segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Gloriosa Solidão

Jean Genet configurou a beleza como a “ferida que ilumina”, ao mesmo tempo que no ecrã leio por entre as legendas de uma imagem de um documentário de Jean-Luc Godard “o homem tem, no seu pobre coração, lugares que ainda não existem... e onde a dor entra...a fim de que eles sejam”. Ora, é apoiado nesta ideia comum que analisarei o texto “O Estúdio de Alberto Giacometti” e o documentário cinematográfico “Histoire(s) du Cinéma”, iniciando uma viagem solitária até ao “ponto solitário de onde” eles devem ser observados.

Emoções Provocadas por uma Obra de Arte

Nas palavras de Genet denota-se uma quase irracionalidade perante aquilo que vai vendo, e por conseguinte, descrevendo. São palavras de um homem que se deixou emocionar por uma qualquer imagem estética e que daí - dessas sensações por ela provocadas - tirou suas próprias conclusões. Porventura, a primeira e, simultaneamente, última dedução situa-se no momento de solidão que caracteriza a solidão do contacto com o objecto (neste caso particular). Afirmo primeira e última pois toda a beleza será sustentada por uma espécie de interacção solitária entre o artista, o objecto e o ser estetizado.
Ou seja, Genet defende uma auto-criação de espaços infinitos de cada objecto onde nós como meros receptores/observadores devemos aceitá-los na sua infinitude e refugiarmo-nos num lugar que nos permita ter uma experiência da “descontinuidade do espaço”, que nos permita ser uno com o objecto.
Superado esse estádio, as sensações vão emergindo; o sentimento de beleza apodera-se do homem como que uma “ferida singular”, diferente para cada qual”, iluminando-os. Vejo, nesta concepção de Genet, uma vela acesa numa noite bem escura em um local deveras belo, onde a lua coberta por nuvens se esconde, sendo que que a única luz que vigora na escuridão é, precisamente, a da vela. No entanto, só nos apercebemos da beleza do que nos rodeia quando repentinamente somos atingidos pela cêra quente largada pela chama que nos ilumina. Ora, a verdade é que nunca deixamos de ver qual a paisagem que nos apoderava, todavia vimos com maior clareza a sua verdadeira beleza, e consequentemente o nosso lugar nela.
Em jeito de conclusão, citarei Dostoiévski para que possamos continuar a pensar nesta ligação entre dor e beleza: “O que vale mais: uma felicidade barata ou um sofrimento sublime? Caramba, o que vale mais?”. O terror e fascínio parecem andar ombro a ombro.

Cinema – O Vendedor Ambulante

Jean-Luc Godard explora através da história do Cinema a vida como vida e morte, como sujeito solitário, como sujeito que interage sem entender o outro sujeito em uma desconcertante ignorância. “É vivendo esta combinação de todas as forças do corpo que a vida cessa de se questionar a si mesma e se aceita como pura resposta, que nem sequer tem já necessidade de proclamar o seu consentimento a si mesma para ser o maior dos consentimentos”. A vida é o maior consentimento e o Cinema é a imagem dessa vida, imortal ao contrária da primeira. A intemporalidade do Cinema , salientada por Godard, concede a possibilidade de negar o vazio mas também de nos colocar à frente o olhar do vazio sobre nós. Ou seja, “a imagem é felicidade, mas perto dela mora o vazio, e todo o poder da imagem só se pode exprimir apelando-lhe”. Assim, tal como em Giacometti, a solidão evidencia-se como inelutável na procura do belo, do amor, da felicidade.
Entende-se, portanto, o Cinema como uma arma forte que duplamente combate o tempo e o protege servindo-lhe de abrigo, assegurando-se de que a História não se perca por entre a própria História (“Preciso de um dia para fazer a história de um segundo. Preciso de um ano para fazer a história de um minuto. Preciso de uma vida para fazer a história de uma hora. Preciso de uma eternidade para fazer a história de uma vida. Pode-se fazer tudo, à excepção da história do que se faz.”). Em suma, é o Cinema é uma “fábrica de sonhos” reais, numa vida que se quer de sonho.

Conclusão

Por entre todas as palavras aqui escritas, há uma que realço porque assim me levaram a fazê-lo, e porque pessoalmente o quis fazer: Solidão! O sujeito na vida ou na morte, na beleza ou na dor é, inevitavelmente, solitário e assim o tem que ser para então Ser. É, indubitavelmente, a “solidão a nossa mais certa glória.” Esta é a grande ideia que daqui sai reforçada.

20/04/2010

Trabalho Realizado para a Cadeira Estética II do curso de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Juízo Último

Se nos auto-criticarmos como humildes julgam-nos arrogantes por declararmos a nossa humildade. Contudo, ao admitirmos que em nós só existe arrogância o julgamento será literal em vez de ser, como no caso anterior, contraditório à afirmação.
Se, porventura, apelidarem-nos de arrogantes, mesmo quando nos abstemos de uma auto-análise crítica, o mais certo é refutarmos ou aceitarmos. Refutando ou aceitando a conclusão por parte de quem nos julga será irremediavelmente a mesma: somos arrogantes. Por outro lado, a humildade quando a nós associada é antes de mais, rara, e, depois, tem sempre uma consequência inelutável: ao aceitarmos (nesta situação a aceitação é entendida como abstenção e/ou concordância) deixamos de ser humildes pois aos olhos do Homem ninguém é humilde quando aceita a sua humildade; ao refutarmos damos uma ideia de falsa modéstia e, portanto, uma arrogância mascarada, disfarçada.
Assim, a humildade é um conceito vazio e, mais do que isso, renegado pelo julgamento de outrem e louvável ao julgamento de si próprio para consigo próprio. Quanto à arrogância é o mais fácil dos conceitos, é uma boca cheia de comida. Ao pensarmos nesta curta dissertação como crível o melhor a fazer é exclamar: “sou humilde e por conseguinte arrogante! Sou composto por uma humilde arrogância e por uma arrogante humildade!”
Albert Camus diria: “conheci o que há de pior, que é o juízo dos homens. Para eles, nada de circunstâncias atenuantes, mesmo a boa intenção é considerada crime”, pois bem, esqueçamos o Juízo dos Homens e, quanto a mim, melhor esqueçamos o Juízo Final. Lembremo-nos sim, sempre, do juízo interior de cada um para cada um, para que no fim de cada fim o Paraíso Ético particular de cada sujeito seja proporcionado. E por quem? Não pelo Homem nem por Deus, mas por si mesmo.

