sábado, 5 de junho de 2010

Futuro

Cala-te! Endoideço em te ouvir não falar, por entre, através de mim. Deixa-me futuro, deixa-me, por favor, em paz. Peço-te! Imploro-te! Criei-te por minha imaginação e da minha mente fizeste tua, possuíste-a sem que te desse tal autorização, contra minha vontade infringiste a mais suprema das regras definidas por mim: passaste ao controle. Devo ser deus de mim próprio, e tu diabólico futuro transformaste-te, sem que me apercebesse, em meu deus; o meu deus é agora o diabo, portanto, sou eu agora o diabo de mim próprio, quando o que eu sempre quis – e continuo a querer – foi ser o meu deus, desacreditei perante todo o meu mundo os mais variadíssimos deuses para que o meu fosse magnânimo para, por fim, ele deixar de existir por substituição do diabo.
Cala-te! O teu silêncio ensurcedor faz-me doer a cabeça. Cala-te, fala mas cala-te! Entendes? Podes aí estar, é inevitável que estejas, mas não lances a chama da loucura para diante de mim. A minha loucura pessoal basta-me, não necessito nem me interessa a tua. Duas loucuras somadas dão um resultado infundado, de loucura desmedida, incalculável. Quero ser presente na minha presença; quero ser louco na minha loucura; quero ser ser no meu ser; quero pensar o presente, porventura o passado (não me parece mal); quero morrer já, se assim tiver que ser – não quero morrer em antecedência; quero ter-me aqui comigo e não lá onde ainda não estou. Por isso, vai vai-te embora, para o teu lugar. A gruta do futuro é no futuro, é impenetrável. Porque é que então me fazes entrar nela? Porque me fazes escuridão, ruído silencioso e matéria impalpável? Gentilmente solicito-te que te cales, mas como se estou preso na tua gruta? Só saíndo dela calar-te-ás, não que deixes de zumbir nos meus e de todos os ouvidos, mas porque deixarei de ser teu escravo. Pode um senhor não sequer falar, gritar com o seu escravo, contudo este último não o deixará de o ouvir, de o incomodar. A liberdade é o objectivo, torturante desejo que impede o silêncio. Quero ser livre de ti meu senhor futuro, meu diabo!
Cala-te! Liberta-me! Liberto-me, tenho e devo que me libertar. A liberdade está nas minhas mãos. Permito-me convencer de que é possível mandar de volta o diabo que, de momento sou, para o Inferno e chamar o deus que havia em mim de volta. Conseguirei regressar à minha omnipresença presente abrindo a barreira invisível que separa a gruta do mundo livre e presencial. Calei-te? Ah pois!, não mais voltar-me-ás a ter, pois serei para sempre intemporal, imortal na minha contingência. Até sempre. Ou será até quando?



05/06/2010

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