sexta-feira, 21 de maio de 2010

Pessoas

Eu estou para as pessoas, entre elas, para elas, com elas, sem elas e com elas sucessiva e consequentemente; contudo, não me interessam. São pessoas e eu outra, e eu sou A pessoa, sou eu, eu interesso-me, eu atinjo-me, sinto-me... Sou deus de mim próprio, permito-me crer ou descrer o que sou. A fé em fé, a metafísica que não é mais do que física da metafísica.
Então, as pessoas são pura metafísica, por isso deuses humanos, deuses antropomorfizados - interessante politeísmo. São, portanto, equiparáveis a tudo na natureza. Limito-me (sim é uma limitação, imposta por mim próprio porque conscientemente desejo essa limitação) a amá-las, odiá-las (poucas vezes, ou nunca; ódio a que chamo ódio mas não o é, não como o entendem, ódio como eu o entendo, como eu o sinto), cheirá-las, ouvi-las, avaliá-las, estudá-las, convencê-las ou não convencê-las, e, por último – mas não só – essencialmente observá-las e falar com elas. Posso comparar a minha relação com o homem como o momento em que fumo um cigarro à janela e observo a árvore que inexoravelmente me surge no meu ângulo de visão: não as posso cortar (poder podia, porém não é o que quero nem o que me faria feliz. Fazer feliz, eis outra questão), nem as posso deixar de ver pois mesmo que os meus olhos se fechem, a sua irredutibilidade de vontade própria em se quererem abrir impedem a minha não visão. Observo a árvore, dialogo com ela e ela comigo: os seus ramos que levemente se vão mexendo e por arrasto as folhas que dançam veementemente me vão dizendo para ter uma boa noite ou um bom dia dependendo das horas em que fumo. Eu respondo com um tímido obrigado, uma timidez provocada pela inesperada conversa. Pouco mais se desenvolve, mas não a deixo de observar e muito provavelmente ela a mim. Entretanto, as estrelas pedem por favor para entrar na relação – quando o cigarro vai a meio. O que dizem não é muito também, remetem-se a falar sobre o tempo e sobre a vida quotodiana. Digo, por fim, adeus, fecho a janela e retiro-me.
Com as pessoas passa-se precisamente o mesmo, jamais as deixarei de observar, conversar sem as poder tocar, não com o corpo mas com a alma...enfim. No fim dos fins lá vou sempre fechando a janela e afasto-me, bem para longe iluminado pela luz do meu candeeiro que acende o que verdadeiramente sou: um solitário, desesperado ser em busca da solidão e do desespero que me dá força e que me faz viver, viver; não viver sem morrer: viver com a janela bem fechada e a luz iluminando ligeiramente.

22/05/2010

Sem comentários: