terça-feira, 1 de junho de 2010

A Fonte dos Pés

Indentitários pés. Unhas que complementam a identidade das extremidades dos membros humanos – beleza estranha esta. Imaculados ou imperialmente artificializados por vernizes de cores diversas que penetram na minha capacidade perceptiva de percepcionar tamanha imensidão. Os meus sentidos são tristemente incapazes de entender e absorver o objecto, que só por acaso – sim por acaso – está associado à natureza do Homem; a incapacidade realiza-se na capacidade destas palavras permitirem fazer-me imaginá-lo, a esse objecto, aos pés! Paradisíacos! Linguagem para que te quero senão para me fazeres a mim e a todos vós imaginar como se aqui estivessem à minha frente essas gloriosas formas constituídas por um denominado tarso e outro metarso, mas principalmente os dedos – esses não quero os nomear, simplesmente admirá-los, sem que para tal tenha que pensar em nomes. Se de momento me encontro no mundo das palavras, obrigo-me ou obrigam-me a nomear. Que seja então: esqueçamos os substantivos pé ou dedo, antes lembremo-nos e adoptemos fonte e água respectivamente. A fonte que refresca a paisagem e a quem por lá está perto (neste caso eu) e à água que produz um som inaudível de boniteza física, caminhando livremente por correntes dóceis em desmesura.
Compreendamos: há fontes e fontes, por conseguinte, há águas e águas. Consomem-me as que me impelem uma vontade imparável de mergulhar nelas, de as sentir por mais que não as sinta como gostaria. Quero aquelas que são quase como insensíveis ao que lhes é exterior e de sensibilidade extrema na sua intrinsecidade. Prentendo violentar violentamente a sua excelência sensível, porém é-me de todo impossível. Lindo! Foda-se! Este misto que a estética de tais fontes e águas me provoca arrebata-me e confunde-me. Impotência de me inteirar da sua beldade e potência de a cada vez que elas me surgem chorar sem lágrimas. Tenho feroz necessidade de beijar as águas que inundam o meu ser; ora, são elas que me inundam e me afogam, eu não as consigo usufruir na sua plenitude. Não sei nadar. Seria esse, porventura, o objectivo: nadar pelas águas, apreciá-las por entre o seu vermelho (ou azul, ou de brilho transparente, ou branco) sem que me afogue ou me canse; nadar sem parar, nadar sem que para isso seja preciso qualquer esforço e movimento físico.
Procuro uma vez mais a originalidade e identidade das fontes que vou vendo, das águas com que me vou deparando. Tento. Penso conseguir – pensamento erróneo esse. Esta procura desperta-me inexplicavelmente, talvez seja por não poder atirar-me a elas, busco portanto conforto na razão e na tentativa de ver ali algo de original e identitário. Inércia esta a minha. Se ao menos pudesse nadar! Se ao menos pudesse beijar as águas e não me molhar! Se ao menos pudesse escrever sem palavras. Satisfaço-me com o que me é possível então: a sua existência. A longitude entre mim e a sua beleza.

01/06/2010

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