quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Dormindo Acordado II

Aqui estou eu, não me fui afinal, não acordei, ora não adormeci. Não tenho por meta adormecer, corto a fita finalmente quando fechar eternamente meus olhos. Vejo-me aqui agarrado ao meu mundo, de dicionário na mão como que se do meu coração se tratasse – é ele o meu coração neste momento. Estas palavras são as minhas veias, os meus pensamentos o meu sangue que flui como nunca por um rio biológico em desaguação num mar incerto. Cortar as veias, agredir as palavras prazerosamente emana o meu sangue em direcção a todo o meu corpo como se nunca antes este fosse percorrido por sangue, por conseguinte pelo que seria antes não sei.
O frio exterior existe e sinto-o como toda a gente mas a mim ele não me gela porque eu fodo-lhe, eu combato-o com o meu dicionário, ele palpita como um motor de um avião, por isso voa por céus desconhecidos aguardando por um sol que o ilumine. E é essa a função da estrela mais cintilante, portanto cintilar, porque se pensam que ele aquece, sim aquece o globo, porém eu não pertenco ao globo, eu sou o meu próprio planeta e tenho a minha estrela particular que me aquece, apesar de não me brilhar. Falta brilho sabem? Os meus olhos, por exemplo, estão baços que nem uma mobília ainda por polir, não sei o que fazer em relação a isso. Lembro-me, por agora, de voar até o meu motor parar. E se ele parar eu conserto-o, sim tenho o poder de me curar mesmo depois de não motorizado. Ah! Invejem-me vá! A inveja alimenta-me, faz-me sorrir de ironia e de desdenho. Quero eu lá saber que não tenham essa capacidade, eu tenho-a e a muitas mais, esta será contudo (admito que sim e sim) a maioral, à qual vocês não têm a mínima hipótese de compreender, por isso de a capacitar. Sorrio assim! Sorriso amarelo porque ainda não lavei os dentes, e continuarão maculados pela cor que não é suposto ter. Merda!, mas que cor ou que merda é-nos suposto ou melhor imposto ter, fazer, pensar. Eu sorrio com os meus dentes ainda mais imundos a isso! Se for para fazer o que não é suposto não os escovarei mais.
Perdi-me, merda! Ah!, falava eu da minha capacidade de me auto-regenerar. Mentira, pensais vós! O que é isso da mentira? O que é isso da verdade? A minha mentira é a minha verdade, nunca farei da minha mentira a vossa verdade, não é de todo esse o meu objectivo nem jamais o será. Não se atemorizem. Não sou mentiroso não, minto-me de verdade para mim, porque é bom. Raciocinem comigo: o sonho não é uma mentira de verdade a que nós contamos a nós próprios diariamente e diria religiosamente? Deus e a fé não são mentiras de verdade contadas para que de alguma forma haja uma espécie de paz interior? Eu respondo afirmativamente e até compreensivamente, não estranhem por favor, não sou louco de todo. Por outro lado, como há sempre o reverso da medalha a paz interior que acredito ser alcançada por muitos (eu, sinceramente, não a tenho por essa via, talvez a tenha por outra ou não a tenha simplesmente, talvez nem a queira, talvez nem a ache muita piada, pelo menos para já) não evita, curiosamente a guerra exterior, a guerra de nações e religiões. Tantos filhos da puta que se dizem de uma paz interior implacável pela sua fé ser inabalável que até têm a puta da capacidade de originar guerras por tais crenças fundamentalistas. Oh pa, se é para ser assim prefiria essa noção de paz interior se extinguisse da alma do ser humano, podemos viver bem sem isso, podemos inclusive e mais importante morrer sem isso. Eu vivo bem sem fé, vivo a noção de morte pessimamente admito, todavia hei-de morrer de qualquer modo, para que interessa? “Morrer bem, em paz”, simples balelas, tretas! Se se morre, morre-se! Mal, bem ou assim assim a verdade é que já morremos e não vejo o que isso possa adiantar a quem dá o último suspiro. Como não adiantou a Salvador Puig Antich na manhã da sua execução, nem a Meursault de Albert Camus idem aspas. Falo disto com uma expressão cisuda pois não é tema para tresloucar, mas rio-me abundantemente quando penso que, nos casos de execuções, são convidados e autorizados a estarem presentes. Mas o que é que eles são afinal? Homens? A mim parece-me que sim. E a vocês? Ora, homens que têm um grau de parentesco com o condenado não serão Homens mais importantes para o próprio? Ah pois, esqueci-me que há ligação estreita entre o Padre e Deus, comunica com este para que possa receber de braços abertos o seu filho que por algum motivo foi decapitado ou estrangulado por ordem de um qualquer Direito, de um Estado que muitos deles até representam curiosamente o mesmo Deus. Olha a ironia. O Estado condena-os mas depois até convoca um padreco para lhe dar umas palmadinhas nas costas e rezar um “Avé Maria” até este se convencer que irá depois desta vida para o Reino dos Céus. Aliás, o Estado só pensou precisamente no seu bem estar, estará sempre bem melhor no Céu e com todos os seus Sãos Pedros, Josés, e quaisquer outros nomes vulgares do que connosco. Somos tão altruístas que até comove. Obrigado Deus e a todos os seus reprensentantes na Terra por me ensinarem a entender a noção de altruísmo absoluto.
Uma coisa eu sei: é que uma vez mais me perdi, e perdido continuarei. Talvez visite - já que expulsei a Puta, O Beckett e o seu amigo – o anão Perdigão que me ofereceu um dia destes uma flor do seu tamanho e assim me declarou: “Como vês, uma flor oferecida pelo um homem até pode ser cómico”. E não é que a raio do anão teve razão, ri-me que nem louco. Então, pensando nisso visto ter escrito que nem louco não haverá melhor oportunidade para o invocar, pois não posso fazer só algo específico “que nem louco” durante muito tempo. É hora de me rir novamente que nem louco. Ou será antes hora de o louco se rir muito? Parece-me bem mais esta a possibilidade. Ouço o anão Perdigão a chegar, esclareço desde já que o som não é proveniente da sua movimentação, pois de tao leve e minorca que é mal se nota a sua presença, quanto mais ao longe. Ouço-o porque já me está a falar ao ouvido do meu pensamento. Sê bem vindo.
Eu despeço-me angustiado pois muito mais teria a explorar no meu dicionário, contudo ele não parará, acredito que não, não hoje, não amanhã nem nunca porque o que está aqui hoje é para sempre o seu bater.

26/11/2009

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