quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Juízo Último

Se nos auto-criticarmos como humildes julgam-nos arrogantes por declararmos a nossa humildade. Contudo, ao admitirmos que em nós só existe arrogância o julgamento será literal em vez de ser, como no caso anterior, contraditório à afirmação.
Se, porventura, apelidarem-nos de arrogantes, mesmo quando nos abstemos de uma auto-análise crítica, o mais certo é refutarmos ou aceitarmos. Refutando ou aceitando a conclusão por parte de quem nos julga será irremediavelmente a mesma: somos arrogantes. Por outro lado, a humildade quando a nós associada é antes de mais, rara, e, depois, tem sempre uma consequência inelutável: ao aceitarmos (nesta situação a aceitação é entendida como abstenção e/ou concordância) deixamos de ser humildes pois aos olhos do Homem ninguém é humilde quando aceita a sua humildade; ao refutarmos damos uma ideia de falsa modéstia e, portanto, uma arrogância mascarada, disfarçada.
Assim, a humildade é um conceito vazio e, mais do que isso, renegado pelo julgamento de outrem e louvável ao julgamento de si próprio para consigo próprio. Quanto à arrogância é o mais fácil dos conceitos, é uma boca cheia de comida. Ao pensarmos nesta curta dissertação como crível o melhor a fazer é exclamar: “sou humilde e por conseguinte arrogante! Sou composto por uma humilde arrogância e por uma arrogante humildade!”
Albert Camus diria: “conheci o que há de pior, que é o juízo dos homens. Para eles, nada de circunstâncias atenuantes, mesmo a boa intenção é considerada crime”, pois bem, esqueçamos o Juízo dos Homens e, quanto a mim, melhor esqueçamos o Juízo Final. Lembremo-nos sim, sempre, do juízo interior de cada um para cada um, para que no fim de cada fim o Paraíso Ético particular de cada sujeito seja proporcionado. E por quem? Não pelo Homem nem por Deus, mas por si mesmo.

17/12/2010

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