domingo, 4 de julho de 2010

Construir ou Destruir

Alicerces são obrigatoriamente introduzidos numa construção projectada por pessoas que não são engenheiras, nem nunca serão. Embora sejamos todos engenheiros durante toda a nossa vida, porquanto vamos construindo e destruindo vários projectos que vão surgindo invariavelmente – projectos não projectados com antecedência ou idelizados de antemão. Seremos engenheiros de sucesso? Ser engenheiro na vida é ser engenheiro na profissão: os princípios, os meios e os fins são os mesmos. Resta-nos ir tentando, saber aproveitar aquilo que temos, o conhecimento que vamos alcançando e colocar em prática o que nos é possível praticar. Porém, nem sempre as acções coincidem com aquilo que pensamos, com o que idelizamos, com o que projectamos – os projectos acabam frequentemente por sairem frustrados.
Alicerçar é fundamental, mas inteirarmo-nos da gradual construção depois do alicerçado é mais do que fundamental, é vinculativo. Vínculo esse que nem sempre conseguimos cumprir, é sempre bem mais acessível alicerçar, inicar-se numa nova construção... No entanto, dar continuidade surge, imprevisivelmente, como tarefa mais árdua. A racionalidade impera no processo de construção, enquanto que impera o desejo e a vontade no processo de iniciação de construção. Digamos que, a necessidade mais do que racional (apesar de também considerar um processo racional) de encher uma banheira com água bem quente num daqueles Invernos bem frios é imperial, mas depois o enchimento, bem longo no tempo, leva muitas vezes à impaciência e à fria, impetuosa e pesada racionalidade. Acomodamo-nos na racionalidade e, porventura, a banheira já cheia não será no fim tão prazerosa como imaginaríamos no início. Enfim, quando há vontade de encher um banheira ou de iniciar uma construção deve – reitero e afinco – apreciar o som e a beleza transparente da água, como também o belo processo construtivo e transformativo do nada para o tudo de uma construção concluída (apesar de nunca estar definitivamente concluída). Jamais deverá fazer da sua racionalidade o seu alimento, deve ser simplesmente o meio, nunca o fim – o fim está no apreciar o enchimento e a construção. A razão a este nível leva pura e simplesmente à acomodação da própria razão como fim em si mesma.
A conclusão será sempre a mesma: constrói-se e destrói-se o que até ali foi construído, para que um dia possamos construir sem cometer os mesmos erros; enche-se uma banheira para depois esvaziá-la pensando-se que da próxima vez gostar-se-á mais daquela água que nos aquecerá.

04/07/2010

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