quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Dormindo Acordado II

Aqui estou eu, não me fui afinal, não acordei, ora não adormeci. Não tenho por meta adormecer, corto a fita finalmente quando fechar eternamente meus olhos. Vejo-me aqui agarrado ao meu mundo, de dicionário na mão como que se do meu coração se tratasse – é ele o meu coração neste momento. Estas palavras são as minhas veias, os meus pensamentos o meu sangue que flui como nunca por um rio biológico em desaguação num mar incerto. Cortar as veias, agredir as palavras prazerosamente emana o meu sangue em direcção a todo o meu corpo como se nunca antes este fosse percorrido por sangue, por conseguinte pelo que seria antes não sei.
O frio exterior existe e sinto-o como toda a gente mas a mim ele não me gela porque eu fodo-lhe, eu combato-o com o meu dicionário, ele palpita como um motor de um avião, por isso voa por céus desconhecidos aguardando por um sol que o ilumine. E é essa a função da estrela mais cintilante, portanto cintilar, porque se pensam que ele aquece, sim aquece o globo, porém eu não pertenco ao globo, eu sou o meu próprio planeta e tenho a minha estrela particular que me aquece, apesar de não me brilhar. Falta brilho sabem? Os meus olhos, por exemplo, estão baços que nem uma mobília ainda por polir, não sei o que fazer em relação a isso. Lembro-me, por agora, de voar até o meu motor parar. E se ele parar eu conserto-o, sim tenho o poder de me curar mesmo depois de não motorizado. Ah! Invejem-me vá! A inveja alimenta-me, faz-me sorrir de ironia e de desdenho. Quero eu lá saber que não tenham essa capacidade, eu tenho-a e a muitas mais, esta será contudo (admito que sim e sim) a maioral, à qual vocês não têm a mínima hipótese de compreender, por isso de a capacitar. Sorrio assim! Sorriso amarelo porque ainda não lavei os dentes, e continuarão maculados pela cor que não é suposto ter. Merda!, mas que cor ou que merda é-nos suposto ou melhor imposto ter, fazer, pensar. Eu sorrio com os meus dentes ainda mais imundos a isso! Se for para fazer o que não é suposto não os escovarei mais.
Perdi-me, merda! Ah!, falava eu da minha capacidade de me auto-regenerar. Mentira, pensais vós! O que é isso da mentira? O que é isso da verdade? A minha mentira é a minha verdade, nunca farei da minha mentira a vossa verdade, não é de todo esse o meu objectivo nem jamais o será. Não se atemorizem. Não sou mentiroso não, minto-me de verdade para mim, porque é bom. Raciocinem comigo: o sonho não é uma mentira de verdade a que nós contamos a nós próprios diariamente e diria religiosamente? Deus e a fé não são mentiras de verdade contadas para que de alguma forma haja uma espécie de paz interior? Eu respondo afirmativamente e até compreensivamente, não estranhem por favor, não sou louco de todo. Por outro lado, como há sempre o reverso da medalha a paz interior que acredito ser alcançada por muitos (eu, sinceramente, não a tenho por essa via, talvez a tenha por outra ou não a tenha simplesmente, talvez nem a queira, talvez nem a ache muita piada, pelo menos para já) não evita, curiosamente a guerra exterior, a guerra de nações e religiões. Tantos filhos da puta que se dizem de uma paz interior implacável pela sua fé ser inabalável que até têm a puta da capacidade de originar guerras por tais crenças fundamentalistas. Oh pa, se é para ser assim prefiria essa noção de paz interior se extinguisse da alma do ser humano, podemos viver bem sem isso, podemos inclusive e mais importante morrer sem isso. Eu vivo bem sem fé, vivo a noção de morte pessimamente admito, todavia hei-de morrer de qualquer modo, para que interessa? “Morrer bem, em paz”, simples balelas, tretas! Se se morre, morre-se! Mal, bem ou assim assim a verdade é que já morremos e não vejo o que isso possa adiantar a quem dá o último suspiro. Como não adiantou a Salvador Puig Antich na manhã da sua execução, nem a Meursault de Albert Camus idem aspas. Falo disto com uma expressão cisuda pois não é tema para tresloucar, mas rio-me abundantemente quando penso que, nos casos de execuções, são convidados e autorizados a estarem presentes. Mas o que é que eles são afinal? Homens? A mim parece-me que sim. E a vocês? Ora, homens que têm um grau de parentesco com o condenado não serão Homens mais importantes para o próprio? Ah pois, esqueci-me que há ligação estreita entre o Padre e Deus, comunica com este para que possa receber de braços abertos o seu filho que por algum motivo foi decapitado ou estrangulado por ordem de um qualquer Direito, de um Estado que muitos deles até representam curiosamente o mesmo Deus. Olha a ironia. O Estado condena-os mas depois até convoca um padreco para lhe dar umas palmadinhas nas costas e rezar um “Avé Maria” até este se convencer que irá depois desta vida para o Reino dos Céus. Aliás, o Estado só pensou precisamente no seu bem estar, estará sempre bem melhor no Céu e com todos os seus Sãos Pedros, Josés, e quaisquer outros nomes vulgares do que connosco. Somos tão altruístas que até comove. Obrigado Deus e a todos os seus reprensentantes na Terra por me ensinarem a entender a noção de altruísmo absoluto.
Uma coisa eu sei: é que uma vez mais me perdi, e perdido continuarei. Talvez visite - já que expulsei a Puta, O Beckett e o seu amigo – o anão Perdigão que me ofereceu um dia destes uma flor do seu tamanho e assim me declarou: “Como vês, uma flor oferecida pelo um homem até pode ser cómico”. E não é que a raio do anão teve razão, ri-me que nem louco. Então, pensando nisso visto ter escrito que nem louco não haverá melhor oportunidade para o invocar, pois não posso fazer só algo específico “que nem louco” durante muito tempo. É hora de me rir novamente que nem louco. Ou será antes hora de o louco se rir muito? Parece-me bem mais esta a possibilidade. Ouço o anão Perdigão a chegar, esclareço desde já que o som não é proveniente da sua movimentação, pois de tao leve e minorca que é mal se nota a sua presença, quanto mais ao longe. Ouço-o porque já me está a falar ao ouvido do meu pensamento. Sê bem vindo.
Eu despeço-me angustiado pois muito mais teria a explorar no meu dicionário, contudo ele não parará, acredito que não, não hoje, não amanhã nem nunca porque o que está aqui hoje é para sempre o seu bater.

