segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Gloriosa Solidão

Jean Genet configurou a beleza como a “ferida que ilumina”, ao mesmo tempo que no ecrã leio por entre as legendas de uma imagem de um documentário de Jean-Luc Godard “o homem tem, no seu pobre coração, lugares que ainda não existem... e onde a dor entra...a fim de que eles sejam”. Ora, é apoiado nesta ideia comum que analisarei o texto “O Estúdio de Alberto Giacometti” e o documentário cinematográfico “Histoire(s) du Cinéma”, iniciando uma viagem solitária até ao “ponto solitário de onde” eles devem ser observados.

Emoções Provocadas por uma Obra de Arte

Nas palavras de Genet denota-se uma quase irracionalidade perante aquilo que vai vendo, e por conseguinte, descrevendo. São palavras de um homem que se deixou emocionar por uma qualquer imagem estética e que daí - dessas sensações por ela provocadas - tirou suas próprias conclusões. Porventura, a primeira e, simultaneamente, última dedução situa-se no momento de solidão que caracteriza a solidão do contacto com o objecto (neste caso particular). Afirmo primeira e última pois toda a beleza será sustentada por uma espécie de interacção solitária entre o artista, o objecto e o ser estetizado.
Ou seja, Genet defende uma auto-criação de espaços infinitos de cada objecto onde nós como meros receptores/observadores devemos aceitá-los na sua infinitude e refugiarmo-nos num lugar que nos permita ter uma experiência da “descontinuidade do espaço”, que nos permita ser uno com o objecto.
Superado esse estádio, as sensações vão emergindo; o sentimento de beleza apodera-se do homem como que uma “ferida singular”, diferente para cada qual”, iluminando-os. Vejo, nesta concepção de Genet, uma vela acesa numa noite bem escura em um local deveras belo, onde a lua coberta por nuvens se esconde, sendo que que a única luz que vigora na escuridão é, precisamente, a da vela. No entanto, só nos apercebemos da beleza do que nos rodeia quando repentinamente somos atingidos pela cêra quente largada pela chama que nos ilumina. Ora, a verdade é que nunca deixamos de ver qual a paisagem que nos apoderava, todavia vimos com maior clareza a sua verdadeira beleza, e consequentemente o nosso lugar nela.
Em jeito de conclusão, citarei Dostoiévski para que possamos continuar a pensar nesta ligação entre dor e beleza: “O que vale mais: uma felicidade barata ou um sofrimento sublime? Caramba, o que vale mais?”. O terror e fascínio parecem andar ombro a ombro.

Cinema – O Vendedor Ambulante

Jean-Luc Godard explora através da história do Cinema a vida como vida e morte, como sujeito solitário, como sujeito que interage sem entender o outro sujeito em uma desconcertante ignorância. “É vivendo esta combinação de todas as forças do corpo que a vida cessa de se questionar a si mesma e se aceita como pura resposta, que nem sequer tem já necessidade de proclamar o seu consentimento a si mesma para ser o maior dos consentimentos”. A vida é o maior consentimento e o Cinema é a imagem dessa vida, imortal ao contrária da primeira. A intemporalidade do Cinema , salientada por Godard, concede a possibilidade de negar o vazio mas também de nos colocar à frente o olhar do vazio sobre nós. Ou seja, “a imagem é felicidade, mas perto dela mora o vazio, e todo o poder da imagem só se pode exprimir apelando-lhe”. Assim, tal como em Giacometti, a solidão evidencia-se como inelutável na procura do belo, do amor, da felicidade.
Entende-se, portanto, o Cinema como uma arma forte que duplamente combate o tempo e o protege servindo-lhe de abrigo, assegurando-se de que a História não se perca por entre a própria História (“Preciso de um dia para fazer a história de um segundo. Preciso de um ano para fazer a história de um minuto. Preciso de uma vida para fazer a história de uma hora. Preciso de uma eternidade para fazer a história de uma vida. Pode-se fazer tudo, à excepção da história do que se faz.”). Em suma, é o Cinema é uma “fábrica de sonhos” reais, numa vida que se quer de sonho.

Conclusão

Por entre todas as palavras aqui escritas, há uma que realço porque assim me levaram a fazê-lo, e porque pessoalmente o quis fazer: Solidão! O sujeito na vida ou na morte, na beleza ou na dor é, inevitavelmente, solitário e assim o tem que ser para então Ser. É, indubitavelmente, a “solidão a nossa mais certa glória.” Esta é a grande ideia que daqui sai reforçada.

