terça-feira, 20 de julho de 2010

Remador

“Estou contente, sou feliz, e, portanto, mau narrador”, afirmou Göethe na sua obra “Werther”. Não nego a sua veracidade, porquanto apesar da curta e, diria fugaz experiência, a felicidade deixa-me absorto; sentimentos de pura e máxima alegria libertam-me aprisionando-me na ociosidade e na atitude contemplativa desses sentimentos.
Não obstante tal, a verdade é que o oposto não significa uma prática antitética na escrita aquando da infelicidade, ou seja, esta pode ou não proporcionar ao narrador, ao escritor uma boa narrativa ou uma boa escrita, de qualidade. Portanto, esta polaridade sentimental do ser humano é – permitam-me a ousadia – bastante homogénea no homem comum; porém, no artista a heterogeneidade é inevitável, pois assim não poderia sê-lo (artista claro está). Sentem como todos os outros, os sentimentos são os mesmos, mas a forma de os abordar, sentir e interpretar são bem diferentes do comum ser humano. Não que me queira auto-rotular como um artista ou comum ser humano – não sei sequer onde poderei estar inserido, prefiro nem me preocupar com isso por agora –, contudo parece-me óbvio que a sensibilidade quase espiritual, divinal de um contrapõe com a sensibilidade contingente e limitada de outro.
Ora, um exemplo que poderei utilizar para demonstrar tal crença é o seguinte: o artista renega a felicidade optando por passear nas nuvens que vão pairando pelo céu desta; por outro lado, o homem procura incessantemente por ela querendo a todo o custo chegar ao céu da apoteose da comoção. Então, o artista conscientemente, por via de uma razão e sensibilidade evoluídas, segue o caminho da não-felicidade (isto é, não-felicidade mas também não-infelicidade) apenas para poder criar; e, criar é estar no limiar do homem feliz e infeliz; é navegar de canoa pelo rio, apreciando-o e, acima de tudo, explorando-o, sem escolher entregar-se a nenhuma das margens. De momento penso ter parado de remar, a canoa encontra-se parada ao sabor da corrente – isto se realmente puder considerar-me um artista.

Nota: O que é aqui discutido como felicidade e infelicidade pode ser introduzido com o mesmo conteúdo e parâmetros o amor e o ódio. Quem cria não deve mergulhar nas águas límpidas do amor nem nas águas obscuras do ódio: quanto a mim deve simplesmente continuar à superfície amando (só) os ventos da arte e as tempestades ou bonanças dos efémeros sentimentos.

20/07/2010

1 comentário:

Anónimo disse...

Ainda não tinha lido este...Parabéns, vais mesmo a fundo nesse rio. Rita*