26/11/2009

Dormindo Acordado I

Foda-se!, cresce por vias incendiárias a minha vontade involuntária de desejar, de me excitar ao ter vontade de tudo ser e em multiplicidade me tornar. Para o comprovar digo somente e, como exemplo, que as sintaxes que vão correndo em meus pensamentos estão repletas de um vocabulário a roçar o ordinário (o significado do verbo roçar neste contexto foi exactamente com o objectivo de a descontextualizar e simultaneamente contextualizar, dependerá de como cada um interpretar, no entanto, como de momento nego qualquer tipo de interpretação subjectiva afirmo claramente que eu roço com o meu pénis onde me bem apetecer, porque ele assim mo pede; eu concedo-lhe tal pedido, e dele falo para que se sinta omnipotente) e assimilações cognitivas incognoscíveis, talvez cognoscível para quem sofrer de perturbações cognitivas.
Puta que te pariu!, estas palavras assombram o meu espírito ou poderei ser eu a assombrá-las? Francisco José! É o meu nome! Assustei-te Puta? Ah pois!, fode-te que não hás-de parir mais depois de o meu nome teres ouvido, mas o que realmente isso interessa? És uma puta e eu um louco que tenta escrever sobre putas como tu. Ora, onde está a lógica de tudo isto? Nem esta mesma pergunta foi lógica como posso pretender eu justificar qualquer tipo de comportamento quando nem a pergunta primeira que, provavelmente, me permitiria nem que seja pensar no que penso. Se a questão chave nem a consigo formular como poderei eu pensar o que penso, e analisar pensamentos que fogem com outros pensamentos e me deixam só, solitário num mundo de putas e outros Franciscos Josés que tais.
A estes fez-me agora companhia o meu amigo de merda Beckett com o seu compincha Molloy com quem já tive um ou outro pesadelo outrora. Párem de me chatear, imploro-vos! Não quero saber se a vossa vida corre mal, se já morreram e eu estou vivo, ademais nem eu sei se estou realmente vivo. Vatangem a vossa que sabem com certeza que morreram, acredito que quando se morre todas as certezas surgem enfim, porquanto as incertezas deixam de existir. Tão óbvio que até mete nojo!