20/04/2010

Trabalho Realizado para a Cadeira Estética II do curso de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Juízo Último

Se nos auto-criticarmos como humildes julgam-nos arrogantes por declararmos a nossa humildade. Contudo, ao admitirmos que em nós só existe arrogância o julgamento será literal em vez de ser, como no caso anterior, contraditório à afirmação.
Se, porventura, apelidarem-nos de arrogantes, mesmo quando nos abstemos de uma auto-análise crítica, o mais certo é refutarmos ou aceitarmos. Refutando ou aceitando a conclusão por parte de quem nos julga será irremediavelmente a mesma: somos arrogantes. Por outro lado, a humildade quando a nós associada é antes de mais, rara, e, depois, tem sempre uma consequência inelutável: ao aceitarmos (nesta situação a aceitação é entendida como abstenção e/ou concordância) deixamos de ser humildes pois aos olhos do Homem ninguém é humilde quando aceita a sua humildade; ao refutarmos damos uma ideia de falsa modéstia e, portanto, uma arrogância mascarada, disfarçada.
Assim, a humildade é um conceito vazio e, mais do que isso, renegado pelo julgamento de outrem e louvável ao julgamento de si próprio para consigo próprio. Quanto à arrogância é o mais fácil dos conceitos, é uma boca cheia de comida. Ao pensarmos nesta curta dissertação como crível o melhor a fazer é exclamar: “sou humilde e por conseguinte arrogante! Sou composto por uma humilde arrogância e por uma arrogante humildade!”
Albert Camus diria: “conheci o que há de pior, que é o juízo dos homens. Para eles, nada de circunstâncias atenuantes, mesmo a boa intenção é considerada crime”, pois bem, esqueçamos o Juízo dos Homens e, quanto a mim, melhor esqueçamos o Juízo Final. Lembremo-nos sim, sempre, do juízo interior de cada um para cada um, para que no fim de cada fim o Paraíso Ético particular de cada sujeito seja proporcionado. E por quem? Não pelo Homem nem por Deus, mas por si mesmo.

17/12/2010

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Renato Num Café

Tomo um café. Fumo um cigarro. Depois outro. “Está frio”, ouço por entre outras palavras, umas perceptíveis outras não, que são soltas e propagadas num espaço onde coexisto com esses seres falantes. Olho lá para fora e tudo é radicalmente diferente mas marvilhosamente semelhante ao que aqui dentro deslumbro. A meu redor, neste pequeno espaço interior, sou alguém, mesmo que numa micro-escala, sei que, se sair e abrir as portas do exterior serei apenas mais um: invisível, indetectável e insensível até para mim próprio. Opto e prefiro, portanto, ficar. Fumo mais um cigarro. E penso. E sou alguém.
A janela que me separa do exterior reflecte (prefiro utilizar para este contexto, mudando então o contexto, o verbo ‘reflectir’ em detrimento do verbo ‘transparecer’) árvores despidas sem pudor nem frio, pessoas que, pelo contrário, respiram ar gelado combatendo-o com roupas quentes sobre roupas quentes, ajeitando-as por vezes quando estas teimam em não as proteger convenientemente, tal como se tivessem vida própria. Todas estas pessoas caminham paralela e dessemelhantemente aos carros que vão circulando na estrada. Não sei para onde vão, nem os caminhantes nem os condutores e respectivos passageiros. Possivelmente todos eles têm um fim nesta rotineira viagem, impossível porém de o determinar. Sei sim que a Grande Viagem comum a todos nós tem também em comum o seu destino. É dado adquirido, não o debaterei por isso.
Reflicto por ora, o que os meus sentidos me declaram. Vejo uma imensidão que me fere os olhos, todavia é como que se essa ferida me cegasse – tudo observo e nada se me deixa observar. Quanto aos outros quatro sentidos posso simplesmente constactar o paladar, ora agradável ora execrável a tabaco, em que a contradição da apreciação, é complementada pelo sabor do café ainda presente; a audição já se perdeu em bosques de sons exteriores e mares de sons (vozes) interiores, assim sou surdo e tudo ouço, mas só a mim me faço ouvir, não compreendo pois o que ouço; o tacto é caneta e papel, pouco mais a dizer; por fim, não tenho olfacto apurado, digo então que cheiro palavras e pensamentos, sinto o perfume da escrita.
Dou por mim sentado e a fumar novamente. Tanto movimento à minha volta e eu não saio do sítio. Mesmo que me mova, na realidade continuarei imóvel enquanto os outros giram num carrocel onde sou espectador. Posso correr a maratona, pode consequentemente o meu corpo esgotar-se, continuarei mesmo assim, inerte. Podem todos os outros estarem mumiáticos e eu só interpreto movimento. Enfim, parece-me que o que me é exterior é a Terra e, eu o Sol, um Sol no entanto que, nada ilumina nem se deixa iluminar. O Sol natural dá luz a tudo o resto e eu que nem sei que tudo o resto é esse.
Tenho a impressão de aqui estar há uma eternidade quando só há pouco existo. Tenho, ao invés, a impressão de que ninguém está aí, nem esteve, nem nunca estará. Existo e imobilizo-me intemporalmente pensando. O tal resto talvez exista, mas não pensando o seu pensar e o seu existir temporalmente contínuo.
Fumo o último cigarro. “Adeus” é a última palavra que ouço. “Quem me fala”, é a primeira e eterna pergunta que faço. Saio para o exterior e volto assim a ser mais um caminhando em direcção incerta, mas sem sair do sítio.

