quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Renato Num Café

Tomo um café. Fumo um cigarro. Depois outro. “Está frio”, ouço por entre outras palavras, umas perceptíveis outras não, que são soltas e propagadas num espaço onde coexisto com esses seres falantes. Olho lá para fora e tudo é radicalmente diferente mas marvilhosamente semelhante ao que aqui dentro deslumbro. A meu redor, neste pequeno espaço interior, sou alguém, mesmo que numa micro-escala, sei que, se sair e abrir as portas do exterior serei apenas mais um: invisível, indetectável e insensível até para mim próprio. Opto e prefiro, portanto, ficar. Fumo mais um cigarro. E penso. E sou alguém.
A janela que me separa do exterior reflecte (prefiro utilizar para este contexto, mudando então o contexto, o verbo ‘reflectir’ em detrimento do verbo ‘transparecer’) árvores despidas sem pudor nem frio, pessoas que, pelo contrário, respiram ar gelado combatendo-o com roupas quentes sobre roupas quentes, ajeitando-as por vezes quando estas teimam em não as proteger convenientemente, tal como se tivessem vida própria. Todas estas pessoas caminham paralela e dessemelhantemente aos carros que vão circulando na estrada. Não sei para onde vão, nem os caminhantes nem os condutores e respectivos passageiros. Possivelmente todos eles têm um fim nesta rotineira viagem, impossível porém de o determinar. Sei sim que a Grande Viagem comum a todos nós tem também em comum o seu destino. É dado adquirido, não o debaterei por isso.
Reflicto por ora, o que os meus sentidos me declaram. Vejo uma imensidão que me fere os olhos, todavia é como que se essa ferida me cegasse – tudo observo e nada se me deixa observar. Quanto aos outros quatro sentidos posso simplesmente constactar o paladar, ora agradável ora execrável a tabaco, em que a contradição da apreciação, é complementada pelo sabor do café ainda presente; a audição já se perdeu em bosques de sons exteriores e mares de sons (vozes) interiores, assim sou surdo e tudo ouço, mas só a mim me faço ouvir, não compreendo pois o que ouço; o tacto é caneta e papel, pouco mais a dizer; por fim, não tenho olfacto apurado, digo então que cheiro palavras e pensamentos, sinto o perfume da escrita.
Dou por mim sentado e a fumar novamente. Tanto movimento à minha volta e eu não saio do sítio. Mesmo que me mova, na realidade continuarei imóvel enquanto os outros giram num carrocel onde sou espectador. Posso correr a maratona, pode consequentemente o meu corpo esgotar-se, continuarei mesmo assim, inerte. Podem todos os outros estarem mumiáticos e eu só interpreto movimento. Enfim, parece-me que o que me é exterior é a Terra e, eu o Sol, um Sol no entanto que, nada ilumina nem se deixa iluminar. O Sol natural dá luz a tudo o resto e eu que nem sei que tudo o resto é esse.
Tenho a impressão de aqui estar há uma eternidade quando só há pouco existo. Tenho, ao invés, a impressão de que ninguém está aí, nem esteve, nem nunca estará. Existo e imobilizo-me intemporalmente pensando. O tal resto talvez exista, mas não pensando o seu pensar e o seu existir temporalmente contínuo.
Fumo o último cigarro. “Adeus” é a última palavra que ouço. “Quem me fala”, é a primeira e eterna pergunta que faço. Saio para o exterior e volto assim a ser mais um caminhando em direcção incerta, mas sem sair do sítio.

22/12/2010

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