E se eu gritasse bem alto até a minha voz entoar no sino do mosteiro a maior altitude do mundo? Antes de me responderem, lembrei-me que seria interessante conhecer esse mosteiro. Qual será? O quê? Não sabem a que questão me hão-de responder agora? Foda-se!, cambada de limitados de merda pá! Respondam, simplesmente respondam, ora que caralho! Posso até ouvir e ver algo como o cagalhoto de escamas acastanhadas, deitado naturalmente e inocentemente pelo cão do vizinho, subir aos mais altos céus quando, repentinamente, uma vassoura manuesada pelo Fernando, varredor municipal duma qualquer cidadezinha de submundo onde haja um Fernando como varredor, que saturado da sua rotina de lixo e mais lixo, lixo se sentiu até que finalmente viu o cagalhoto voando sobre as estrelas. Aí, finalmente pensou: “Se a merda pode voar porque não vôo eu também?”. Se a merda pode voar porque não voamos nós também? Se vos inqueri como seria a minha voz num grito forte, grave a insurcedor exigi uma simples de uma resposta vossa, tendo ainda vos dado a oportunidade me responderem a uma outra pergunta. Foi um dois em um, ou seja, praticamente um questionário! E o que é que vocês meus podres fazem? Fogem com o rabo à seringa e nenhuma palavra me presenteiam que me tenha algum tipo de utilidade. Puta que vos pariu! Se a merda pode voar, eu vôo pois sou merda, enquanto que vocês com a vossa não-merda, não nada ficam em terra, rastejam aliás como minhocas constantemente pisadas por patas de humanos que se julgam tal, mas que não passam meramente de cães que nem habilidade têm para cagar. Eu, ao menos sou cagalhoto e vôo, e escrevo estas palavras por paisagens longas, invisíveis, inaudíveis, insensíveis onde só eu eu as percorro, as vejo, as ouço e as sinto.
Amanhã falaremos mais, desapareçam que eu vou acordar.

