, segundo, aceitar-se como ser limitado e dispensável (aqui nota-se um certo paralelismo com o Ser para a Morte de Heidegger). Neste mundo sentimos e presenciamos o bem, mas também o mal; sentimos a verdade, mas também a mentira é verdadeira como existente; há amor, porém, o que saberíamos sobre ele se não houvesse também o que lhe é antagónico: o ódio (e, talvez, outros demais sentimentos). Isto diz-nos que o mundo para Ser necessita de todos estes pares conceptuais e estas dicotomias. Porquê, perguntar-me-ão. Respondo, tremulamente, com outra questão, esta retórica: se assim não fosse o que seria da liberdade? Como seres livres que acredito sermos, é-nos dada a escolha de optar e devemos optar sempre que nos for possível em consciência, com uma razão que deve, sobremaneira, ter um papel imperial. A individuação e a individualidade devem prevalecer sem, todavia, nunca nos esquecermos da alteridade – não conseguiremos atingir esse princípio de individuação e, acima de tudo, mais importante ainda, um princípio de independência face aos outros se não respeitarmos e colocarmo-nos no lugar, precisamente, do outro. Acontece, é verdadade, olharmos para aquilo que nos rodeia e constatarmos uma mescla de maldade, rancor, desrespeito e tudo o que de mais frívolo podem pensar e imaginar; no entanto, se cumprirmos aquilo com que de antemão nos comprometemos então resta-nos aceitar o que nos rodeia que, por causas e circunstâncias variadas, tenha levado a que as pessoas não tenham podido comprometerem-se para com elas próprias, muito menos cumprir o que antes não puderam ter em conta. Aceitemos que assim seja e acreditemos que ao conseguirmos criar um caminho próprio, independente, sincero, egocêntrico e altruísta estaremos já, automaticamente, a contribuir para a mudança, por mínima, invisível e imperceptível que seja. Aceitemos e acreditemos nisso.
Quanto às nossas limitações e à nossa dispensabilidade, talvez envolva ainda um maior grau de dificuldade. Compreendo que não seja fácil aceitar que somos susceptíveis ao erro, constante e frequentemente; compreendo também a difícil aceitação de que somos dispensáveis para aqueles de quem por vezes mais gostamos. Porém, a verdade nua e crua é essa. E, se não o é para muitos, contribuiria para o seu bem aceitar que é essa a verdade e não outra. Todos morreremos e outros todos nascerão – o mundo seguirá o seu rumo natural. O que temos a fazer é entender e apreender que tanto nós como os entes queridos morrerão, seja, neste último caso, fisicamente ou sentimentalmente. O único sentimento que deve prevalecer até à morte é o amor por nós próprios e o amor pela vida, pela tão simples razão de deles não dependermos de causas externas. É o amor, portanto, mais independente, indestrutível e inabalável que se pode criar e, é o único que podemos aceitar incondicionalmente e cegamente. Todo o resto é para sentir, pensar, imaginar, dar e receber sabendo e aceitando de antemão que a qualquer momento chegará o fim.
Posto isto, relevo o facto de não se confundir aceitação com resignação. Ou seja, tudo aquilo que anteriormente foi exposto não deve levar a um niilismo passivo nem a um profundo desapontamento, pessimismo, negativismo e inércia/apatia. A vida é uma luta contínua, mas não uma revolta contínua. Continuaremos a lutar pelo que temos, pelo que ainda não temos e pelos outros por via de uma aceitação do que é tão complexo de aceitar; continuaremos a lutar pelo amor dos outros, pelo bem comum e por uma Humanidade mais humanizada, tendo, contudo, sempre em conta que tudo acaba e começa irremediavelmente e, que nada disto será concretizável na totalidade e perfeição, visto ser incontrolável. E, se, aceitarmos que assim é, a surpresa, a revolta e o sofrimento serão atenuados.
Ao longo do tempo que me espera desenvolverei mais aprofundadamente este assunto, por agora resta-me terminar: amo os que me são próximos e a humanidade até quando me for permitido e possível, amo-me a mim e à vida até a morte acabar comigo e com a vida. Até lá continuarei a aperfeiçoar esse amor caminhando pelo trilho sinuoso da aceitação dos limites – e tentativa de superação dos mesmos –, contingências e efemeridades.

25/01/2011

1 comentário:

Ana Mar disse...

Olá Bruno! Achei o texto simplesmente genial, adorei a forma como o escreveste, mas, esqueçeste-te de contar o quanto detestavas comer a sopa e como arreliavas a Avó Irene por esse motivo. Gostei imenso! Bjs