17/12/2010

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Renato Num Café

Tomo um café. Fumo um cigarro. Depois outro. “Está frio”, ouço por entre outras palavras, umas perceptíveis outras não, que são soltas e propagadas num espaço onde coexisto com esses seres falantes. Olho lá para fora e tudo é radicalmente diferente mas marvilhosamente semelhante ao que aqui dentro deslumbro. A meu redor, neste pequeno espaço interior, sou alguém, mesmo que numa micro-escala, sei que, se sair e abrir as portas do exterior serei apenas mais um: invisível, indetectável e insensível até para mim próprio. Opto e prefiro, portanto, ficar. Fumo mais um cigarro. E penso. E sou alguém.
A janela que me separa do exterior reflecte (prefiro utilizar para este contexto, mudando então o contexto, o verbo ‘reflectir’ em detrimento do verbo ‘transparecer’) árvores despidas sem pudor nem frio, pessoas que, pelo contrário, respiram ar gelado combatendo-o com roupas quentes sobre roupas quentes, ajeitando-as por vezes quando estas teimam em não as proteger convenientemente, tal como se tivessem vida própria. Todas estas pessoas caminham paralela e dessemelhantemente aos carros que vão circulando na estrada. Não sei para onde vão, nem os caminhantes nem os condutores e respectivos passageiros. Possivelmente todos eles têm um fim nesta rotineira viagem, impossível porém de o determinar. Sei sim que a Grande Viagem comum a todos nós tem também em comum o seu destino. É dado adquirido, não o debaterei por isso.
Reflicto por ora, o que os meus sentidos me declaram. Vejo uma imensidão que me fere os olhos, todavia é como que se essa ferida me cegasse – tudo observo e nada se me deixa observar. Quanto aos outros quatro sentidos posso simplesmente constactar o paladar, ora agradável ora execrável a tabaco, em que a contradição da apreciação, é complementada pelo sabor do café ainda presente; a audição já se perdeu em bosques de sons exteriores e mares de sons (vozes) interiores, assim sou surdo e tudo ouço, mas só a mim me faço ouvir, não compreendo pois o que ouço; o tacto é caneta e papel, pouco mais a dizer; por fim, não tenho olfacto apurado, digo então que cheiro palavras e pensamentos, sinto o perfume da escrita.
Dou por mim sentado e a fumar novamente. Tanto movimento à minha volta e eu não saio do sítio. Mesmo que me mova, na realidade continuarei imóvel enquanto os outros giram num carrocel onde sou espectador. Posso correr a maratona, pode consequentemente o meu corpo esgotar-se, continuarei mesmo assim, inerte. Podem todos os outros estarem mumiáticos e eu só interpreto movimento. Enfim, parece-me que o que me é exterior é a Terra e, eu o Sol, um Sol no entanto que, nada ilumina nem se deixa iluminar. O Sol natural dá luz a tudo o resto e eu que nem sei que tudo o resto é esse.
Tenho a impressão de aqui estar há uma eternidade quando só há pouco existo. Tenho, ao invés, a impressão de que ninguém está aí, nem esteve, nem nunca estará. Existo e imobilizo-me intemporalmente pensando. O tal resto talvez exista, mas não pensando o seu pensar e o seu existir temporalmente contínuo.
Fumo o último cigarro. “Adeus” é a última palavra que ouço. “Quem me fala”, é a primeira e eterna pergunta que faço. Saio para o exterior e volto assim a ser mais um caminhando em direcção incerta, mas sem sair do sítio.

22/12/2010

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Fora do Jogo mas Dentro da Arena

Pergunto - fazendo questão de deixar claro que eu não sou quem sou mas quem observa e escreve -: Porquê estudar Filosofia, Sociologia ou quaisquer outras ciências sociais e humanas quando já todos pensam serem filósofos, sociólogos e, por aí a diante, sem o estudo necessário que é sempre tão necessariamente necessário e contingente mesmo para os estudantes e praticantes? Nenhuns não-estudantes de engenheria, biologia, química, física, medicina (entre outras ciências naturais e técnicas) se demonstram perante os reais equivalentes estudantes como tão conhecedores, ao ponto de discutirem mano a mano questões relativas a tais disciplinas do saber.
É caso para concluir que há ciências que estão sujeitas a treinadores de bancada e outras que não; umas são putas (os estudantes destas aqueles que pagam mais caro) e outras donzelas.
Digamos que no primeiro ponto, chamemos-lhe “Arena do Saber”, uns encontram-se fora de jogo mas dentro dela, enquanto outros - os escravos - combatem estóicamente sob um pano de fundo de prazeres repugnantes e opiniões múltiplas dos que assistem. Noutra “Arena do Saber” o jogo é dos que livremente jogam sem assistência malfeitora, metidiça e donos desta; os outros, bem... esses refugiam-se na outra “Arena” rindo-se dos escravos e fazendo vénias invisíveis aos que são livres. Numa, os jogadores nem homens são, o que permite aos outros participarem (pensam eles com toda a legitimidade) no jogo mas fora dele; noutra, os jogadores são pequenos deuses e, como tal inalcançáveis e, como tal, a assistência não pode existir pois esta seria indigna de tais seres profanos.
Assim se vive numa posição politeísta quanto às ciências da natureza e técnicas contanto a sua contemplação aos deuses omniscientes - e, por isso, impassíveis de discussão - que as compõem. Em oposição, vive-se numa posição anárquica e ateísta quanto às ciências sociais e humanas. Escuso-me e recuso-me a apresentar o porquê, foi já tudo dito.

16/12/2010

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

DOMAÇÃO

Alguns tentam domar animais: revoltante. Outros tentam domar sociedades: necessário e ironicamente desvalorizado. Todos tentam domar as pessoas de quem são próximas: natural embora possivelmente evitável. Eu quero e tento alienar-me de tudo o resto para domar-me a mim mesmo: desgastante e laborioso, porém, louvável e enriquecedor. Mais do que um dever, um princípio; mais do que um princípio, um imperativo prazeroso.
Assim, se todos nós partissemos da última premissa tudo o resto pareceria claramente irrelevante e, por conseguinte, escusável.

07/12/2010

O Bem é (o) Conhecimento

Gradualmente o estudo da Filosofia e, inerentemente (deve sê-lo), o estudo de todos os saberes está-me a conduzir ao limiar da loucura. Ressalvo limiar visto crer que a loucura é meramente patológica.
À medida que os dias, meses (anos não menciono para já, assusta-me só pensar) vão passando, esta relação esquizofrénica entre mim e o saber, além de condicionar ligeiramente (adivinho que no futuro o advérbio de modo aplicado será precisamente o antónimo deste) o meu comportamento social, condiciona simultaneamente a relação, que tanto valorizo, do meu eu com a minha solidão. Todavia, no primeiro caso posso e podem lamentar que tal suceda, agora no segundo caso instintivamente e, num primeiro momento, lamentaria; mas, depois de uma fria e profunda análise reflexiva compreendo que a vida, deste modo, é um corpo que vou alimentando sem que seja saciado. A vontade de comer é óptima, o prazer de me alimentar é mais do que óptimo e, a insaciedade contínua – depois de todo este processo que consiste na vontade de comer e a sua concretização – é infinitamente maravilhosa.
Ora, que se dane a socialização e relações pessoais; que se dane o supérfluo, repentino e passageiro sofrimento que me presenteia a minha solidão bélica. É inigualável o prazer de querer comer ainda mais depois de tanto comer: por muito que coma não engordo e o prazer dos momentos de refeição não se perde por entre outros males que, quanto a mim, são puramente secundários. O grande mal está na insaciedade, mas na verdade é um mal aparente visto não ser mais do que um imenso e absoluto bem. O bem pelo e para o qual nasci; quero acreditar, o bem pelo e para o qual nascemos.
Talvez seja, posto isto, inevitável afirmar a inevitabilidade de uma misantropia?...


Novembro de 2010

sábado, 4 de dezembro de 2010

Alienação Transcendental

O passado pode ser lembrado mas não revivido, do mesmo modo, eu posso lembrar-me do que fui outrora mas não posso ser o que antes fui. Esta imperativa mutabilidade assusta-me, atemoriza-me pensar que sou apenas aquilo que sou neste preciso momento e que passado e futuro são simples ilusões, em que o seu único e secundário papel é o de condicionar o presente.
As saudades do meu passado, daquilo que eu era (fui) não são suficientes para sentir o quão bom era ser aquilo que em determinadas fases passadas da minha vida fui. Todavia relembro-as e comparo com o que sou hoje. E o que serei amanhã. A conclusão a que chego é esta: estou mais longe do mundo do que alguma vez estive, uma distância com tendência a aumentar. Quanto mais conheço o mundo, o ser humano, a mim próprio... mais me afasto deles.

