quarta-feira, 19 de outubro de 2011

A Pesada Pedra Onírica

O sonho cansa e desgasta mais do que a própria realidade; vivendo a vida pela vida sem uma segunda vida que, não é mais do que uma tentativa fugaz de fuga, elimina-se a possibilidade de virmos a padecer da doença da desilusão cujos sintomas são insuportáveis, tendo como fim uma morte em vida.
Fizeram-nos crer que “o sonho comanda a vida”, quando na verdade é a vida, tão cruelmente real, que comanda o sonho, incentivando-o a seguir um caminho menos sinuoso com o propósito de encontrar, por sua vez, um destino ideal e deslumbrante, onde impera o sucesso, palavras bonitas, relações perfeitas, cores poéticas, músicas saídas do céu que estimulam a felicidade em cada acto, enfim... Imediatamente nos apercebemos que foi a vida que nos encaminhou para esta vida ficcional, proporcionando tudo aquilo que a dura realidade não pode oferecer.
E é nesta competição entre a vida e o sonho que o cansaço e o desgaste vencem. Talvez seja aconselhável não sonhar e viver na simplicidade da resignação.

19/10/2011

terça-feira, 31 de maio de 2011

CARTA RACIONAL

Cara Razão,

É com pleno e puro agrado que te escrevo esta carta, a ti que estás em mim numa tal omnipresença que nada mais existe a não ser tu. Escrevo-te com o objectivo de me aproximar por via das palavras do Sol inatingível mas que me vai, quando possível, iluminando.
Quando me deixas na escuridão lágrimas vão caíndo como uma cascata de um rio outrora calmo, de corrente súbtil. O meu coração, em vez de sangue, bombardeia todo o tipo de sentimentos e emoções desencadeando posteriormente em sofrimento ou em vulgar felicidade – que não é mais do que outro género de sofrimento. Tu sabes, minha cara Razão. Tu sabes que quando me abandonas, por motivos que te são alienáveis, eu deixo de ser o ser que vai escrevendo esta carta, para ser o ser que vai lendo-a, inundando-a de paixão desesperante.
Por este meio, penso (lá está, penso!) poder criar um elo de ligação imutável, indestrutível e inseparável que consistirá por conseguinte numa constante troca de correspondência; mantendo, por sua vez, o rio o seu percurso esperado, sem desagradáveis surpresas. Quero-te (se quero tenho que poder) como o meu maior amor, como a natureza que vai controlando a corrente da minha vida tão verdadeira e correcta quanto puderes. Não deixes que os teus malditos adversários me conquistem, porquanto eu sou teu, não naturalmente, mas por arte; nasci terra de ninguém, fui proclamado pelos demónios das sensações e depois de numerosas e árduas batalhas fui conquistando a minha independência com o intuito de entregar-ta a ti, minha mais-do-que-tudo. Não obstante o inimigo estar não raras vezes à espreita, acredito nas tuas capacidades bélicas de me defender dele e das suas prazerosas e indiscutíveis tentações. Acredito e pretendo que esta carta reforce toda a tua confiança, que apesar de inabalável, é necessário ter em conta toda a precaução, pois se és confiante podes não ser o suficiente (ou não o ser eu) para me transmitires por inteiro e sem hemorragias pelo meio essa confiança.
Querida Razão, as tuas armas são-me indispensáveis e não as quero perder pois a guerra só terminará na morte. Pensamento, ponderação, análise são das armas mais importantes contanto não deixarem de ser mais sofisticadas, eficazes e superiores às armas passionais do inimigo. Peço-te portanto que não deixes de trabalhar nelas e, no que me diz respeito, vou também ajudando utilizando-as da melhor maneira possível. Creio que juntos vamos conseguir ser melhores!
Por fim, terminando como iniciei, declaro todo o meu amor por ti, sabendo eu que é recíproco. Ambos, também o sei, entendemos que este amor não é o Amor que o adversário nos tenta impingir, mas um amor mais alto, mais além, incomensurável. Minha Razão, a ti me dedico, o mesmo é dizer, que a mim me dedico. Juntos somos Uno, juntos somos mais e mais.

