domingo, 27 de junho de 2010

BELEZA (a Bernardo Bertolucci)

A beleza afugenta-se quando queremos tocá-la quando os nossos dedos não são dignos do seu toque. Afasta-se em grande velocidade em direcção à incomensurabilidade que as nossas mãos não entendem, nem a razão que nos impera compreende. A beleza está em nós não estando nós nela, parte de nós mas repela-se para um fim que é impossível, intolerável, incompreensível. Somos o criador mas não somos a beleza. Quando dizemos de uma mulher que é bela, a sua beleza está lá, mas é a beleza que é bela – não a mulher. A mulher transmite a beleza, é a sua criadora, nós que percepcionamos somos o seu receptor enquanto que a beleza nem é criadora nem receptora: é a transcendentalidade do inexprimível, do abstracto, do impalpável. Não pode, portanto, nunca ser roubada e/ou consumada.


21/06/2010

domingo, 20 de junho de 2010

JARDIM

Desabrochar as flores que antes estavam no

jardim

de verde pálido, um verde incolor

Correr por ele sem pisar o que não existe

Até entenderes que ao entrares, o meu

jardim

Renasceu. Floresceu – florescer, dar a viver.

Encontraste-me numa nudez correspondente ao

jardim

Num, enfim, brilho estrelado, florescente

que por incógnita razão brilhou até queimar

Queimei-me com o meu inerente brilho

com o brilho que deste a brilhar com o teu

corpo

a chamar pelo meu e o meu pelo teu

Como estrelas que se fundem numa só

Uma fusão de imensidão inigualável

de brilho intratável, invisível




Assim foi, pensei, pensaste e pensam todos

mas não foi nem é:

a união de dois corpos é de uma falsidade

só comparada a de um daqueles

jardins

com flores artificiais, com árvores de plástico

Sexo é o engano do amor sendo que o amor

é o sexo quando equivocado

Se creio no belo e no sublime não poderão estar

no sexo nem no amor

Igualmente o sexo e o amor não são

Belos nem Sublimes.

Amor e sexo são a antagonia da magia

vento que muda de direcção,

vento que tudo leva e que nada deixa

nem a ele mesmo

Imagino um azul que reflecte o alto mar

imagino esse olho brilhar como eu brilhei

no meu jardim

Olho inocente, olhar doce vulnerável como um doce

O vento leva o olho, os olhos e o olhar

para o alto mar, para a sua génese

O azul volta à origem, e o olhar inica o seu fim

mesmo exactamente quando todos pensam

que tudo agora começou.

Eu vejo simplesmente que tudo acabou.



21/06/2010

Bruno do Mar

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Maratona

Era escuro, a noite negra de indiferença, adormecida no nada de uma avenida sem fim. Sentia-se o aroma irritante de um elemento desconhecido, talvez mijo de gato, ou quem sabe, de humanos que sem qualquer pudor, com alguma dificuldade em controlar o seu corpo, não hesitaram em aliviar o de mais sofrimento. A música surda de sons inexistentes, mas que existem no nosso imaginário - conseguimos, então, ouvir o nosso inibido pensamento. A voz do cérebro impõe-se perante nós, perante todo o nosso corpo físico, perante a nossa visão, como que sem explicação falasse para nós...e não éramos nós. E eu pergunto: quem seria? Quem será tão mal educado e rude para invadir a nossa restrita consciência? Quem entra em mim? Quem fala comigo? Serei eu? Quem sou eu?
Agosto, na virtude do mês, num ano desinteressante como já há muitos permanecia; noite, noite, a madrugada a caminho, e eu andando ligeiramente, por vezes, um pouco lento quando algo me intrigava por mais inútil que fosse, pelas ruas, e que ruas? Por que nada me interessava, o sítio não me interessava, os carros não me interessavam, ninguém me interessava, eu não me interessava por mim, a vida não me interessava naquele momento. O momento era, incompreensivelmente não meu e pouco existente. No fundo, sei que aqueles minutos intemporais foram nada, foram pertencentes a uma alma desconhecida de alguém que não conheço. Sim, desconhecia e desconheço qual a alma que me fala ao ouvido directamente para a minha camada cinzenta dentro de mim criada pelo meu inconsciente. No entanto, tudo fazia sentido mas nada era racional.
Perante isto, hoje questiono-me se vale a pena questionar-me. Sei que cada vez menos sei, por isso, para quê compreender o que não se compreende? Hoje, as diferenças e as semelhanças continuam, mas com menos clareza e, ao mesmo tempo com mais sabedoria. A vida corre como numa maratona, há quem desista porque não consegue prosseguir; há quem se arraste porque não tem coragem e a estupidez de desistir; há quem se situe em último porque faz o que pode, é bravo e persistente, mas é incapaz; há quem se deslumbre no primeiro posto, no entanto, as surpresas e as desilusões acontecem, não controlamos o nosso corpo, nem em sonhos a nossa vida; há, ainda, quem corra com prudência, mas sempre ao mesmo nível, a bom nível rumo ao triunfo; há, por ultimo, quem participe na maratona porque por coincidência lá foi parar, interrogando-se assim o que lá está a fazer, o que faz com que ele corra. E, neste caso, normalmente, estes pensam mais do que correm, teorizam mais do que agem, e então, não saem do mesmo sítio, da mesma posição, da vida monótona e triste. Neste grupo de pessoas estou eu incluído. Porquê, eu nao sei! Sei, pois, que vejo em tudo o nada e no nada o tudo. Tento-me revoltar mas não consigo, tento acordar mas num sono vivo....morto.