04/12/2010

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

MAPA

Nascer é a primeira grande vitória, mas se não continuarmos a vencer ela facilmente transfigurar-se-á em derrota, a maior e mais proeminente derrota. Pode-se objectar dizendo-me que a morte, essa sem dúvida é a pior e imensa queda, além de frustrante visto – salvo raras lamentáveis excepções – consitir numa inexorabilidade, injustiça e incontrolabilidade indubitável. Respondo afirmando que tudo aquilo que não é já vida, mas o fim desta, é uma simples contingência da nossa natureza, enquanto que quando em vida só nós próprios impossibilitar-nos-emos, seja por voluntarismo ingénuo, seja por pura incapacidade, seja, pior ainda, por repudiosa inércia e execrável ócio, de vencer continuamente.
Entendo as nossas limitações como penso todos nós entendemos, se não entendem começa desde aí o erro e o princípio para a derrota eterna; conheço também todas as nossas virtudes enquanto homem, tal significa que conheço bem a terra que piso, no entanto avisto frequentemente o céu que me vai pairando. Por isso, o ser humano olha para os seus pés, para a terra que os sustenta e interpreta subjectivamente - porque todos apesar de homens somos acima de tudo sujeitos – qual os passos limitativos e sinuosos do caminho a percorrer, para que depois de interpretados possa aí sim iniciar a sua caminhada já de cabeça erguida para o céu, o mesmo é dizer, para a vitória. Quero com isto demonstrar que, porventura, não alcançaremos o céu, não voaremos, não ganharemos asas, é essa uma das nossas físicas limitações; contudo, como seres pensantes voamos com asas ainda bem mais belas e eficazes, e no percurso que aceitamos e escolhemos explorar, as vitórias são conseguidas etapa a etapa, estrada a estrada: todas elas são vitórias. Parar, perdermo-nos no mapa que de antemão delineamos são sintomas de derrota. Sentir que em breve pararemos ou que nos perderemos são sintomas derrotistas, que apenas levam ao porto da derrota. Vencer caminhando só se conseguirá pensando que estamos a vencer, que continuaremos a vencer e que qualquer contratempo não passa disso, um contratempo, resolúvel com mais uma e outra, e mais outra revisão do mapa.
Estejamos, todavia, alertados para a presunção, ilusão, arrogância e maldade. Nada atingiremos sem uma dose, mais do que significativa de realismo, sem que se confunda realismo com pessimismo e resignação; nada atingiremos às cavalitas de outros, nem de nós próprios: não sejamos mais do que aquilo que somos verdadeiramente em cada ocasião e situação, não sejamos menos do que aquilo que somos verdadeiramente em cada ocasião e situação e, não sejamos medíocres e maldosos para com os que nos rodeiam porque no fim a taça estará nas nossas mãos, mas esta em vez de ouro será de um qualquer metal bem rasca sem qualquer valor. Pior, a vitória saberá a derrota pois ganhar à custa de outros é desviarmo-nos para uma outra estrada: a da perda de personalidade e identidade. Não é isto que deve ser entendido como vitória, compreendo a vitória como uma superação constante de novos desafios, insisto, olhar para o mapa desenhado a nossa gosto depois de minimamente conhecer o mundo, e dentro do possível profundamente a nós próprios, e assim assinalar todos os pontos do mesmo que fomos passando, e quaisquer outros que ainda possamos ao longo do tempo desenhar. O mapa é infinito, a nossa vida não. O nosso corpo é contingente, a nossa razão dizem que sim, mas os sonhos, desejos e vontades absolutas que racionalmente nos vamos cercando são ilimitados. Pois bem, é nisso que consiste o mapa. Pois bem, a vida consiste em ganhar. Como? Desenhando-o (o mapa), percorrendo-o, desenhando mais sempre que atingidos os pontos fulcrais, e assim sucessiva e continuamente.
O homem nasce da vitória festejando o seu nascimento com gritos e grande aparato, e, não obstante morrer - sendo que essa é uma tremenda derrota da natureza –, é nosso dever fechar os olhos para a eternidade com uma sensação silenciosa e emocionada de vitória. Honremos o que somos, trabalhemos para ganhar não só durante toda a vida mas também no momento da morte com um último pensamento suspirante: “Venci!”.

25/11/201

terça-feira, 23 de novembro de 2010

TU

I

Espantei-me com o crepúsculo,

Lembrei-me de ti espantado.

A isto é comum a sublimidade

Tanto das nuvens em redor do Sol

Como do teu rosto coberto pela memória.

A minha percepção visual é contingente

E a memória presente, mas impotente

Perante o Sublime do Céu

E o Sublime da tua recordação -

Do teu corpo, do teu jeito, do teu sorriso.

Quero tocar-te, não posso todavia.

Desejo admirar-te, não te toco porém.

És tão intangível como as matizes

Tão profunda como as raízes

Tão pouco visível como o pensamento

E tanto por mim amada, neste momento.



II

Entretanto escureceu, o Sol morreu,

A recordação permaneceu.

Sendo que tu aí estás, aí

Por entre o Sol e o Mar

Onde tudo é aparente,

Mas onde tudo se sente.

Ouço, agora, no escuro da luz artificial

A tua voz que é sentida como especial,

E ela dentro de mim, faz-me especial.

Fecho os olhos, ouço-a nitidamente.

Vejo novamente o Sol, de olhos fechados

Vejo-te a ti, e sinto-a ti nos meus braços;

Enclausorado no teu corpo

Sou o sublime do crepúsculo

Invadido pela tua recordação.

Sou fugaz paixão de um Sol

Que em breve repousa no Mar.

Esse Mar és tu, descanso para te amar.

Abro os olhos, e afinal é já noite.

Momentaneamente, pensei ser poderoso

A tal ponto de fazer noite dia.

Um poder cedido pela Deusa

Que és tu na minha memória.

É certo eu não ser milagroso

É-lo tu.

Crias milagres em mim

Contanto toda a tua sublimidade

Me causar tanta saudade,

Manter-me como homem que ama;

Mesmo sem te poder tocar

Continuarei a amar.

Haverá maior milagre do que esse?

Sem te poder percepcionar

Continuarei ciente de que sou o Sol

Que aparentemente repousa no teu mar.

Análogo ao milagre estético do anoitecer.



III

Este não é mais um poema de Amor:

É Amor em forma de poema.

Este não é um belo poema:

É a tua Beleza retratada em poema.

Minimamente.

Pois tamanha Beleza

Não ousa ser equiparada a simples

Palavras.

Bem, apenas uma:

Tu.


23/10/2010 - 17h45m

sábado, 20 de novembro de 2010

O MEU NOME É VIDA

Quem me pode condenar por a morte me aterrorizar? Eu sou a Vida e temo que deixe de o ser, pois o nada é o meu maior inimigo; não que me considere tudo num sentido estrito e literal de tudo, mas entendo que se o meu nome é Vida este pressupõe realidade, matéria, forma, paixões, pensamentos, prazeres – como, por oposição, certas irrealidades (os sonhos por exemplo), imatéria (fundamentalmente conceitos dos quais eu, entre muitos outros, sou criador), ausência de paixões e pensamento (sou livre de não sentir e/ou pensar), desprazeres. Possivelmente, isto que apresentei pode não estar inteira e inequivocamente conotado como sendo tudo, compreendo e aceito que assim é. Até porque se o tudo fosse este tudo, naturalmente resignar-me-ia, acomodar-me-ia e deixaria de ser Vida para me transformar num ser imutável, infalível e essencialmente estagnado. Ora, o meu nome não se coaduna com estas palavras.
Concluo, portanto, que não sou tudo e nem será esse o objecto que devo procurar. Concluo também que não quero ser nada porquanto apesar de possuir um signficado antitético de tudo, são dois conceitos equivalentes. Eu que sou Vida, não temo o tudo porque este é inantigível enquanto tudo, mas inevitável enquanto nada. O que é a imutabilidade, a infalibilidade, a estagnação – e outros nomes a estes subjacentes – do que meros atributos do nada? A evolução, a continuidade, a mutabilidade e, por aí adiante, estes sim são efectivos atributos da minha personalidade enquanto aquilo que sou – Vida.
Assim, o medo da morte é-me intrínseco, até porque, na verdade, ela é minha parente: a minha filha bastarda. Não me condenem por ter medo dela, é ele que me faz viver ainda mais; é resultado deste medo que o meu nome é Vida; é de todo preferível temer a morte do que morrer ainda vivo. Eu sou a Vida e, inexoravelmente deixarei de o ser, mas jamais mudarei o meu nome para Morte quando em vida.

