quinta-feira, 13 de maio de 2010

Malditos Espelhos

Lavas o rosto com lenços faciais, o espelho que reflecte o gesto reflecte o reflexo do reflectido. Não é essa a nossa constante viagem? Horas, dias, meses e anos passam sem que nos apercebamos dos vidros opacos que vão pairando sobre o céu – de referir, nem sempre azul – não céu que serve de mentira para que a verdade seja ainda mais indescortinável. Bastaria deixarmos de caminhar pelo tempo de cabeças baixadas, pois se as podemos movimentar por que não movimentarmo-las para cima voando com o olhar até atingir os espelhos que nos reflectem aborrecida e inertemente (?). Os parêntises à interrogação são propositados pois quando penso na afirmação penso-a exactamente como uma afirmação, daquelas bem convictas e concisas; porém, há quem assim não considere e a afirmação transfigura-se em questão, daquelas estúpidas, feias e absurdas – adjectivos negativos que conicidem precisamente com as pessoas que me fazem ter que adjectivar.
Ora, superada (quanto a mim) a óbvia problemática do voo, opto portanto em voar, e, coloca-se entretanto uma questão, essa sim pertinente: o que fazer quando lá chegar? Uma vez mais a resposta parece-me lógica: QUEBRAR o vidro! O objectivo é claro: chega de reflexos, quero ver para além. Quando lavas o rosto, agora não com lenços faciais, talvez com sabonete líquido e com água não gostarias de entender e atingir o que existe além do que é reflectido? Eu assumo inequivocamente que pretendo conquistar os céus, partir os vidros com as mãos, com a cabeça, com o cotovelo, com o joelho ou com a pila se for preciso. Tudo vale quando a intenção é positiva e diria salvadora, até derramar sangue em pleno voo.
Por fim, atravessei com êxtase o espelho que me aprisionava num mundo de céus tanto enublados como solarengos. O que vi então? O que vi? O que verei? O que veremos? O que senti então? O que senti? O que sentirei? O que sentiremos? Como saberemos se o que era verdade até hoje era fruto de uns certos vidros? Estando eles partidos tudo o que diremos não fará qualquer sentido. Ora nem mais, o próposito é esse: dar sentido!
Não desistirei em lutar pelo insentido que me dará a verdade, a verdade de que ela é nada mais do que inverdade – o insentido da inverdade.

13/05/2010

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