25/11/2009

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Egoísmo Recíproco-Moralista

Há um dualismo que quando penso nele me comina inicialmente uma intriga falível, por conseguinte uma dúvida que se multiplica e me remói. Falo-vos das noções de Egoísmo e Altruísmo, frequentemente utilizadas coloquialmente como também aplicadas em específicas áreas do saber, como é exemplo a Filosofia. Note-se que, do ponto de vista etimológico ambas as palavras designam sem parêntises ou apartes o seu real significado (embora Altruísmo tenha nascido apenas com Augusto Comte). É sabido – por uma análise comparativa com o significado de muitas outras palavras – que o sufixo ismo invoca uma noção de culto a algo, alguém. Enquanto que ego e alter corresponderão em português às palavras “eu” e “o outro”, isto apesar de ambas provirem do latim e não terem sofrido nenhuma alteração etimológica e/ou semântica na sua transição para o Português, o que por isso também nos permite simplesmente dizer ego e alter.
Ora, retomando o raciocínio inaugural, dizia eu que o dualismo Egoísmo Altruísmo me provoca uma reflexão interessantíssima. A questão a que me proponho é entender o porquê de não existir um meio entre o ego e o alter. Isto é, entendo o Eu (entendo o seu significado, já do ponto de visto filosófico será uma outra questão já muito debatida e trabalhada, à qual espero um dia também eu me desafiar a esse labor), simultaneamente entendo de igual forma o alter, no entanto, pergunto-me e pergunto-vos se Eu sou eu e tu/ele/nós/vós são o que são, então o que é que estará no espaço entre estas duas noções? Será esta, meramente, a primeira questão que em cadeia levar-me-á a outras questões, mas terá indubitavelmente um papel semelhante às palhetas no pinball, pois qualquer outra a ser materializada remeter-me-á a esta mesma, e daqui não sairei até a bola cair no fundo da minha desilusão racional sobre a possibilidade de respostas a perguntas de carácter metafísico. É apenas uma previsão que faço, não muito arduamente virá, logicamente, a ser verdadeira, porém uma outra previsão farei: com mais alguns créditos (pressupõe-se que créditos servirá de analogia para tempo e novas motivações) a bola surgirá uma vez mais, e ciclicamente no “lançador” para, portanto, ser lançada novamente e assim novas questões colocar-se-ão, novas dissertações se realizarão.
Não obstante, estas últimas ideias terem uma conotoção de conclusão, na realidade não o é: é sim uma preparação para o que irei defender, salvaguardando-me à partida com uma humildade, digna de um Karl Popper, de como não conseguirei, porventura, ser convicente e conclusivo (justifica-se assim a minha conclusão antecipada, finalizarei este texto, por isso, com a minha teoria). O que defendo, portanto, é que tem inevitavelmente que existir algo entre o ego e o alter, há que ser criada uma ideia que se venha interpor com o dualismo de Egoísmo Altruísmo, resultando depois um meio termo que, pessoalmente, acalmará a minha alma. Ademais, todos os meios termos parecem-me desprezados pela mundo dos significados, existindo contundo no mundo das ideias, pelo menos para mim (não sei se como Platão lá cheguei por contemplação). Entre o ódio e o amor existe sempre muitos outros sentimentos que compreendo não poderem ser enclausurados num só, mas nenhum deles se relaciona e se intromete entre este dualismo. É um exemplo obviamente dos mais básicos, mas como este existem imensos outros, que me faz pensar que as extremidades são bem mais atractivas do que o equilíbrio. Logo, é precisamento esse equilíbrio que procuro e idealizo praticar: ser egoísta, por simplesmente valorizar ou sobrevalorizar (como queiram) não só o Eu como tudo o que seja em mim envolvente, e por outro lado, pensar - quando assim me for exigido pela minha moral e pelos meus sentimentos - no outro, ajudá-lo, enfatizá-lo, reconhecê-lo, amá-lo sem querer nada em troca. Contudo, realço que acima de tudo o Egoísmo quase que prevalece por completo, digo quase, mas não só. Ora, que nome podemos dar a um egoísta e altruísta? Que nome damos ao que está entre o ego e o alter?
Levando em conta os pressupostos acima referidos, atrevo-me a dizer que serei um Egoísta Recíproco-Moralista, metaforizando com a teoria sociobiológica de Robert Trivers de Altruísmo Recíproco. Escusado será justificar o porquê de Egoísta, enquanto que me auto-intitulo como um Recíproco-Moralista (seja lá o que isso for, simplesmente anseio pelo um rótulo) porque não espero nada mais dos outros que o sejam também, todavia torcendo para que moralmente contribuam para o meu bem estar como eu sempre o farei. Ficaríamos todos a ganhar, sem que houvesse uma grande exigência altruísta entre todos nós.
Ora, como de mim posso dizer o que bem me apetecer, aqui fica! Quanto ao resto, a bola há-de ser novamente lançada, se alguém achar valer a pena.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Dicotomia

A vivência mundana, rotineira e diária absorve-me muitas vezes num estado de paralisia cerebral e, acima de tudo, intelectual que me provoca lesões - efémeras poderei dizer (menos mal) – irreversíveis na sua curta temporalidade. Aqui, aplicar-se-á inteiramente o provérbio popular de que "o tempo cura tudo", pois parece factualmente curar. Desfragmento o tempo ou desfragmenta-se por ele próprio condicionado por aquela que será a sua conjuntura. Arrelia-me simplesmente o facto de a grande (em quantidade e em tempo entenda-se) conjuntura ser claramente a superficial rotina.
Resta-me, porventura, procurar outras conjunturas que me permitam atingir um estado, satisfatoriamente e prazerosamente, de transcendentalismo. Não rejeitando, contudo, por completo a mundaneidade, até porque seria altamente contraditório, não fosse precisamente esta, a conceder-me matéria-prima para a minha elevação.
Em suma, deparo-me no meu ser com dois estados distintos entre, provavelmente, várias outros estados (sub-estados diria) dos quais não devo considerar sequer assassinar qualquer um deles, apesar de ser verdadeira a minha vontade de o fazer. No entanto, é indubitável que a balança que idealizo não tenha um peso distribuído por igual, e sim uma diferença de volume bastante significativa. Porquanto, só assim sentir-me-ei acima de mim mesmo, só assim valorizar-me-ei como homem, como ser pensante. Caso não concretize esta minha vontade de mudança conjuntural, de distribuição correcta de massa nos estados emocionais, a minha existência tornar-se-á, portanto, inexplicável.

sábado, 24 de outubro de 2009

Não Quero.