20/11/2010

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

BEIJO

Num toque de umas mãos macias e reconfortantes o toque é cada vez mais especial porque é um toque de mãos especiais. Por isso, um toque teu, então sempre especial. No entrelaçar dos teus dedos nos meus, é como que dois corpos se fundissem numa espécie de ser inigualável e desconhecido, contudo tão forte e tão belo. São os teus dedos que saciam os meus, os meus servem-se dos teus para se sentirem possuídos e amados. Agora não tremem! Nem transpiram! E porque os teus dedos são especiais e por serem teus são especiais, e por fazerem os meus se sentirem especiais tornam-se ainda mais especiais. Só porque são teus.
Num abraço onde os meus braços jogam com os teus, encaixam como uma peça num puzzle, e o meu tronco cola-se ao teu, eu deixo de existir, deixo de sentir os meus pés pousados no sólido chão. Fico descalço e ganho asas, asas que não voam mas que flutuam, parece que tu me seguras com o teu olhar de longe. Sim, porque o teu corpo naquele instante também é meu, e o meu é teu, eu já não sei o que nos distingue. Apenas sei que naquele momento tudo à nossa volta está deserto até porque nada existe a não ser o nosso abraço. E por ser o teu abraço é especial, não só por ser teu, mas por me proporcionar o que me proporciona, não só por ser um abraço, mas também por ser o teu abraço. Por isso um abraço especial, por isso me é concedido a magia do céu. Só porque a tua cabeça se encosta ao meu ombro.
Num beijo ofegante, numa junção de dois lábios húmidos de sede de se beijarem, no leve fechar de olhos, eu figuro-me transcedente até o meu humanismo se esconder dentro da minha língua. Na escuridão da minha visão na hora vejo perfeitamente, o teu rosto. Admiro-te antes de derradeiramente fechar os meus olhos antes do beijo, e a tua imagem fica, deixo de ser composto por sangue, é a tua expressão que me invade e que me preenche, como ondas fortes a destruirem o areal de uma praia. Quando, depois do afastamento dos lábios, trincados de seguida pelos nossos dentes como sinal do nosso desejo, tudo o que é fisico em mim adormece menos a boca que sorri e os olhos que brilham de um brilhar inocente, não consigo afastar-me mais de meio centímetro da tua cara e, os meus lábios mais uma vez tremem. Sofrem por ti, pelos teus lábios. Porque querem-te beijar, o teu beijo especial. Aquele que por ser dado pelos teus lábios, pela tua língua torna-o especial, por ser sentido por ti já por si só é especial. É especial não porque é um beijo, mas sim porque é o teu beijo, o nosso beijo. Será sempre especial para nós!
Amanhã quando acordarmos vamos sentir o toque da mão de cada um, o corpo um do outro perto apesar de distante, e vamos sentir os lábios que ainda ontem foram beijados e tudo vai parecer uma insanidade, uma ilusão fresca e recente, um sonho precoce, uma irrealidade desejada... Mas, quando finalmente saborearmos o nosso paladar e sentir o aroma que nos circunda apercebemo-nos que o sabor é maravilhoso e bem real, e o cheiro é imensamente bom e bem presente. Porque afinal tu existes e eu existo. E nós, nós somos especiais por sermos nós! E nós tornamo-nos especiais por existirmos e sabermos da existência um do outro. Amanhão ou depois de amanhã continuaremos a ser especiais, porque isso não morre.

15/01/2005

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

A MONTANHA

Sei que um dia morrerei

E com isso tudo o resto

Morrerá.

A Montanha que treparei

Cobrir-se-á de gelo que

Inundará

A subida que foi tão prazerosa.

Enquanto que agora não descerei:

Morrerei.

Já não terei o topo como objectivo

Nem as profundezas como algo a

Evitar.

Assim subir ou tentar não descer

Parece sobremaneira uma paráfrase de

Amar.

Viver é, tanto amar o processo de escalar,

Como amar o processo inevitável de

Escorregar.

Ora na morte posso amar

Não escorrego nem escalo, porém posso

Morrer.

Então que se encare a morte

Como o último acto de

Amor.

Que a morte seja o fim,

O fim da Montanha, o fim do

Amor.

Seja esse fim no seu fim

Seja esse fim no fim do início.

Primordial é que o fim

Possa ser aceite como fim de um

Amor pela vida.

Um amor pela morte como fim

De uma vida

Amada.


01/11/2010

sábado, 30 de outubro de 2010

SOBRE SCHOPENHAUER

Foda-se Schopenhauer! Amo-te Schopenhauer!
Estas exclamações que têm indutivamente sentidos antagónicos, são porém também próximas. A revolta que o grosso da filosofia schopenhaueriana me provoca, faz-me por outro lado amá-la. Amo a diferença, o outro pólo que, na verdade, possibilita-me aproximar-me mais de mim mesmo; ajuda a conhecer-me, neste tão complexo processo.
Com Schopenhauer conheci Schopenhauer e conheci o que já pensava não ser; por conseguinte, com Schopenhauer encontrei algumas certezas que me faltavam e com isso conheci-me um pouco mais.

29/10/2010

SOBRE HEGEL

Numa leitura inicial a Hegel, o “espírito absoluto” que não é mais do que a “Verdade” parece-me inverosímel na medida em que, remete-nos para a inexorável e mais do que discutível questão: que Verdade é essa afinal? Sendo que para Hegel esta é o objecto primordial (ao que parece) da Filosofia, uma outra questão se impõe: o que é então a Filosofia? Eis uma interrogação que nem Hegel, nem Kant, nem outros me conseguiram esclarecer devidamente – se é que há esclarecimento possível. Pelo contrário, têm-me sim colocado e atormentado com mais dúvidas.
Admitindo que Hegel (tal como principalmente Kant) me fez, para já, admirar a sua filosofia sistemática e, digamos, idealista (absoluta é que me custa a aceitar), ela não é de todo suficiente para me preencher. O mesmo sucede com as filosofias antagónicas à hegeliana – epicurista, socrática, cepticista, etc.. Apraz-me um pouco de cada uma, porém o que é de relevar é o facto desses pequenos fragmentos que me vão alimentando não chegarem para atingir um ponto de saciedade (não absoluta, pois acredito que jamais o deverá ser) que me permita saber qual o apropriado regime alimentar a seguir por este meu corpo filosófico.

8/10/2010


Até ao dia em que hoje me encontro, todos os autores que conheci ao longo do (pouco) tempo foram, de certo modo, apologistas da filosofia platónica ou da aristotélica ou da pré-socrática. Pelo menos uma destas filosofias, filósofos modernos e contemporâneos tentaram, cada um à sua maneira, “reaquecer” as mesmas.
Finalmente, para minha satisfação e apaziguamento, identifico em Hegel aquilo que há imenso tempo pretendia fazer ver (permanentemente com medo que talvez estivesse errado): “ressuscitá-las significaria querer reconduzir o espírito mais cultivado, que entrou mais profundamente em si, a um estádio anterior”.
Agradeço a Hegel pela solidariedade antecipada para comigo; descansou – quanto a esta questão – o meu espírito atormentado. Salvaguardo-me dizendo que porventura o tempo, uma vez mais, poderá mudar-me. Contudo, para já sinto-me relativamente realizado. Até logo Filosofia Antiga! De ti não esqueço nem desvalorizo, mas não quero ressuscitar-te, não acho que deva. Veremos se assim será futuramente.

15/10/2010

sábado, 16 de outubro de 2010

INTRODUÇÃO AO "HOMEM DIVINO"

Construímo-nos a nós próprios, é nisso que além de acreditar quero acreditar. Não rejeito factores e elementos de construção que nos são exteriores e dos quais não temos qualquer controlo; mas esses são, parece-me, secundários. Impera o que fazemos dos elementos que nos deram para a longa e árdua construção que temos pela frente e, obviamente, não o que eles fazem connosco. Assim, somos o mestre de obras, o arquitecto e o engenheiro – por vezes, condicionados mas não os deixamos de ser.
O objectivo não é a construção que se assemelhe a um edifício mas a uma enormíssima árvore com magestosos e fortes ramos; com folhas que vão nascendo, morrendo, nascendo e morrendo de novo. Uma árvore então que cresceu ao nosso ritmo, que se foi ramificando não por obra da natureza, mas pelas nossas próprias mãos e espírito.

16/10/2010

Bruno do Mar

sábado, 2 de outubro de 2010

Trago Comigo

Trago comigo

o azedo,

o medo de cedo ou tarde

encontrar alguém cobarde.

Trago comigo

para não mais esquecer

o que hoje estão a fazer,

morder de revolta apenas e somente

para não me esquecer.

É essencial que num corral de porcos

um seja mais porco do que o outro.

Trago comigo

a paz de espírito;

Trago comigo

a alegria de ser como sou,

o que passou passou,

quem entrou também sairá.