Assim me despeço.

Para sempre teu,

O Corpo.

Algures na Intemporalidade.


05/11/2010

quinta-feira, 21 de abril de 2011

ARCO-ÍRIS

O optimismo e, o que aqui intitularei, efeito arco-íris intrínsecos a uma pessoa, apesar da sua não intrinsecidade pode perfeitamente ser alcançado laboriosamente e pacientemente, se assim o entenderem, por outras pessoas, por qualquer um. Fazem, como exemplo, passar a ideia – desconheço sinceramente se verdadeira ou falsa – de que o povo africano possui essa alegria de viver e essa positividade inerente à vida ela própria (pois, nem que seja pelo singelo facto se viver), independentemente das características e facticidade desta; independentemente do tempo e espaço, da sociedade e cultura, saúde e bens materiais. A ideia é a de que África é a bandeira do efeito arco-íris.
Devo, porém, realçar que este tipo de comportamento respira muito mal com pessoas que estejam no outro pólo: obscuras, pessimistas. As cores vivas do arco-íris ferem os olhos escuros dos morcegos. O choque é doloroso, fundamentalmente pelo facto da luminosidade provocar sentimentos de incapacidade, desgosto e impotência naquele que é negro. Constatam a sua infelicidade como também as suas frustrações, levando com a estocada final através da ulterior e irrevogável frustração: não terem a capacidade de acender as luzes. Não é irremediavelmente assim, fiz questão inicialmente de clarificar que, é possível, de todo, superar um pessimismo compreensivelmente natural; contudo, deve sê-lo feito por eles próprios – é de uma enorme crueldade serem invadidos por cores de outros, por aquilo que ainda não são e que se vão consciencializando quererem vir a ser. Porventura, para alguns é uma ajuda principalmente para quem ainda é jovem, mas na maioria dos casos (a partir de uma certa idade mais profunda) a incompatibilidade e o antagonismo das cores resultam num duro e, quiçá, insuprível revés no seu bem-estar que não era por si só positivo.
Na realidade, é de notar que, não obstante o demonstrado, optimismo não é um sinónimo de felicidade, muito menos pessimismo de infelicidade. Importante é cada um entender quais os constituintes da sua natureza – inclusive a cor da sua personalidade – e, daí contrariar os que lhes poderão ser, no futuro, mais desfavoráveis e, aceitar os favoráveis aperfeiçoando-os. Acredito num mundo em que os arco-íris sejam vistos na noite e, em morcegos que voam alto em direcção ao sol.

