domingo, 13 de junho de 2010

Folha em Branco

Uma folha em branco, um vazio

cheio de vazios a serem preenchidos.

Um nada prestes a revelar-se como

tudo, um tudo que ainda é nada.

Escrever é esse dualismo entre tudo

e nada.

Na escrita não há mestre nem aprendiz,

há mestres e aprendizes

mas ausentes.

Na escrita eu sou mestre e aprendiz,

ele é mestre e aprendiz;

é um processo solitário

onde a solidão é omnipresente

e a multidão distante de mim e dela.

As palavras surgem como gente,

como fileiras de gente

prestes a desesperarem e da fila sairem.

Elas violam-me com tamanha violência

que me deixam absorto,

morto de vida

para um papel que ganha vida;

para uma vida que nasce num papel.

A caneta deixa de ser caneta

tranformando-se em A caneta –

eu deixo de ser eu para passar a ser

eu, a caneta, as palavras e o papel.

Somos Uno, inexoravelmente violentamo-nos,

uma luta desigual, corpo-a-corpo,

uma luta sem corpo – abstracta;

uma luta de ferocidade inabalável,

luta sem luta – é essa a luta.

Escrever é deixar tudo para trás,

é pedir que o tudo venha a nós

deixando-o para trás.

Escrever é criar e criar é chorar

pela criação.

É sorrir para a criação

esperando por um sorriso de volta.

Criar na escrita é colmatar a falha

da criação de nós próprios,

é suor seco, é respirar tapando nariz e boca.

Escrever é pedir à solidão da escrita

que não te deixe só,

é pedir à tua solidão

que acabes com a solidão da

escrita.


13/06/2010

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