Para lá!,

onde encontrará o erro e a solidão,

o desprezo e a a mão que não existirá,

o apoio que desaparecerá.

Trago comigo

a desilusão que o meu coração cegou

mas a minha razão curou.


7-06-2005


Bruno do Mar

terça-feira, 20 de julho de 2010

Remador

“Estou contente, sou feliz, e, portanto, mau narrador”, afirmou Göethe na sua obra “Werther”. Não nego a sua veracidade, porquanto apesar da curta e, diria fugaz experiência, a felicidade deixa-me absorto; sentimentos de pura e máxima alegria libertam-me aprisionando-me na ociosidade e na atitude contemplativa desses sentimentos.
Não obstante tal, a verdade é que o oposto não significa uma prática antitética na escrita aquando da infelicidade, ou seja, esta pode ou não proporcionar ao narrador, ao escritor uma boa narrativa ou uma boa escrita, de qualidade. Portanto, esta polaridade sentimental do ser humano é – permitam-me a ousadia – bastante homogénea no homem comum; porém, no artista a heterogeneidade é inevitável, pois assim não poderia sê-lo (artista claro está). Sentem como todos os outros, os sentimentos são os mesmos, mas a forma de os abordar, sentir e interpretar são bem diferentes do comum ser humano. Não que me queira auto-rotular como um artista ou comum ser humano – não sei sequer onde poderei estar inserido, prefiro nem me preocupar com isso por agora –, contudo parece-me óbvio que a sensibilidade quase espiritual, divinal de um contrapõe com a sensibilidade contingente e limitada de outro.
Ora, um exemplo que poderei utilizar para demonstrar tal crença é o seguinte: o artista renega a felicidade optando por passear nas nuvens que vão pairando pelo céu desta; por outro lado, o homem procura incessantemente por ela querendo a todo o custo chegar ao céu da apoteose da comoção. Então, o artista conscientemente, por via de uma razão e sensibilidade evoluídas, segue o caminho da não-felicidade (isto é, não-felicidade mas também não-infelicidade) apenas para poder criar; e, criar é estar no limiar do homem feliz e infeliz; é navegar de canoa pelo rio, apreciando-o e, acima de tudo, explorando-o, sem escolher entregar-se a nenhuma das margens. De momento penso ter parado de remar, a canoa encontra-se parada ao sabor da corrente – isto se realmente puder considerar-me um artista.

Nota: O que é aqui discutido como felicidade e infelicidade pode ser introduzido com o mesmo conteúdo e parâmetros o amor e o ódio. Quem cria não deve mergulhar nas águas límpidas do amor nem nas águas obscuras do ódio: quanto a mim deve simplesmente continuar à superfície amando (só) os ventos da arte e as tempestades ou bonanças dos efémeros sentimentos.

20/07/2010

domingo, 4 de julho de 2010

Construir ou Destruir

Alicerces são obrigatoriamente introduzidos numa construção projectada por pessoas que não são engenheiras, nem nunca serão. Embora sejamos todos engenheiros durante toda a nossa vida, porquanto vamos construindo e destruindo vários projectos que vão surgindo invariavelmente – projectos não projectados com antecedência ou idelizados de antemão. Seremos engenheiros de sucesso? Ser engenheiro na vida é ser engenheiro na profissão: os princípios, os meios e os fins são os mesmos. Resta-nos ir tentando, saber aproveitar aquilo que temos, o conhecimento que vamos alcançando e colocar em prática o que nos é possível praticar. Porém, nem sempre as acções coincidem com aquilo que pensamos, com o que idelizamos, com o que projectamos – os projectos acabam frequentemente por sairem frustrados.
Alicerçar é fundamental, mas inteirarmo-nos da gradual construção depois do alicerçado é mais do que fundamental, é vinculativo. Vínculo esse que nem sempre conseguimos cumprir, é sempre bem mais acessível alicerçar, inicar-se numa nova construção... No entanto, dar continuidade surge, imprevisivelmente, como tarefa mais árdua. A racionalidade impera no processo de construção, enquanto que impera o desejo e a vontade no processo de iniciação de construção. Digamos que, a necessidade mais do que racional (apesar de também considerar um processo racional) de encher uma banheira com água bem quente num daqueles Invernos bem frios é imperial, mas depois o enchimento, bem longo no tempo, leva muitas vezes à impaciência e à fria, impetuosa e pesada racionalidade. Acomodamo-nos na racionalidade e, porventura, a banheira já cheia não será no fim tão prazerosa como imaginaríamos no início. Enfim, quando há vontade de encher um banheira ou de iniciar uma construção deve – reitero e afinco – apreciar o som e a beleza transparente da água, como também o belo processo construtivo e transformativo do nada para o tudo de uma construção concluída (apesar de nunca estar definitivamente concluída). Jamais deverá fazer da sua racionalidade o seu alimento, deve ser simplesmente o meio, nunca o fim – o fim está no apreciar o enchimento e a construção. A razão a este nível leva pura e simplesmente à acomodação da própria razão como fim em si mesma.
A conclusão será sempre a mesma: constrói-se e destrói-se o que até ali foi construído, para que um dia possamos construir sem cometer os mesmos erros; enche-se uma banheira para depois esvaziá-la pensando-se que da próxima vez gostar-se-á mais daquela água que nos aquecerá.

04/07/2010

domingo, 27 de junho de 2010

BELEZA (a Bernardo Bertolucci)

A beleza afugenta-se quando queremos tocá-la quando os nossos dedos não são dignos do seu toque. Afasta-se em grande velocidade em direcção à incomensurabilidade que as nossas mãos não entendem, nem a razão que nos impera compreende. A beleza está em nós não estando nós nela, parte de nós mas repela-se para um fim que é impossível, intolerável, incompreensível. Somos o criador mas não somos a beleza. Quando dizemos de uma mulher que é bela, a sua beleza está lá, mas é a beleza que é bela – não a mulher. A mulher transmite a beleza, é a sua criadora, nós que percepcionamos somos o seu receptor enquanto que a beleza nem é criadora nem receptora: é a transcendentalidade do inexprimível, do abstracto, do impalpável. Não pode, portanto, nunca ser roubada e/ou consumada.


21/06/2010

domingo, 20 de junho de 2010

JARDIM

Desabrochar as flores que antes estavam no

jardim

de verde pálido, um verde incolor

Correr por ele sem pisar o que não existe

Até entenderes que ao entrares, o meu

jardim

Renasceu. Floresceu – florescer, dar a viver.

Encontraste-me numa nudez correspondente ao

jardim

Num, enfim, brilho estrelado, florescente

que por incógnita razão brilhou até queimar

Queimei-me com o meu inerente brilho

com o brilho que deste a brilhar com o teu

corpo

a chamar pelo meu e o meu pelo teu

Como estrelas que se fundem numa só

Uma fusão de imensidão inigualável

de brilho intratável, invisível




Assim foi, pensei, pensaste e pensam todos

mas não foi nem é:

a união de dois corpos é de uma falsidade

só comparada a de um daqueles

jardins

com flores artificiais, com árvores de plástico

Sexo é o engano do amor sendo que o amor

é o sexo quando equivocado

Se creio no belo e no sublime não poderão estar

no sexo nem no amor

Igualmente o sexo e o amor não são

Belos nem Sublimes.

Amor e sexo são a antagonia da magia

vento que muda de direcção,

vento que tudo leva e que nada deixa

nem a ele mesmo

Imagino um azul que reflecte o alto mar

imagino esse olho brilhar como eu brilhei

no meu jardim

Olho inocente, olhar doce vulnerável como um doce

O vento leva o olho, os olhos e o olhar

para o alto mar, para a sua génese

O azul volta à origem, e o olhar inica o seu fim

mesmo exactamente quando todos pensam

que tudo agora começou.

Eu vejo simplesmente que tudo acabou.