21/04/2011

quarta-feira, 20 de abril de 2011

FILME VITAL

Tenho a ligeira impressão de que já é tão mecânico, em mim, querer analisar tudo o que está à minha volta, sobretudo – e isto é de uma extrema relevância para o que aí vem a seguir –, o ser humano, o mesmo é dizer, as pessoas que me são próximas e a mim próprio que começo a sentir que consigo prever os acontecimentos. Portanto, a vida, não obstante a sua imprevisibilidade como também a óbvia (quanto a mim, indiscutível) forma como tudo nela se encontra desligado, desconectado, não-relacionado – em caos, digamos –, leva-me, porém, a vê-la, à vida e, nela, essencialmente o Homem, como passível de ser minimamente controlada no que diz respeito, pois bem, às relações humanas.
Lembro-me de diariamente observar e penetrar-me no gesto do empregado do café em aceitar o meu pedido e o de todos os que chegam e os que se vão lembrando, enquanto vai também, ao mesmo tempo, recebendo o dinheiro, fazendo contas e mais contas, dando depois os devidos trocos que são retirados vezes sem conta da máquina registradora. O seu rosto, na maior parte do tempo, está tenso, como que estivesse num estado zombístico, adormecido mas activo nos seus afazeres, nas suas contas, nas suas palavras-chave (“bom dia”, “até logo” – curiosamente, diz-me sempre “até logo”, a não ser quando me despeço eu primeiro e o faço com outro cumprimento –, os vários números em forma de dinheiro e o tradicional “obrigado”), nas suas pseudo-relações com os clientes (aliás, são elas próprias relações zombie, tanto da maioria dos clientes como a do empregado) que, na realidade, eu sei que verei sempre aqueles rostos, aqueles gestos, aqueles cheiros, aquela pequena vida de uma infinita vida. Enfim, de tanto analisar a análise tornou-se a minha vida. Vejamos.
O mesmo acontece com as pessoas que me são próximas.e comigo próprio. No primeiro caso, a questão é de uma complexidade que tem tanto de gritante e dramática como de apaixonante e deslumbrante. Ora, estes sentimentos antagónicos sobre o outro, aqueles que se encontram em mim, no meu mundo pessoal, só me podem levar a uma conclusão também ela antitética: cada vez mais amo o Homem e simultaneamente cada vez mais me afasto dele. Entenda-se, quanto mais e melhor o conheço mais vontade – incontrolável diga-se – tenho de o conhecer ainda mais aprofundadamente. Estou, pois, apaixonado pelo Homem enquanto arte ou ciência, da arte mais requintada à ciência mais atractiva. As consequências disto são duas, uma positiva e outra negativa, e esta última é a que dá origem à conclusão de que esta onda reflexiva e experiencial em que me encontro sem dela cair (e não há volta atrás, depois desta virá outra, não a mesma, mas que me conduzirá ao mesmo destino – a rebentação), é em parte negativa, acima de tudo, para os outros porquanto comigo já não me preocupo muito, perceber-se-á mais à frente o porquê. Começarei, porém, pela consequência positiva. Ela é muito simples, amar o homem à distância permite-me gozar dessa experiência com enorme e incomparável proveito, como entretenimento, artisticamente, cientificamente. Não estou lá, estou de fora, dá-me azo, indubitavelmente, a aproveitar o que observo com desmedido prazer, pois, não é de esquecer que eu não estou lá, não me envolvo, sinto mas momentaneamente: sou um espectador sentado no cimena a ver um filme interminável. Aí estou ,e, sim, estou bem.
Contudo, esta é a parte positiva da coisa, a negativa é equitativa em relação à primeira, ou seja, é uma merda em contraste com o prazeroso filme. A questão está no facto das pessoas que de mim gostam poderem não aceitar o facto de serem meras personagens. Honestamente, entendo que não o aceitem, mas deviam, seria melhor para todos. É exigível – e assim o pensam – envolvimento de minha parte (o que é compreensível), o que não pensam, no entanto, é que eu envolvo-me sim, mas de outro modo: como espectador que ama as personagens do filme da minha vida. Não fossem a minha vida e o meu filme. Pois bem, isto deixa de ter um teor de negatividade se passar também eu a ser uma personagem, observadora, um figurante talvez. Esta dramaticidade, afinal, até é resolúvel e superável.
Ora, voltando ao tema central deste devaneio, eu poderei ser então o figurante mas que, bem entendido, sabe de cor a maioria das falas, uma grande parte do argumento. (Estranha sensação esta: realizo o filme da minha vida e vou escrevendo o texto à medida que o vou realizando.) Não controlo, é certo, as personagens mas já me entranhei nelas, sei como, quem e o quanto são. Nem o meu próprio papel de figurante controlo totalmente, o que não invalida que esteja perto, talvez no final já o consiga controlar perfeita e inteiramente.
Então, e por fim, a questão: controlar-me a mim próprio . Se em relação aos outros a questão só se pode olhar com negativismo caso esses mesmos outros não aceitem o que sou e eu aceitar que também devo fazer o esforço de ser mais do que um realizador / figurante, já sob o ponto de vista do meu Eu, a situação é mais problemática. Até que ponto toda esta mecanização que, em parte, engendrei e, noutra, a vida ela própria engendrou – e assim o continurá a fazer –, à qual já já vou conhecendo e, por conseguinte, manuseando, não colidirá com a minha personalidade e o meu comportamento? Será realmente conciliável ser eu mesmo realizador e (de figurante a) actor? Não entrarei em colapso? De momento, consigo meramente afirmar que amo o Homem (eu sei que esta asserção é-me recorrente), estou afastado dele, mas cada vez mais próximo de mim. Estou em crescendo na possibilidade de controlar, entender e aceitar aquilo que entendo das relações humanas, das que me dizem respeito, e das que não me dizem vou estudando para tal. Em oposição, estou em decrescendo na possibilidade de ser um homem como outro qualquer. Não que seja especial, não, sou simplesmente deficiente.
E, posto isto, termino dando uma resposta não definitiva às questões que lancei: um deficiente deste tipo pode viver como os outros, isto é, pode, ao que aqui interessa, relacionar-se, apesar de tudo, com os outros e com ele próprio de maneira sã e vulgar.


