sexta-feira, 11 de junho de 2010

Alimento

Feri tanto a dor

que ela voltou ferida.

Indiscretamente ferida.

Voltei a feri-la

para que ela volte a voltar.

Firo-a pois rejeito-a;

Rejeito-a pois necessito-a;

Necessito-a como do ar,

como do amor que recebo

mas retenho-o e refrei-o.

A dor é maior quando insultada,

ultrajada por se magoar

na própria dor que dói nela

e em mim.

Porque ela sou eu nela

e ela ela em mim.

Não há vencedor ou vencido,

há entes que se ferem –

ferimentos intratáveis,

de cura desconhecida.

O homem é dor indolor,

como oxigénio que sufoca

e amor que se odeia.

O homem alimenta-se da dor

E a dor alimenta-se do homem.

Quem alimenta fere:

ela fere-nos e nós a ela.

Nunca passaremos fome

se a dor lá estiver sempre presente

e a morte ausente.




12/06/2010

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