domingo, 6 de setembro de 2009

Continuação.

II

Visto ter deliberado continuar o caminho do pensamento e a consequente partilha do mesmo, será pertinente levantar uma questão que imediatamente brotou da discussão anterior: se tanto ansiava calar-me, e se concluí que a única via a seguir para que isso seja possível seja a morte, então por que não morrer? Por que não antecipar a morte? Analiso, agora sim, mais friamente que aquele meu desejo fosse antes mais um pretexto criado por mim para me auto-motivar em relação à escrita e ao constante debate de ideias pessoais. Portanto, não há em mim qualquer ponderação em relação à possibilidade de morrer por vontade própria. Isto, remete-me a uma frase já aqui escrita: “Admito uma desistência. Logo eu que gosto tão pouco de desistir”. Desta vez, não admito peremptoriamente nenhuma desistência. Não desisto da vida por muito que ela desista de mim.
É clara esta relação amor/ódio que tenho com a minha razão. Assemelha-se a uma criança que tanto quer como não quer, que tanto gosta como não gosta. E foi assim que tudo começou, com esta relação intirmitente, confusa, brusca, forte e intensa que venho tendo com a racionalidade que impera em mim. Amo-a porque é uma dádiva, odeio-o por amá-la tanto; amo-a porque me faz sentir diferente, como qualquer Homem se devia sentir por possuir razão, contudo odeio-a porque gostaria que me fizesse sentir mais do que diferente, especial; amo-a porque permite-me sonhar, odeio-a porque destrói aquilo que sonho; amo-a porque me faz escrever estas palavras, odeio-a porque não me faz escrever mais e melhor; amo-a porque me faz querer mais e melhor, odeio-a por me dar entender que vou sempre querer mais e melhor; amo-a porque ela sou eu, odeio-a porque o que eu sou não lhe satisfaz; amo-a e alimento esse amor, odeio-a por não a conseguir alimentar devidamente.
Imagino a razão como uma Deusa que se apaixona pelo um humano, sendo ela uma Deusa é insaciável, poderosamente insaciável. Sendo uma Deusa, a perfeição emerge dela e pretende claro que o seu amado alcance também essa perfeição. Por sua vez, o humano luta ferozmente por atingir a igualdade perante a sua Mais-do-que-tudo, tentando constantemente, sem sucesso agradá-la. Ama-a pela sua perfeição, odeia-a pelo seu insucesso. Ela ama-o simplesmente porque é o seu Homem, mas odeia-o por não conseguir ser mais do que um homem. Ou seja, toda esta relação amor/ódio é resultante da minha convicção de que será possível ser sempre mais do que sou, transcender-me, endeusar-me.

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