20/04/2011

domingo, 17 de abril de 2011

Tinta Invisível

Tolo aquele que caminha com o Livro da sua vida completamente aberto e escancarado. Somente o devemos abrir – sem, contudo, mostrar as notas de rodapé, estas unicamente nossas – quando encontrarmos pessoas que, com o seu devido tempo, nos façam sentir estrita confiança e, sobretudo, uma maravilhosa sintonia.
O Livro é nosso, é saudável lê-lo para nós próprios com regularidade; guardá-lo com máximo sigilo e inteira discrição; lê-lo a outros – poucos atenção! – quando necessário e adequável. Concluo iluminadamente: escrevamos as nossas vidas com tinta que só nós a possamos distinguir.

17/04/2011

quinta-feira, 31 de março de 2011

À Procura da Leveza do Ser

“Acorda João!”, ouvi nem sei bem se na fantasia do sonho ou se na real sobriedade percepcionada. A verdade é que com isto despertei e muito lentamente me fui levantando. Senti-me sobretudo pesado, sem sono porém. Desgraçadamente nunca li “A Insustentável Leveza do Ser” de Milan Kundera, como também ainda mais desgraçadamente me é desconhecido o seu conteúdo. Algo, no entanto, me atormenta e inquieta: como pode a leveza dum ser ser insustentável? Hoje intitularei o meu dia “O Insustentável peso do Ser”.
À medida que vou preenchendo o dia solarengo com as mais elementares acções que alimentam o monstro insaciável da rotina, a carga ia também ela aumentando, enquanto a inquietude engordava e ganhava uma força tal que a única solução para a defrontar seria parar de me alimentar, ou seja, voltar ao sono que, não obstante, não raras vezes sucumbisse à poderosa consciência, sempre ia conseguindo manter a inconsciência tão prazerosa.
Enfim pronto para enfrentar o mundo lá fora que me espera sem saber que me espera e sem saber que eu a ele o espero – nem eu sei o que espero. Os quilos impesáveis que comigo levo fazem-me compreender a impossibilidade de serem constituídos por massa física: é um peso todo ele resultado de vivências, experiências, pessoas, conhecimento e desconhecimento, e, por último, pelo “Eu” deveras influente máximo. São quilos dum espírito pesado com tendência a pesar cada vez mais. Sei que assim é, e por isso, parto em busca de um regresso à inocência, ao espírito não influenciável e fechado em si mesmo, em si refugiado e pronto para voar sobre a beleza simplista da vida. Reflicto: será verdadeiramente possível encontrar o objecto desta busca? Não terá a vida uma beleza que se define por toda uma obesa complexidade?
Estas interrogações dão-me uma relativa sensação de desespero, até porque o peso que me acompanha e que inexoravelmente me cansa não desaparece. Devo é (será esta a solução a que me apresento e me proponho) procurar saber lidar com ele, recorrer ao mundo exterior sem qualquer medo de não aguentar a propagação do número de quilos do meu espírito, pois este só terá a ganhar com isso. Apesar de acordar exausto o objectivo é dar ao mundo o meu ser para que este me continue a dar a possibilidade de evolução, por muito árduo que tal seja.
Presumo ter ouvido “vai dormir João!”; noto que, na verdade, já me encontro no mundo dos sonhos. De momento deixo-me estar nesta – num certo sentido – leveza, mas amanhã e em todos os amanhãs repetirei a mesma rotina de sempre com a única diferença de vir a sentir-me ainda mais pesado (o importante é não me sentir cansado; caso me sinta esse é o inimigo a combater e vencer). Todos os dias sei que acordarei dizendo pensando “O Insustentável Peso do Ser”; contudo, depois de interiorizada a realidade irei todos os dias vivendo pela superação dessa insustentabilidade, por via de uma contínua gradação do peso do meu ser: só assim poder-me-ei vir a sentir puramente leve.