(data: algures na minha adolescência)


Até Sempre Adolescente.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Quem Sou EU Afinal?

“Quem és tu?”, perguntam-me. Assertivamente respondo que eu sou estas palavras que lêem; sou a vossa leitura destas palavras, sou textos e mais textos; sou vocês, sou o que vocês querem que eu seja. Sou indubitavelmente vosso e vocês são o que eu sou mesmo que eu não seja o que vocês são. Portanto, não me perguntem quem eu sou pois não vale a pena, é desnecessário, dispensável, escusado e inútil. Até porque é uma pergunta ousada e descontextualizada dentro do contexto em que estamos - eu sou aquele que escreve. Nada mais. O leitor deve meramente apoderar-se das minhas palavras, fazerem delas o que bem desejar, e se estas mesmas provocarem no leitor sensações ou pensamentos, sejam eles maus ou bons, elogiosos ou críticos, é esse o objectivo. Por isso sim, eu sou o que vocês quiserem: bom, mau, interessante, desinteressante, egoísta, altruísta, sensível, insensível... Enfim, eu não sou a pessoa, sou sim as pessoas – o que verdadeiramente sou como a pessoa diz respeito inteiramente a mim, mim esse que não existe quando aqui estou; mim esse que existe mas é um mim aqui e não lá.
Não há eu, há o eu de quem escreve que, pode ser num dia um e noutro outro. Os outros que receberam, parece-me claro, a mesma educação que eu recebi. São provavelmente irmãos, filhos dos mesmos pais que incutiram valores muito semelhantes, que semearam neles as palavras que entretanto são abusadas por estes, diria abusadas com tamanha insubordinação e ligeireza que fazem deles a mesma pessoa. Ora, os pais como semeadores acabam também por ser a mesma pessoa, ou seja, o eu sou eu, os meus pais, os meus irmãos, os meus filhos, os meus netos, os meus amigos, os meus inimigos, os conhecidos e desconhecidos... todos eles sou eu e eu eles.


O caminho a percorrer ainda é longo, todos estes entes de que falei serão cada vez mais e maiores, uns vão morrendo na caminhada, outros vão surgindo num processo que só findará na morte. Uma morte não física, a morte do ente que escreve, a morte do leitor. Algo é inequívoco: não deixarei de caminhar, as minhas pernas ainda estão bem frescas, todo o meu corpo está mais do que disponível para andar, porém sem correr. Para quê a pressa? Continuarei, não nego, na minha solidão (polémica por sinal) utlilatarista, na minha busca por mim e por vocês, na minha busca sem apropriação, sem entrega. Continuarei, não nego, na minha aventura pessoal e subjectiva pelo conhecimento tanto empírico como racional, na minha aventura pessoal e subjectiva pelo envolvimento de mim comigo próprio e de mim comigo próprio para vocês, mas comigo próprio – sempre!


14/06/2010


Bruno do Mar

domingo, 13 de junho de 2010

Folha em Branco

Uma folha em branco, um vazio

cheio de vazios a serem preenchidos.

Um nada prestes a revelar-se como

tudo, um tudo que ainda é nada.

Escrever é esse dualismo entre tudo

e nada.

Na escrita não há mestre nem aprendiz,

há mestres e aprendizes

mas ausentes.

Na escrita eu sou mestre e aprendiz,

ele é mestre e aprendiz;

é um processo solitário

onde a solidão é omnipresente

e a multidão distante de mim e dela.

As palavras surgem como gente,

como fileiras de gente

prestes a desesperarem e da fila sairem.

Elas violam-me com tamanha violência

que me deixam absorto,

morto de vida

para um papel que ganha vida;

para uma vida que nasce num papel.