Qual é o objetivo de alçancar o que se quer? Querer é o mais íntimo desejo da nossa inconsciência que quando realizado, posteriormente e já na nossa consciência, rejeitamos. Ora, seja qual for o pretexto ou necessidade utilizadas para a criação do querer ela é intolerável visto ser insaciável. Faço-me entender? Quero-o, poderei estar a conseguir ou não mas de que é que me vale? – concretização!
Falemos dela. A concretização procede o querer e o que é que a ela procede?Eis a questão das questões. Eis o que realmente levanta dúvidas sobre a validade do querer como querer e a sua objectividade. A dúvida manter-se-á porque é precisamente esta que fundamenta a necessidade de querer e consequentemente o concretizar desse querer. Escolho não-querer, por isso não escreverei sobre o querer quando não quero sentir-me concretizado, não aqui, não agora, não sobre este tema. Posso ser tudo menos hipócrita, e de momento a única coisa que quero é não o ser.

domingo, 6 de setembro de 2009

Continuação.

II

Visto ter deliberado continuar o caminho do pensamento e a consequente partilha do mesmo, será pertinente levantar uma questão que imediatamente brotou da discussão anterior: se tanto ansiava calar-me, e se concluí que a única via a seguir para que isso seja possível seja a morte, então por que não morrer? Por que não antecipar a morte? Analiso, agora sim, mais friamente que aquele meu desejo fosse antes mais um pretexto criado por mim para me auto-motivar em relação à escrita e ao constante debate de ideias pessoais. Portanto, não há em mim qualquer ponderação em relação à possibilidade de morrer por vontade própria. Isto, remete-me a uma frase já aqui escrita: “Admito uma desistência. Logo eu que gosto tão pouco de desistir”. Desta vez, não admito peremptoriamente nenhuma desistência. Não desisto da vida por muito que ela desista de mim.
É clara esta relação amor/ódio que tenho com a minha razão. Assemelha-se a uma criança que tanto quer como não quer, que tanto gosta como não gosta. E foi assim que tudo começou, com esta relação intirmitente, confusa, brusca, forte e intensa que venho tendo com a racionalidade que impera em mim. Amo-a porque é uma dádiva, odeio-o por amá-la tanto; amo-a porque me faz sentir diferente, como qualquer Homem se devia sentir por possuir razão, contudo odeio-a porque gostaria que me fizesse sentir mais do que diferente, especial; amo-a porque permite-me sonhar, odeio-a porque destrói aquilo que sonho; amo-a porque me faz escrever estas palavras, odeio-a porque não me faz escrever mais e melhor; amo-a porque me faz querer mais e melhor, odeio-a por me dar entender que vou sempre querer mais e melhor; amo-a porque ela sou eu, odeio-a porque o que eu sou não lhe satisfaz; amo-a e alimento esse amor, odeio-a por não a conseguir alimentar devidamente.
Imagino a razão como uma Deusa que se apaixona pelo um humano, sendo ela uma Deusa é insaciável, poderosamente insaciável. Sendo uma Deusa, a perfeição emerge dela e pretende claro que o seu amado alcance também essa perfeição. Por sua vez, o humano luta ferozmente por atingir a igualdade perante a sua Mais-do-que-tudo, tentando constantemente, sem sucesso agradá-la. Ama-a pela sua perfeição, odeia-a pelo seu insucesso. Ela ama-o simplesmente porque é o seu Homem, mas odeia-o por não conseguir ser mais do que um homem. Ou seja, toda esta relação amor/ódio é resultante da minha convicção de que será possível ser sempre mais do que sou, transcender-me, endeusar-me.

domingo, 15 de março de 2009

Assim começarei...

I

Calei-me. Não que estivesse em diálogo com alguém ou talvez comigo próprio, mas porque o silêncio parece não existir mesmo calado. Desta vez, calei-me por tempo indeterminado. Agora não há voz que ouça, ou sons que se façam ouvir: a mudez reina! Intitulava-me conversador, um conversador solitário de colóquios surdos internos que idolatravam o existencialismo. Intitulo-me, hoje, um opaco ser só porque sim. Optei – nunca é demais reforçar – pelo vazio do não-pensamento. Surge-me, no entanto uma questão, um dilema quiçá: se não pensar o que sou eu então? Pensar que não penso, penso que não penso; não pensar que não penso, penso; Não pensar que penso, penso porque estou a pensar, mesmo não pensando que penso; alheando-me do pensamento, o pensamento me encontra e dele não consigo fugir. Que fuga é esta que tanto desejo e que deveras penso nela, mas de que dela não queria pensar? A simples decisão de me calar foi fruto de um pensamento lógico e racional, que assim sendo poderei afirmar que calei-me na ilusão de me conseguir calar.