31/03/2011

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

À MEMÓRIA DOS NOSSOS EDUCADORES

Não é meu costume – nem o será – explorar por esta via das letras a minha vida pessoal. Hoje abro uma excepção. Hoje faleceu o último de um dos meus grupos de educadores: o meu avô.
Há um ano atrás morrera a minha avó (sua esposa) e, na verdade, foi como que um dos membros do meu corpo tivesse sido amputado. Agora outro membro desapareceu. (Dói.) Mas como outrora regenerar-se-á o membro perdido, surgirá mais forte e rejuvenescido, guarnecido de memórias que não mais se perderão. É sabido que a educação é crucial para o ser humano, o que não se sabe é que a educação que dos meus avós recebi foi de uma inigualável e incomparável importância – se sou o que sou a eles muito devo.
É difícil imaginar uma vida que não tivesse sido marcada pela existência destas duas pessoas que percorrerão a eternidade através da minha e da vida dos restantes familiares. Tenho uma dívida para com eles que só poderá ser saldada continuando o meu caminho, seguindo os ensinamentos que me passaram e transmitindo-os, eu próprio, depois, às gerações vindouras. Eles não morreram, a sua obra continua em todos nós – obras dos grandes obreiros, um dia obreiros de outras obras, recordando sempre e continuamente que a magna obra fisicamente morreu hoje, é certo, mas axiológica e geracionalmente é infinita. Em mim, avô e avó, vocês são infinitos!; luzes que vão brilhando no meu ser a cada passo que dou, a cada palavra que pronuncio, a cada sorriso que brota do meu rosto – o mesmo que sempre vos encantou.
Morte? Não. Vejo vida em cada morte. Hoje observei um corpo morto e dele só conseguia ver vida, a minha, a dos meus familiares, a das recordações... enfim, todo um legado deixado que ofusca a tristeza e a fatalidade da extinção. Prometo dar continuidade a uma herança que pode ser muito simplesmente e metaforicamente isomorfizada como o menino deitado na cama entre dois idosos que o aconchegavam. Esta é a imagem que carregarei comigo até à minha velhice, esta é a vida imortal: o mesmo farei com os meus netos e estes com os seus e, por aí adiante, até à imortalidade hereditária.
É verdade que não acredito em Deus. É verdade, porém, que os meus avós conseguiram tanto em vida que Deus e a morte tornam-se irrelevantes. Sois tão ou mais presentes na noite como na luz!, pois a riqueza resultante desta última é de tal forma tamanha, profunda e enraizada que, daí, não há morte que valha. Em mim e em todos nós viverão!

Deixo um excerto de um texto escrito por mim na minha adolescência (o início do fim da educação prestada pelos meus educadores), ainda ingénua na escrita e, por conseguinte, mais pura; onde recordo com emoção alguns dos momentos da minha infância.

“Ai a minha infância, ai avô e avó! Que altura tão mágica foi essa! A rotina que eu tanto gostava. Ser acordado bem cedo pelos meus pais, ser depois levado a pé no colo do meu pai desde a minha casa até vossa casa no Bairro dos Pescadores. Mal lá chegava ia a maior parte das vezes para a vossa cama, dormir para o vosso meio. Que segurança, que tranquilidade sentia então. (...) Não existem pessoas pelas quais tenho mais gratidão do que os meus avós. Vou-vos ficar agradecidos para todo o sempre. Existe é um momento que vai ficar sempre marcado, aquele ou aqueles em que o meu avô me levava até ao rio douro, e atravessávamos de barco o rio, até a Afurada (terra natal do meu avô). Mas basicamente, o que ficará realmente marcado será a rotina da minha infância, o dia-a-dia que era protagonizado pelas mesmas personagens, o mais engraçado é que gostava dessa rotina, gostava mesmo. Avô e Avó adoro-vos, estarão sempre no meu coração.”