22/12/2010

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Fora do Jogo mas Dentro da Arena

Pergunto - fazendo questão de deixar claro que eu não sou quem sou mas quem observa e escreve -: Porquê estudar Filosofia, Sociologia ou quaisquer outras ciências sociais e humanas quando já todos pensam serem filósofos, sociólogos e, por aí a diante, sem o estudo necessário que é sempre tão necessariamente necessário e contingente mesmo para os estudantes e praticantes? Nenhuns não-estudantes de engenheria, biologia, química, física, medicina (entre outras ciências naturais e técnicas) se demonstram perante os reais equivalentes estudantes como tão conhecedores, ao ponto de discutirem mano a mano questões relativas a tais disciplinas do saber.
É caso para concluir que há ciências que estão sujeitas a treinadores de bancada e outras que não; umas são putas (os estudantes destas aqueles que pagam mais caro) e outras donzelas.
Digamos que no primeiro ponto, chamemos-lhe “Arena do Saber”, uns encontram-se fora de jogo mas dentro dela, enquanto outros - os escravos - combatem estóicamente sob um pano de fundo de prazeres repugnantes e opiniões múltiplas dos que assistem. Noutra “Arena do Saber” o jogo é dos que livremente jogam sem assistência malfeitora, metidiça e donos desta; os outros, bem... esses refugiam-se na outra “Arena” rindo-se dos escravos e fazendo vénias invisíveis aos que são livres. Numa, os jogadores nem homens são, o que permite aos outros participarem (pensam eles com toda a legitimidade) no jogo mas fora dele; noutra, os jogadores são pequenos deuses e, como tal inalcançáveis e, como tal, a assistência não pode existir pois esta seria indigna de tais seres profanos.
Assim se vive numa posição politeísta quanto às ciências da natureza e técnicas contanto a sua contemplação aos deuses omniscientes - e, por isso, impassíveis de discussão - que as compõem. Em oposição, vive-se numa posição anárquica e ateísta quanto às ciências sociais e humanas. Escuso-me e recuso-me a apresentar o porquê, foi já tudo dito.

16/12/2010

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

DOMAÇÃO

Alguns tentam domar animais: revoltante. Outros tentam domar sociedades: necessário e ironicamente desvalorizado. Todos tentam domar as pessoas de quem são próximas: natural embora possivelmente evitável. Eu quero e tento alienar-me de tudo o resto para domar-me a mim mesmo: desgastante e laborioso, porém, louvável e enriquecedor. Mais do que um dever, um princípio; mais do que um princípio, um imperativo prazeroso.
Assim, se todos nós partissemos da última premissa tudo o resto pareceria claramente irrelevante e, por conseguinte, escusável.

07/12/2010

O Bem é (o) Conhecimento

Gradualmente o estudo da Filosofia e, inerentemente (deve sê-lo), o estudo de todos os saberes está-me a conduzir ao limiar da loucura. Ressalvo limiar visto crer que a loucura é meramente patológica.
À medida que os dias, meses (anos não menciono para já, assusta-me só pensar) vão passando, esta relação esquizofrénica entre mim e o saber, além de condicionar ligeiramente (adivinho que no futuro o advérbio de modo aplicado será precisamente o antónimo deste) o meu comportamento social, condiciona simultaneamente a relação, que tanto valorizo, do meu eu com a minha solidão. Todavia, no primeiro caso posso e podem lamentar que tal suceda, agora no segundo caso instintivamente e, num primeiro momento, lamentaria; mas, depois de uma fria e profunda análise reflexiva compreendo que a vida, deste modo, é um corpo que vou alimentando sem que seja saciado. A vontade de comer é óptima, o prazer de me alimentar é mais do que óptimo e, a insaciedade contínua – depois de todo este processo que consiste na vontade de comer e a sua concretização – é infinitamente maravilhosa.
Ora, que se dane a socialização e relações pessoais; que se dane o supérfluo, repentino e passageiro sofrimento que me presenteia a minha solidão bélica. É inigualável o prazer de querer comer ainda mais depois de tanto comer: por muito que coma não engordo e o prazer dos momentos de refeição não se perde por entre outros males que, quanto a mim, são puramente secundários. O grande mal está na insaciedade, mas na verdade é um mal aparente visto não ser mais do que um imenso e absoluto bem. O bem pelo e para o qual nasci; quero acreditar, o bem pelo e para o qual nascemos.
Talvez seja, posto isto, inevitável afirmar a inevitabilidade de uma misantropia?...


Novembro de 2010

sábado, 4 de dezembro de 2010

Alienação Transcendental

O passado pode ser lembrado mas não revivido, do mesmo modo, eu posso lembrar-me do que fui outrora mas não posso ser o que antes fui. Esta imperativa mutabilidade assusta-me, atemoriza-me pensar que sou apenas aquilo que sou neste preciso momento e que passado e futuro são simples ilusões, em que o seu único e secundário papel é o de condicionar o presente.
As saudades do meu passado, daquilo que eu era (fui) não são suficientes para sentir o quão bom era ser aquilo que em determinadas fases passadas da minha vida fui. Todavia relembro-as e comparo com o que sou hoje. E o que serei amanhã. A conclusão a que chego é esta: estou mais longe do mundo do que alguma vez estive, uma distância com tendência a aumentar. Quanto mais conheço o mundo, o ser humano, a mim próprio... mais me afasto deles.

04/12/2010