21/06/2010

Bruno do Mar

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Maratona

Era escuro, a noite negra de indiferença, adormecida no nada de uma avenida sem fim. Sentia-se o aroma irritante de um elemento desconhecido, talvez mijo de gato, ou quem sabe, de humanos que sem qualquer pudor, com alguma dificuldade em controlar o seu corpo, não hesitaram em aliviar o de mais sofrimento. A música surda de sons inexistentes, mas que existem no nosso imaginário - conseguimos, então, ouvir o nosso inibido pensamento. A voz do cérebro impõe-se perante nós, perante todo o nosso corpo físico, perante a nossa visão, como que sem explicação falasse para nós...e não éramos nós. E eu pergunto: quem seria? Quem será tão mal educado e rude para invadir a nossa restrita consciência? Quem entra em mim? Quem fala comigo? Serei eu? Quem sou eu?
Agosto, na virtude do mês, num ano desinteressante como já há muitos permanecia; noite, noite, a madrugada a caminho, e eu andando ligeiramente, por vezes, um pouco lento quando algo me intrigava por mais inútil que fosse, pelas ruas, e que ruas? Por que nada me interessava, o sítio não me interessava, os carros não me interessavam, ninguém me interessava, eu não me interessava por mim, a vida não me interessava naquele momento. O momento era, incompreensivelmente não meu e pouco existente. No fundo, sei que aqueles minutos intemporais foram nada, foram pertencentes a uma alma desconhecida de alguém que não conheço. Sim, desconhecia e desconheço qual a alma que me fala ao ouvido directamente para a minha camada cinzenta dentro de mim criada pelo meu inconsciente. No entanto, tudo fazia sentido mas nada era racional.
Perante isto, hoje questiono-me se vale a pena questionar-me. Sei que cada vez menos sei, por isso, para quê compreender o que não se compreende? Hoje, as diferenças e as semelhanças continuam, mas com menos clareza e, ao mesmo tempo com mais sabedoria. A vida corre como numa maratona, há quem desista porque não consegue prosseguir; há quem se arraste porque não tem coragem e a estupidez de desistir; há quem se situe em último porque faz o que pode, é bravo e persistente, mas é incapaz; há quem se deslumbre no primeiro posto, no entanto, as surpresas e as desilusões acontecem, não controlamos o nosso corpo, nem em sonhos a nossa vida; há, ainda, quem corra com prudência, mas sempre ao mesmo nível, a bom nível rumo ao triunfo; há, por ultimo, quem participe na maratona porque por coincidência lá foi parar, interrogando-se assim o que lá está a fazer, o que faz com que ele corra. E, neste caso, normalmente, estes pensam mais do que correm, teorizam mais do que agem, e então, não saem do mesmo sítio, da mesma posição, da vida monótona e triste. Neste grupo de pessoas estou eu incluído. Porquê, eu nao sei! Sei, pois, que vejo em tudo o nada e no nada o tudo. Tento-me revoltar mas não consigo, tento acordar mas num sono vivo....morto.


(data: algures na minha adolescência)


Até Sempre Adolescente.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Quem Sou EU Afinal?

“Quem és tu?”, perguntam-me. Assertivamente respondo que eu sou estas palavras que lêem; sou a vossa leitura destas palavras, sou textos e mais textos; sou vocês, sou o que vocês querem que eu seja. Sou indubitavelmente vosso e vocês são o que eu sou mesmo que eu não seja o que vocês são. Portanto, não me perguntem quem eu sou pois não vale a pena, é desnecessário, dispensável, escusado e inútil. Até porque é uma pergunta ousada e descontextualizada dentro do contexto em que estamos - eu sou aquele que escreve. Nada mais. O leitor deve meramente apoderar-se das minhas palavras, fazerem delas o que bem desejar, e se estas mesmas provocarem no leitor sensações ou pensamentos, sejam eles maus ou bons, elogiosos ou críticos, é esse o objectivo. Por isso sim, eu sou o que vocês quiserem: bom, mau, interessante, desinteressante, egoísta, altruísta, sensível, insensível... Enfim, eu não sou a pessoa, sou sim as pessoas – o que verdadeiramente sou como a pessoa diz respeito inteiramente a mim, mim esse que não existe quando aqui estou; mim esse que existe mas é um mim aqui e não lá.
Não há eu, há o eu de quem escreve que, pode ser num dia um e noutro outro. Os outros que receberam, parece-me claro, a mesma educação que eu recebi. São provavelmente irmãos, filhos dos mesmos pais que incutiram valores muito semelhantes, que semearam neles as palavras que entretanto são abusadas por estes, diria abusadas com tamanha insubordinação e ligeireza que fazem deles a mesma pessoa. Ora, os pais como semeadores acabam também por ser a mesma pessoa, ou seja, o eu sou eu, os meus pais, os meus irmãos, os meus filhos, os meus netos, os meus amigos, os meus inimigos, os conhecidos e desconhecidos... todos eles sou eu e eu eles.


O caminho a percorrer ainda é longo, todos estes entes de que falei serão cada vez mais e maiores, uns vão morrendo na caminhada, outros vão surgindo num processo que só findará na morte. Uma morte não física, a morte do ente que escreve, a morte do leitor. Algo é inequívoco: não deixarei de caminhar, as minhas pernas ainda estão bem frescas, todo o meu corpo está mais do que disponível para andar, porém sem correr. Para quê a pressa? Continuarei, não nego, na minha solidão (polémica por sinal) utlilatarista, na minha busca por mim e por vocês, na minha busca sem apropriação, sem entrega. Continuarei, não nego, na minha aventura pessoal e subjectiva pelo conhecimento tanto empírico como racional, na minha aventura pessoal e subjectiva pelo envolvimento de mim comigo próprio e de mim comigo próprio para vocês, mas comigo próprio – sempre!


14/06/2010


Bruno do Mar

domingo, 13 de junho de 2010

Folha em Branco

Uma folha em branco, um vazio

cheio de vazios a serem preenchidos.

Um nada prestes a revelar-se como

tudo, um tudo que ainda é nada.

Escrever é esse dualismo entre tudo

e nada.

Na escrita não há mestre nem aprendiz,

há mestres e aprendizes

mas ausentes.

Na escrita eu sou mestre e aprendiz,

ele é mestre e aprendiz;

é um processo solitário

onde a solidão é omnipresente

e a multidão distante de mim e dela.

As palavras surgem como gente,

como fileiras de gente

prestes a desesperarem e da fila sairem.

Elas violam-me com tamanha violência

que me deixam absorto,

morto de vida

para um papel que ganha vida;

para uma vida que nasce num papel.

A caneta deixa de ser caneta

tranformando-se em A caneta –

eu deixo de ser eu para passar a ser

eu, a caneta, as palavras e o papel.

Somos Uno, inexoravelmente violentamo-nos,

uma luta desigual, corpo-a-corpo,

uma luta sem corpo – abstracta;

uma luta de ferocidade inabalável,

luta sem luta – é essa a luta.

Escrever é deixar tudo para trás,

é pedir que o tudo venha a nós

deixando-o para trás.

Escrever é criar e criar é chorar

pela criação.

É sorrir para a criação

esperando por um sorriso de volta.

Criar na escrita é colmatar a falha

da criação de nós próprios,

é suor seco, é respirar tapando nariz e boca.

Escrever é pedir à solidão da escrita

que não te deixe só,

é pedir à tua solidão

que acabes com a solidão da

escrita.


13/06/2010

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Alimento

Feri tanto a dor

que ela voltou ferida.

Indiscretamente ferida.

Voltei a feri-la

para que ela volte a voltar.

Firo-a pois rejeito-a;

Rejeito-a pois necessito-a;

Necessito-a como do ar,

como do amor que recebo

mas retenho-o e refrei-o.

A dor é maior quando insultada,

ultrajada por se magoar

na própria dor que dói nela

e em mim.

Porque ela sou eu nela

e ela ela em mim.

Não há vencedor ou vencido,

há entes que se ferem –

ferimentos intratáveis,

de cura desconhecida.

O homem é dor indolor,

como oxigénio que sufoca

e amor que se odeia.

O homem alimenta-se da dor

E a dor alimenta-se do homem.

Quem alimenta fere:

ela fere-nos e nós a ela.

Nunca passaremos fome

se a dor lá estiver sempre presente

e a morte ausente.




12/06/2010

Da Noite Dia

Um dia

consegui com que a noite fosse dia.

Um dia

o Sol voltou a brilhar porque

alguém me fez apaixonar.