Por fim, um poema, porventura poderá parecer triste, mas que tem como objectivo fazer de um falecimento de um ente querido motivo de superação e exaltação da vida, das várias formas de vida:

Ó morte!,
Nada podes contra a
Sorte da vida passada do
Corpo.
Dele tomaste posse
Mas só nós o amámos.
E, só ele próprio efectivamente
Se possuiu.
Ó morte!,
Nada podes contra a
Sorte das recordações plantadas em
Vida.
Com ela acabaste
Mas só de nós depende a
Imortalidade.


22/02/2011

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Breve Ensaio Sobre uma Ética da Aceitação

Neste dia do qual nada sei, não mais de que é meramente um dia como qualquer outro, debruçar-me-ei sobre um tema implicitamente por mim abordado em outras situações, e que o continuará a ser, por muito cansaço que daí advenha. Contanto seja para minha realização pessoal, como talvez – espero, mas não desespero – para realização dos outros, tornar-me-ei incansável no que a ele diz respeito, sendo que depois de muita reflexão decidi fazê-lo e iniciá-lo hoje. Refiro-me, pois bem, à problemática da ‘aceitação’.
Importante, antes de mais, salientar que, por ora, a dissertação tem uma raiz empírica e reflexiva, não obstante algumas leituras de certos autores e correntes, sejam elas filosóficas, poéticas ou romancistas. O que indicará uma análise de grosso modo subjectiva – sê-lo-á sempre, contudo mais do que poderá vir a ser futuramente. Daremos então início ao pequeno ensaio.
Se há, quanto a mim, maior mal no mundo antropológico, ético e social, ele é indubitavelmente a constante, contínua e, parece-me, infinita revolta interior de cada ser humano. Não me vou, adivinha-se, alongar numa abordagem e leitura sociológica ou numa ética global, pois, como proémio, devo e devemos esmiúçar a psicologia humana até ela estar completamente fragmentada. Depois sim, poderemos consequentemente e quase obrigatoriamente avançar para a etapa da Humanidade como um todo, passe o pleonasmo.
Ora, o que me diz a experiência é que arduamente o ser humano é capaz de, primeiro, aceitar o mundo tal como ele é, e, segundo, aceitar-se como ser limitado e dispensável (aqui nota-se um certo paralelismo com o Ser para a Morte de Heidegger). Neste mundo sentimos e presenciamos o bem, mas também o mal; sentimos a verdade, mas também a mentira é verdadeira como existente; há amor, porém, o que saberíamos sobre ele se não houvesse também o que lhe é antagónico: o ódio (e, talvez, outros demais sentimentos). Isto diz-nos que o mundo para Ser necessita de todos estes pares conceptuais e estas dicotomias. Porquê, perguntar-me-ão. Respondo, tremulamente, com outra questão, esta retórica: se assim não fosse o que seria da liberdade? Como seres livres que acredito sermos, é-nos dada a escolha de optar e devemos optar sempre que nos for possível em consciência, com uma razão que deve, sobremaneira, ter um papel imperial. A individuação e a individualidade devem prevalecer sem, todavia, nunca nos esquecermos da alteridade – não conseguiremos atingir esse princípio de individuação e, acima de tudo, mais importante ainda, um princípio de independência face aos outros se não respeitarmos e colocarmo-nos no lugar, precisamente, do outro. Acontece, é verdadade, olharmos para aquilo que nos rodeia e constatarmos uma mescla de maldade, rancor, desrespeito e tudo o que de mais frívolo podem pensar e imaginar; no entanto, se cumprirmos aquilo com que de antemão nos comprometemos então resta-nos aceitar o que nos rodeia que, por causas e circunstâncias variadas, tenha levado a que as pessoas não tenham podido comprometerem-se para com elas próprias, muito menos cumprir o que antes não puderam ter em conta. Aceitemos que assim seja e acreditemos que ao conseguirmos criar um caminho próprio, independente, sincero, egocêntrico e altruísta estaremos já, automaticamente, a contribuir para a mudança, por mínima, invisível e imperceptível que seja. Aceitemos e acreditemos nisso.
Quanto às nossas limitações e à nossa dispensabilidade, talvez envolva ainda um maior grau de dificuldade. Compreendo que não seja fácil aceitar que somos susceptíveis ao erro, constante e frequentemente; compreendo também a difícil aceitação de que somos dispensáveis para aqueles de quem por vezes mais gostamos. Porém, a verdade nua e crua é essa. E, se não o é para muitos, contribuiria para o seu bem aceitar que é essa a verdade e não outra. Todos morreremos e outros todos nascerão – o mundo seguirá o seu rumo natural. O que temos a fazer é entender e apreender que tanto nós como os entes queridos morrerão, seja, neste último caso, fisicamente ou sentimentalmente. O único sentimento que deve prevalecer até à morte é o amor por nós próprios e o amor pela vida, pela tão simples razão de deles não dependermos de causas externas. É o amor, portanto, mais independente, indestrutível e inabalável que se pode criar e, é o único que podemos aceitar incondicionalmente e cegamente. Todo o resto é para sentir, pensar, imaginar, dar e receber sabendo e aceitando de antemão que a qualquer momento chegará o fim.
Posto isto, relevo o facto de não se confundir aceitação com resignação. Ou seja, tudo aquilo que anteriormente foi exposto não deve levar a um niilismo passivo nem a um profundo desapontamento, pessimismo, negativismo e inércia/apatia. A vida é uma luta contínua, mas não uma revolta contínua. Continuaremos a lutar pelo que temos, pelo que ainda não temos e pelos outros por via de uma aceitação do que é tão complexo de aceitar; continuaremos a lutar pelo amor dos outros, pelo bem comum e por uma Humanidade mais humanizada, tendo, contudo, sempre em conta que tudo acaba e começa irremediavelmente e, que nada disto será concretizável na totalidade e perfeição, visto ser incontrolável. E, se, aceitarmos que assim é, a surpresa, a revolta e o sofrimento serão atenuados.
Ao longo do tempo que me espera desenvolverei mais aprofundadamente este assunto, por agora resta-me terminar: amo os que me são próximos e a humanidade até quando me for permitido e possível, amo-me a mim e à vida até a morte acabar comigo e com a vida. Até lá continuarei a aperfeiçoar esse amor caminhando pelo trilho sinuoso da aceitação dos limites – e tentativa de superação dos mesmos –, contingências e efemeridades.