A caneta deixa de ser caneta

tranformando-se em A caneta –

eu deixo de ser eu para passar a ser

eu, a caneta, as palavras e o papel.

Somos Uno, inexoravelmente violentamo-nos,

uma luta desigual, corpo-a-corpo,

uma luta sem corpo – abstracta;

uma luta de ferocidade inabalável,

luta sem luta – é essa a luta.

Escrever é deixar tudo para trás,

é pedir que o tudo venha a nós

deixando-o para trás.

Escrever é criar e criar é chorar

pela criação.

É sorrir para a criação

esperando por um sorriso de volta.

Criar na escrita é colmatar a falha

da criação de nós próprios,

é suor seco, é respirar tapando nariz e boca.

Escrever é pedir à solidão da escrita

que não te deixe só,

é pedir à tua solidão

que acabes com a solidão da

escrita.


13/06/2010

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Alimento

Feri tanto a dor

que ela voltou ferida.

Indiscretamente ferida.

Voltei a feri-la

para que ela volte a voltar.

Firo-a pois rejeito-a;

Rejeito-a pois necessito-a;

Necessito-a como do ar,

como do amor que recebo

mas retenho-o e refrei-o.

A dor é maior quando insultada,

ultrajada por se magoar

na própria dor que dói nela

e em mim.

Porque ela sou eu nela

e ela ela em mim.

Não há vencedor ou vencido,

há entes que se ferem –

ferimentos intratáveis,

de cura desconhecida.

O homem é dor indolor,

como oxigénio que sufoca

e amor que se odeia.

O homem alimenta-se da dor

E a dor alimenta-se do homem.

Quem alimenta fere:

ela fere-nos e nós a ela.

Nunca passaremos fome

se a dor lá estiver sempre presente

e a morte ausente.




12/06/2010

Da Noite Dia

Um dia

consegui com que a noite fosse dia.

Um dia

o Sol voltou a brilhar porque

alguém me fez apaixonar.

Um dia

não de azar fizeste-me brilhar

com o teu brilho.

Um dia

como que por magia fizeste-me

sentir algo que antes não sentia.

Um dia

no escuro intenso e florescente

de uma dança,

a minha balança deixou de descair.

Um dia

beijei-te e fizeste-me rir.

Fiz-te rir.

Um dia

tudo continuou

ainda bem que nunca terminou.

Nem vai terminar.

Porque amar um dia,

é amar até jamais se cansar.

Um dia

partilhámos experiências pioneiras,

inteiras de felicidade, da tua beldade,

da minha bondade, da nossa privacidade,

proveniente da nossa amizade.

Um dia

também sofremos,

e vivemos tristes momentos,

que os ventos do norte os pode levar,

lá para bem longe, lá para além mar.

Um dia

superámos cedo o nosso medo.

*

Um dia

não nos iremos perder de ser

o mais bonito ser num só ser.

Um dia nós os dois continuaremos juntos

porque é o destino, e é muito bem-vindo.

Um dia

já não será um dia,

mas para sempre sem a força da palavra

sempre.

Um dia

é hoje, ontem e amanhã,

um dia somos nós.

Um dia

são pedidos de desculpas

e declarações de amor.

Um dia

é a verdade e não a mentira,

é a sinceridade e não a hipocrisia.

Porque um dia,

quero que seja o nosso dia.

Intemporal.

Um dia

partiremos num barco,

aos deslizes como todos,

para ancorarmos e sermos

finalmente felizes.


18-05-2005

(Poema bem antigo, escrita bem diferente da que hoje me caracteriza - julgo eu)