Um dia

não de azar fizeste-me brilhar

com o teu brilho.

Um dia

como que por magia fizeste-me

sentir algo que antes não sentia.

Um dia

no escuro intenso e florescente

de uma dança,

a minha balança deixou de descair.

Um dia

beijei-te e fizeste-me rir.

Fiz-te rir.

Um dia

tudo continuou

ainda bem que nunca terminou.

Nem vai terminar.

Porque amar um dia,

é amar até jamais se cansar.

Um dia

partilhámos experiências pioneiras,

inteiras de felicidade, da tua beldade,

da minha bondade, da nossa privacidade,

proveniente da nossa amizade.

Um dia

também sofremos,

e vivemos tristes momentos,

que os ventos do norte os pode levar,

lá para bem longe, lá para além mar.

Um dia

superámos cedo o nosso medo.

*

Um dia

não nos iremos perder de ser

o mais bonito ser num só ser.

Um dia nós os dois continuaremos juntos

porque é o destino, e é muito bem-vindo.

Um dia

já não será um dia,

mas para sempre sem a força da palavra

sempre.

Um dia

é hoje, ontem e amanhã,

um dia somos nós.

Um dia

são pedidos de desculpas

e declarações de amor.

Um dia

é a verdade e não a mentira,

é a sinceridade e não a hipocrisia.

Porque um dia,

quero que seja o nosso dia.

Intemporal.

Um dia

partiremos num barco,

aos deslizes como todos,

para ancorarmos e sermos

finalmente felizes.


18-05-2005

(Poema bem antigo, escrita bem diferente da que hoje me caracteriza - julgo eu)

sábado, 5 de junho de 2010

Futuro

Cala-te! Endoideço em te ouvir não falar, por entre, através de mim. Deixa-me futuro, deixa-me, por favor, em paz. Peço-te! Imploro-te! Criei-te por minha imaginação e da minha mente fizeste tua, possuíste-a sem que te desse tal autorização, contra minha vontade infringiste a mais suprema das regras definidas por mim: passaste ao controle. Devo ser deus de mim próprio, e tu diabólico futuro transformaste-te, sem que me apercebesse, em meu deus; o meu deus é agora o diabo, portanto, sou eu agora o diabo de mim próprio, quando o que eu sempre quis – e continuo a querer – foi ser o meu deus, desacreditei perante todo o meu mundo os mais variadíssimos deuses para que o meu fosse magnânimo para, por fim, ele deixar de existir por substituição do diabo.
Cala-te! O teu silêncio ensurcedor faz-me doer a cabeça. Cala-te, fala mas cala-te! Entendes? Podes aí estar, é inevitável que estejas, mas não lances a chama da loucura para diante de mim. A minha loucura pessoal basta-me, não necessito nem me interessa a tua. Duas loucuras somadas dão um resultado infundado, de loucura desmedida, incalculável. Quero ser presente na minha presença; quero ser louco na minha loucura; quero ser ser no meu ser; quero pensar o presente, porventura o passado (não me parece mal); quero morrer já, se assim tiver que ser – não quero morrer em antecedência; quero ter-me aqui comigo e não lá onde ainda não estou. Por isso, vai vai-te embora, para o teu lugar. A gruta do futuro é no futuro, é impenetrável. Porque é que então me fazes entrar nela? Porque me fazes escuridão, ruído silencioso e matéria impalpável? Gentilmente solicito-te que te cales, mas como se estou preso na tua gruta? Só saíndo dela calar-te-ás, não que deixes de zumbir nos meus e de todos os ouvidos, mas porque deixarei de ser teu escravo. Pode um senhor não sequer falar, gritar com o seu escravo, contudo este último não o deixará de o ouvir, de o incomodar. A liberdade é o objectivo, torturante desejo que impede o silêncio. Quero ser livre de ti meu senhor futuro, meu diabo!
Cala-te! Liberta-me! Liberto-me, tenho e devo que me libertar. A liberdade está nas minhas mãos. Permito-me convencer de que é possível mandar de volta o diabo que, de momento sou, para o Inferno e chamar o deus que havia em mim de volta. Conseguirei regressar à minha omnipresença presente abrindo a barreira invisível que separa a gruta do mundo livre e presencial. Calei-te? Ah pois!, não mais voltar-me-ás a ter, pois serei para sempre intemporal, imortal na minha contingência. Até sempre. Ou será até quando?



05/06/2010

terça-feira, 1 de junho de 2010

A Fonte dos Pés

Indentitários pés. Unhas que complementam a identidade das extremidades dos membros humanos – beleza estranha esta. Imaculados ou imperialmente artificializados por vernizes de cores diversas que penetram na minha capacidade perceptiva de percepcionar tamanha imensidão. Os meus sentidos são tristemente incapazes de entender e absorver o objecto, que só por acaso – sim por acaso – está associado à natureza do Homem; a incapacidade realiza-se na capacidade destas palavras permitirem fazer-me imaginá-lo, a esse objecto, aos pés! Paradisíacos! Linguagem para que te quero senão para me fazeres a mim e a todos vós imaginar como se aqui estivessem à minha frente essas gloriosas formas constituídas por um denominado tarso e outro metarso, mas principalmente os dedos – esses não quero os nomear, simplesmente admirá-los, sem que para tal tenha que pensar em nomes. Se de momento me encontro no mundo das palavras, obrigo-me ou obrigam-me a nomear. Que seja então: esqueçamos os substantivos pé ou dedo, antes lembremo-nos e adoptemos fonte e água respectivamente. A fonte que refresca a paisagem e a quem por lá está perto (neste caso eu) e à água que produz um som inaudível de boniteza física, caminhando livremente por correntes dóceis em desmesura.
Compreendamos: há fontes e fontes, por conseguinte, há águas e águas. Consomem-me as que me impelem uma vontade imparável de mergulhar nelas, de as sentir por mais que não as sinta como gostaria. Quero aquelas que são quase como insensíveis ao que lhes é exterior e de sensibilidade extrema na sua intrinsecidade. Prentendo violentar violentamente a sua excelência sensível, porém é-me de todo impossível. Lindo! Foda-se! Este misto que a estética de tais fontes e águas me provoca arrebata-me e confunde-me. Impotência de me inteirar da sua beldade e potência de a cada vez que elas me surgem chorar sem lágrimas. Tenho feroz necessidade de beijar as águas que inundam o meu ser; ora, são elas que me inundam e me afogam, eu não as consigo usufruir na sua plenitude. Não sei nadar. Seria esse, porventura, o objectivo: nadar pelas águas, apreciá-las por entre o seu vermelho (ou azul, ou de brilho transparente, ou branco) sem que me afogue ou me canse; nadar sem parar, nadar sem que para isso seja preciso qualquer esforço e movimento físico.
Procuro uma vez mais a originalidade e identidade das fontes que vou vendo, das águas com que me vou deparando. Tento. Penso conseguir – pensamento erróneo esse. Esta procura desperta-me inexplicavelmente, talvez seja por não poder atirar-me a elas, busco portanto conforto na razão e na tentativa de ver ali algo de original e identitário. Inércia esta a minha. Se ao menos pudesse nadar! Se ao menos pudesse beijar as águas e não me molhar! Se ao menos pudesse escrever sem palavras. Satisfaço-me com o que me é possível então: a sua existência. A longitude entre mim e a sua beleza.