25/01/2011

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

EXISTES?

Completa-me vazio cheio de nada

que extravasa o infinito do tudo.

Exagera-me como fogo

quente escaldante e gélido de cortante.

Encontra-me pois encontrar-te-ei e

encontrar-nos-emos sem cedermos

a nós mesmos.

Grita-me,

grita pelo meu nome bem alto

até se tornar num som surdo de habituação.

Acena-me com as tuas mãos

que eu não conheço nem toco.

Olha-me cegamente

em visão diferente da dos outros,

da das indiferentes personagens da vida.

Importa-te porque eu sou

a personagem principal para o bem e para o mal.

Sorri para mim

com brilho incandescente e transparente

para conseguir chegar bem longe

até onde o desconhecido se desconhece.

Acarinha-me sem eu sentir

que já não sinto tristeza ou alegria

ou vida ou morte.

Acarinha-me acarinhando-me em ti.

Partilha-me

e suga todo o meu sumo

e a minha carne que tenho para partilhar

outrora e agora comigo

partilho-a um dia contigo.

Acorda-me de um sono real

de um sonho verídico e fatídico;

um sonho onde acabo num beco sem saída.

Puxa-me desse beco

e ensina-me o verdadeiro caminho,

a rua principal onde não existem

curvas nem atalhos.

Acaba comigo,

o que em tempos foi vida

e começa voluntariamente

o fim do que é belo.

Agarra-me a mão,

entrelaça-me os teus dedos nos meus

e vamos fugir para nossa sorte

para a minha salvação e a tua benção.

Ilumina-te para eu conseguir ver-te

porque na verdade ainda não te admirei.

Quem és tu?

Existes como eu existo

ou sou eu uma existência única?


23/12/2004