domingo, 22 de fevereiro de 2009

Exercício

Um exercício mental interessante de se fazer, quanto a mim, será forçar-nos a identificar qual a primeira questão que nos surge se nos obrigarmos a pensar numa questão a colocar a nós próprios. Praticando frequentemente tal manobra de diversão da minha razão percebo que é inevitável comandar o conteúdo da questão em surgimento, não fosse eu questionar-me o porquê da relva ser verde ou o céu azul. Contudo, apesar desse poder as questões acabam sempre por ser aleatórias e raramente iremos repetir uma ou outra, nascendo assim um jardim de pensamentos perdidos de respostas inacabadas e inconclusivas vindas de questões que nem sequer chegaram a ser oficialmente e realmente abordadas. Proponho analisar, a muito custo uma das perguntas que me desabrochou neste jardim infundado:

Fazendo uma retrospectiva do que era o meu ser no passado conhecer-me-ei e identificar-me-ei eu com aquela pessoa que vagamente me vou recordando? Conheço-me eu agora? Conhecer-me-ei no futuro?

É compreensível o porquê de dificilmente se obter uma resposta bem delineada, concisa e precisa quando elas serão sempre eternas porque nunca serão isso mesmo, respostas. Serão apenas tentativas de tal, eternas porque continuaremos a tentar, - sucessivamente, ingloriamente, necessariamente.

“Depois de dois dias enclausurado no seu quarto Fernando, naturalmente nostálgico pelo contexto em que se insere recorda a sua vida, o que ela foi ou o que não foi até ali, recorda os momentos que viveu, os que gostaria de não ter vivido e os que gostaria de ter vivido encadeado pelas luzes direccionadas para um determinado local do seu quarto – mais propriamente o canto superior esquerdo – oriundas de um mini-candeeiro pousado aleatoriamente no chão. Decide por força dessa nostalgia alargar e alimentar esse sentimento colocando uma música propícia, navegando nela entre passados e presentes passados e futuros passados imaginados, claro está.
Já de olhos fechados e compenetrado no mundo que ele próprio vivia, onde o cérebro funcionava apenas como uma função imaginativa, sem qualquer tipo de raciocínio lógico, sem perguntas nem respostas, sem fundamentos ou teorias, sente uma presença – não a ouve, porque a ouvir estaria a música, sente-a apenas como um corpo humano sente outro. Era Sara. Fernando abre os olhos e assusta-se:

- Sara! Assustaste-me! Foda-se!

Sara sorri e responde:

- Não foi minha intenção Fernando. Estava preocupada contigo. Não apareces no trabalho; não respondes às minhas mensagens, nem muito menos às minhas chamadas. Decidi visitar-te!
- Meti férias. Depois de o fim-de-semana lá volto à rotina tenebrosa e ao mesmo tempo viciante. Nestes dois dias por casa, dois dias de refúgio, tendo servido quase como um pequeno retiro espiritual, apercebi-me que a rotina não é mais do que a antítese e o sinónimo do sono. A antítese, obviamente porque estamos acordados e no sono dormimos; o sinónimo porque na verdade, cumprir horários num trabalho que nem é nem nunca foi o sonhado, voltar para casa, voltar ao trabalho, lidas de casa, estar com amigos nos tempos livres não é mais do que cumprires adormecidamente aquilo que te foi imposto pela sociedade, ou melhor dizendo recorrendo a um espírito antropológico e não sociológico, a mim próprio que assim o quis. Podia gozar os meus dois dias de férias divertindo-me, fazendo algo que dificilmente consigo fazer no dia-a-dia. Mas não será estar connosco próprios bem acordados, com o nosso verdadeiro eu, em contacto com a nossa alma que conseguimos fazer algo de diferente, algo que isso sim raramente tempos tempo, disponibilidade e acima de tudo vontade de o fazer. Sim vontade! Tal como nos custa levantar da cama depois de uma boa noite de sono, é-nos difícil e impiedoso acordarmos de uma vida de entorpecimento. Aí a vontade claramente não resiste. Perde-se algures durante este sono profundo.

Sara que ouvia pacientemente e atentamente o seu amigo identificou-se claramente com aquilo que lhe foi dito e a conversa continua:

- Significa que agora durmo e tu vives…
- Significa que tu estás de olhos abertos mas fechados e eu fechei-os abrindo-os para sempre, este sempre que foi para mim estes dois dias e todos os outros, poucos, que irão de vir. Para mim é esse o "para sempre".
- Entristece-me a visão que me deste.
- Depois dessa tristeza virá a fúria, depois a frustração e, por último a resignação.
- Do que me é possível conhecer de mim, penso vir a saltar etapas até à última com uma sensação de resignada derrota.
- Derrota!
- Derrota!

Os olhos de Fernando brilham bruscamente e exclama:

- Fomos vencidos pela vida!
- Será que foi a vida nos venceu ou fomos nós que nos derrotamos a nós próprios. Como referiste anteriormente devemos assumir as nossas limitações, as nossas incapacidades. E a grande incapacidade será claramente a de não conseguirmos retirar da vida aquilo que queremos. Por isso, não me parece que seja uma vitória desta, porque ela não nos quer ganhar, nós é que preferimos perder. Perder é sempre mais fácil!
- Ora nem mais! Sabes que olhando para trás não me conheço, vendo o que sou hoje continuo sem me conhecer e no futuro não me conhecerei com certeza, aliás nem me quero conhecer.
- Será assim o auto-conhecimento do eu passado, do eu presente e do eu futuro essencial ao triunfo?
- Concluo que essencial não será, importante sim. Importante não adormecermos na rotina, importante diariamente reflectirmos e mesmo não sendo talvez possível conhecermo-nos perfeitamente, identificarmos sim o que fomos, o que somos e o que ainda podemos ser. Este seria o caminho se aos vinte anos não tivéssemos entrado neste estado de sonolência que tornou a situação irremediável.
- Qual situação? A vida!
- A vida é a grande situação e uma situação merece ser encarada exactamente como uma situação em que nos entregamos a ela profundamente até esta ser resolvida. Achamos nós e acham quase todos que a situação será resolvida por ela própria. Mas não é. Ai não que não é!”


Terá começado Fernando aqueles dois dias tão intensos de refúgio espiritual com o mesmo exercício referido por mim inicialmente?

1 comentário:

Anónimo disse...

Fácil Mar!