sábado, 5 de junho de 2010

Futuro

Cala-te! Endoideço em te ouvir não falar, por entre, através de mim. Deixa-me futuro, deixa-me, por favor, em paz. Peço-te! Imploro-te! Criei-te por minha imaginação e da minha mente fizeste tua, possuíste-a sem que te desse tal autorização, contra minha vontade infringiste a mais suprema das regras definidas por mim: passaste ao controle. Devo ser deus de mim próprio, e tu diabólico futuro transformaste-te, sem que me apercebesse, em meu deus; o meu deus é agora o diabo, portanto, sou eu agora o diabo de mim próprio, quando o que eu sempre quis – e continuo a querer – foi ser o meu deus, desacreditei perante todo o meu mundo os mais variadíssimos deuses para que o meu fosse magnânimo para, por fim, ele deixar de existir por substituição do diabo.
Cala-te! O teu silêncio ensurcedor faz-me doer a cabeça. Cala-te, fala mas cala-te! Entendes? Podes aí estar, é inevitável que estejas, mas não lances a chama da loucura para diante de mim. A minha loucura pessoal basta-me, não necessito nem me interessa a tua. Duas loucuras somadas dão um resultado infundado, de loucura desmedida, incalculável. Quero ser presente na minha presença; quero ser louco na minha loucura; quero ser ser no meu ser; quero pensar o presente, porventura o passado (não me parece mal); quero morrer já, se assim tiver que ser – não quero morrer em antecedência; quero ter-me aqui comigo e não lá onde ainda não estou. Por isso, vai vai-te embora, para o teu lugar. A gruta do futuro é no futuro, é impenetrável. Porque é que então me fazes entrar nela? Porque me fazes escuridão, ruído silencioso e matéria impalpável? Gentilmente solicito-te que te cales, mas como se estou preso na tua gruta? Só saíndo dela calar-te-ás, não que deixes de zumbir nos meus e de todos os ouvidos, mas porque deixarei de ser teu escravo. Pode um senhor não sequer falar, gritar com o seu escravo, contudo este último não o deixará de o ouvir, de o incomodar. A liberdade é o objectivo, torturante desejo que impede o silêncio. Quero ser livre de ti meu senhor futuro, meu diabo!
Cala-te! Liberta-me! Liberto-me, tenho e devo que me libertar. A liberdade está nas minhas mãos. Permito-me convencer de que é possível mandar de volta o diabo que, de momento sou, para o Inferno e chamar o deus que havia em mim de volta. Conseguirei regressar à minha omnipresença presente abrindo a barreira invisível que separa a gruta do mundo livre e presencial. Calei-te? Ah pois!, não mais voltar-me-ás a ter, pois serei para sempre intemporal, imortal na minha contingência. Até sempre. Ou será até quando?



05/06/2010

terça-feira, 1 de junho de 2010

A Fonte dos Pés

Indentitários pés. Unhas que complementam a identidade das extremidades dos membros humanos – beleza estranha esta. Imaculados ou imperialmente artificializados por vernizes de cores diversas que penetram na minha capacidade perceptiva de percepcionar tamanha imensidão. Os meus sentidos são tristemente incapazes de entender e absorver o objecto, que só por acaso – sim por acaso – está associado à natureza do Homem; a incapacidade realiza-se na capacidade destas palavras permitirem fazer-me imaginá-lo, a esse objecto, aos pés! Paradisíacos! Linguagem para que te quero senão para me fazeres a mim e a todos vós imaginar como se aqui estivessem à minha frente essas gloriosas formas constituídas por um denominado tarso e outro metarso, mas principalmente os dedos – esses não quero os nomear, simplesmente admirá-los, sem que para tal tenha que pensar em nomes. Se de momento me encontro no mundo das palavras, obrigo-me ou obrigam-me a nomear. Que seja então: esqueçamos os substantivos pé ou dedo, antes lembremo-nos e adoptemos fonte e água respectivamente. A fonte que refresca a paisagem e a quem por lá está perto (neste caso eu) e à água que produz um som inaudível de boniteza física, caminhando livremente por correntes dóceis em desmesura.
Compreendamos: há fontes e fontes, por conseguinte, há águas e águas. Consomem-me as que me impelem uma vontade imparável de mergulhar nelas, de as sentir por mais que não as sinta como gostaria. Quero aquelas que são quase como insensíveis ao que lhes é exterior e de sensibilidade extrema na sua intrinsecidade. Prentendo violentar violentamente a sua excelência sensível, porém é-me de todo impossível. Lindo! Foda-se! Este misto que a estética de tais fontes e águas me provoca arrebata-me e confunde-me. Impotência de me inteirar da sua beldade e potência de a cada vez que elas me surgem chorar sem lágrimas. Tenho feroz necessidade de beijar as águas que inundam o meu ser; ora, são elas que me inundam e me afogam, eu não as consigo usufruir na sua plenitude. Não sei nadar. Seria esse, porventura, o objectivo: nadar pelas águas, apreciá-las por entre o seu vermelho (ou azul, ou de brilho transparente, ou branco) sem que me afogue ou me canse; nadar sem parar, nadar sem que para isso seja preciso qualquer esforço e movimento físico.
Procuro uma vez mais a originalidade e identidade das fontes que vou vendo, das águas com que me vou deparando. Tento. Penso conseguir – pensamento erróneo esse. Esta procura desperta-me inexplicavelmente, talvez seja por não poder atirar-me a elas, busco portanto conforto na razão e na tentativa de ver ali algo de original e identitário. Inércia esta a minha. Se ao menos pudesse nadar! Se ao menos pudesse beijar as águas e não me molhar! Se ao menos pudesse escrever sem palavras. Satisfaço-me com o que me é possível então: a sua existência. A longitude entre mim e a sua beleza.

01/06/2010