01/06/2010

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Pessoas

Eu estou para as pessoas, entre elas, para elas, com elas, sem elas e com elas sucessiva e consequentemente; contudo, não me interessam. São pessoas e eu outra, e eu sou A pessoa, sou eu, eu interesso-me, eu atinjo-me, sinto-me... Sou deus de mim próprio, permito-me crer ou descrer o que sou. A fé em fé, a metafísica que não é mais do que física da metafísica.
Então, as pessoas são pura metafísica, por isso deuses humanos, deuses antropomorfizados - interessante politeísmo. São, portanto, equiparáveis a tudo na natureza. Limito-me (sim é uma limitação, imposta por mim próprio porque conscientemente desejo essa limitação) a amá-las, odiá-las (poucas vezes, ou nunca; ódio a que chamo ódio mas não o é, não como o entendem, ódio como eu o entendo, como eu o sinto), cheirá-las, ouvi-las, avaliá-las, estudá-las, convencê-las ou não convencê-las, e, por último – mas não só – essencialmente observá-las e falar com elas. Posso comparar a minha relação com o homem como o momento em que fumo um cigarro à janela e observo a árvore que inexoravelmente me surge no meu ângulo de visão: não as posso cortar (poder podia, porém não é o que quero nem o que me faria feliz. Fazer feliz, eis outra questão), nem as posso deixar de ver pois mesmo que os meus olhos se fechem, a sua irredutibilidade de vontade própria em se quererem abrir impedem a minha não visão. Observo a árvore, dialogo com ela e ela comigo: os seus ramos que levemente se vão mexendo e por arrasto as folhas que dançam veementemente me vão dizendo para ter uma boa noite ou um bom dia dependendo das horas em que fumo. Eu respondo com um tímido obrigado, uma timidez provocada pela inesperada conversa. Pouco mais se desenvolve, mas não a deixo de observar e muito provavelmente ela a mim. Entretanto, as estrelas pedem por favor para entrar na relação – quando o cigarro vai a meio. O que dizem não é muito também, remetem-se a falar sobre o tempo e sobre a vida quotodiana. Digo, por fim, adeus, fecho a janela e retiro-me.
Com as pessoas passa-se precisamente o mesmo, jamais as deixarei de observar, conversar sem as poder tocar, não com o corpo mas com a alma...enfim. No fim dos fins lá vou sempre fechando a janela e afasto-me, bem para longe iluminado pela luz do meu candeeiro que acende o que verdadeiramente sou: um solitário, desesperado ser em busca da solidão e do desespero que me dá força e que me faz viver, viver; não viver sem morrer: viver com a janela bem fechada e a luz iluminando ligeiramente.

22/05/2010

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Sol de Mar

Sol de areia,
incendeia
minha veia da razão
sem mão.
Estelhaça os vidros
invertidos
em mim, no fim.
O início é de sol,
um anzol
que prende o olhar
libertando-se do mar,
não amar!
Nadar no sol
até chegar ao alto
mar.
Metamorfoso-me.
Sou outro.
Nada mais, a não ser
um outro.

Sol de areia
repousa.
Pousa naquele mar
para te dar o que a mim
me deu.
Comigo morreu e eu com ele
morri,
porém nasci.
Tu hás-de nascer também;
hás-de ir mais
além,
sem desdém.
Mas amar
quem?

20/05/2010

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Malditos Espelhos

Lavas o rosto com lenços faciais, o espelho que reflecte o gesto reflecte o reflexo do reflectido. Não é essa a nossa constante viagem? Horas, dias, meses e anos passam sem que nos apercebamos dos vidros opacos que vão pairando sobre o céu – de referir, nem sempre azul – não céu que serve de mentira para que a verdade seja ainda mais indescortinável. Bastaria deixarmos de caminhar pelo tempo de cabeças baixadas, pois se as podemos movimentar por que não movimentarmo-las para cima voando com o olhar até atingir os espelhos que nos reflectem aborrecida e inertemente (?). Os parêntises à interrogação são propositados pois quando penso na afirmação penso-a exactamente como uma afirmação, daquelas bem convictas e concisas; porém, há quem assim não considere e a afirmação transfigura-se em questão, daquelas estúpidas, feias e absurdas – adjectivos negativos que conicidem precisamente com as pessoas que me fazem ter que adjectivar.
Ora, superada (quanto a mim) a óbvia problemática do voo, opto portanto em voar, e, coloca-se entretanto uma questão, essa sim pertinente: o que fazer quando lá chegar? Uma vez mais a resposta parece-me lógica: QUEBRAR o vidro! O objectivo é claro: chega de reflexos, quero ver para além. Quando lavas o rosto, agora não com lenços faciais, talvez com sabonete líquido e com água não gostarias de entender e atingir o que existe além do que é reflectido? Eu assumo inequivocamente que pretendo conquistar os céus, partir os vidros com as mãos, com a cabeça, com o cotovelo, com o joelho ou com a pila se for preciso. Tudo vale quando a intenção é positiva e diria salvadora, até derramar sangue em pleno voo.
Por fim, atravessei com êxtase o espelho que me aprisionava num mundo de céus tanto enublados como solarengos. O que vi então? O que vi? O que verei? O que veremos? O que senti então? O que senti? O que sentirei? O que sentiremos? Como saberemos se o que era verdade até hoje era fruto de uns certos vidros? Estando eles partidos tudo o que diremos não fará qualquer sentido. Ora nem mais, o próposito é esse: dar sentido!
Não desistirei em lutar pelo insentido que me dará a verdade, a verdade de que ela é nada mais do que inverdade – o insentido da inverdade.

13/05/2010

terça-feira, 11 de maio de 2010

Queda de uma Folha

Hoje é ontem e o ontem amanhã, sendo que hoje deixou de ser ontem nem será amanhã. O tempo inexistiu a partir do momento em que tudo que me rodeia perdeu a sua comum e normal importância.
A perda referida evoluiu numa total perda, do que é exterior para o que é intrínseco e interior; enfim, perdido e flutuante encontra-se actualmente o meu ser, um ser involuntariamente deambulante – voluntariamente estaria sentado na cadeira iluminada por um sol acolhedor onde os meus olhos pudessem ao longe avistar o espelho que reflecte o que sou e como estou.
É certo que não escolhi estar onde não estou, preferiria estar no estar mas assim não acontece. Portanto, aceito, quase como que uma folha a cair de uma árvore em pleno Outono, esta perdição e queda lenta num abismo indefinido sem que faça grande alarido por tal facto. Cair nesta fase abismal pode não ser negativo, nem consigo discernir se é positivo, como também não entendo se a cadeira iluminada onde me queria encontrar e onde quase todos se encontram é a verdadeira positividade; eu sei lá!, não sei se estaria melhor antes. Agora vou flutuando, tenho dificuldade em sentir e cimentar pensamentos e sensações. Todavia, assim pareço continuar por tempo indeterminado fazendo da aceitação o meu fardo.
Adeus tempo, adeus alicerces. Olá intemporalidade, olá céu. Esqueci o meu nome e os vossos nomes, libertem-me pois eu já me aprisionei na exagerada e indefinível liberdade.

11/05/2010

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Matosinhos

Foi-me apresentada uma questão mencionada no relatório do Banco Mundial de 2009 a reflectir: a possível falência de cidades. Ora, penso imediatamente na não muito antiga situação da minha terra natal Matosinhos, pois era indubitavelmente uma cidade rica na indústria, especialmente na de conservas e que por uma ou outra razão deixou, pelo que parece, de o ser algo recentemente.
É verdade que Matosinhos não faliu mas não é menos verdade que houve claramente uma mudança na sua concepção, na sua vida, apostando na habitação, ou melhor, principalmente na habitação. Houve, portanto, uma possível falência de um negócio que identificava e alimentava a cidade sendo de imediato e em simultâneo substituído por um outro.
Concluímos, por conseguinte, que a Cidade (Cidades visto que com o tempo e com a urbanização difusa se transformou em muitas) hoje é um ponto de pura, dura e simples produção, sendo que nós, seus cidadãos, perdemos esse título para passarmos a ser instrumentos dessa produção. Atrevo-me, inclusive, a afirmar que os próprios habitantes (em que o Porto impera como sua cidade de trabalho) desta badalada fonte residencial matosinhense são irremediavelmente intrumentos de um novo negócio de uma (re)nova(da) cidade.
Tal – em todo o seu conjunto - entristece-me!, tristeza essa que deve, repito, deve ser motivo de esperança, motivação, reinvindicação e vontade de mudança.

26/04/2010


O Relatório do Banco Mundial pode ser, por exemplo, consultado em: http://siteresources.worldbank.org/BRAZILINPOREXTN/Resources/3817166-1251734416241/relatorioanual2009.pdf

A ler também como curiosidade e possibilidade de comparação um artigo do "MatosinhosHoje": http://www.matosinhoshoje.com/index.asp?idEdicao=69&id=3964&idSeccao=932&Action=noticia