Desisti. Admito uma desistência. Logo eu que gosto tão pouco de desistir, não tive outra alternativa. Decidi libertar a palavra em mim. Assim teve que ser. Não faz muito tempo, estava convicto da liberdade da tranquilidade, concluía eu que seria possível viver em harmonia na solidão do silêncio que me permitiria depois alcançar um estado de leveza única. A verdade pouco depois veio ao de cima por essa mesma falta de tranquilidade que irrompeu: só a morte proporcionará o silêncio absoluto. Aliás, na morte não haverá silêncio, muito menos barulho, simplesmente não haverá... nada. E nada é o quê? Nada no que me toca é dormir sem sonhar? Conseguem imaginar dormir sem sonhar? Eu não imagino. Eu sonho sempre que durmo, mesmo que não me lembre quando acordado do sonhado, sei por natureza que sonhei. Facilmente se percebe que se sonha quando se dorme, sente-se! Sem dúvida que se sente, abrem-se os olhos e eles sentem que absorveram imagens imaginadas, sonhadas. Quando as pálpebras abrem caminho para a luz da realidade, por milésimos de segundo nada nos parece familiar, isto porque a familiriazação estava naquilo que durante aquelas horas o nosso cérebro inconscientemente produziu. Ora, e se o nosso cérebro nada produzisse? Nada! Maldita palavra que muitas vezes, despreocupadamente, antecede uma conjugação de um verbo. Nada fiz. Nada comi. Nada colhi. Nada senti. Nada li. Nada escrevi. Nada. Leva-me a concluir afinal, que nada é tudo aquilo que não é. Se eu não sou, é o nada. Biliões de pessoas existem afirmarão, mas se eu não existir aí está o nada. Se eu não existir, finalmente me calarei. Como não morri, como não sou ainda o nada, desisti de me calar, retomando as palavras que de mim se soltam.

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Exercício

Um exercício mental interessante de se fazer, quanto a mim, será forçar-nos a identificar qual a primeira questão que nos surge se nos obrigarmos a pensar numa questão a colocar a nós próprios. Praticando frequentemente tal manobra de diversão da minha razão percebo que é inevitável comandar o conteúdo da questão em surgimento, não fosse eu questionar-me o porquê da relva ser verde ou o céu azul. Contudo, apesar desse poder as questões acabam sempre por ser aleatórias e raramente iremos repetir uma ou outra, nascendo assim um jardim de pensamentos perdidos de respostas inacabadas e inconclusivas vindas de questões que nem sequer chegaram a ser oficialmente e realmente abordadas. Proponho analisar, a muito custo uma das perguntas que me desabrochou neste jardim infundado:

Fazendo uma retrospectiva do que era o meu ser no passado conhecer-me-ei e identificar-me-ei eu com aquela pessoa que vagamente me vou recordando? Conheço-me eu agora? Conhecer-me-ei no futuro?

É compreensível o porquê de dificilmente se obter uma resposta bem delineada, concisa e precisa quando elas serão sempre eternas porque nunca serão isso mesmo, respostas. Serão apenas tentativas de tal, eternas porque continuaremos a tentar, - sucessivamente, ingloriamente, necessariamente.

“Depois de dois dias enclausurado no seu quarto Fernando, naturalmente nostálgico pelo contexto em que se insere recorda a sua vida, o que ela foi ou o que não foi até ali, recorda os momentos que viveu, os que gostaria de não ter vivido e os que gostaria de ter vivido encadeado pelas luzes direccionadas para um determinado local do seu quarto – mais propriamente o canto superior esquerdo – oriundas de um mini-candeeiro pousado aleatoriamente no chão. Decide por força dessa nostalgia alargar e alimentar esse sentimento colocando uma música propícia, navegando nela entre passados e presentes passados e futuros passados imaginados, claro está.
Já de olhos fechados e compenetrado no mundo que ele próprio vivia, onde o cérebro funcionava apenas como uma função imaginativa, sem qualquer tipo de raciocínio lógico, sem perguntas nem respostas, sem fundamentos ou teorias, sente uma presença – não a ouve, porque a ouvir estaria a música, sente-a apenas como um corpo humano sente outro. Era Sara. Fernando abre os olhos e assusta-se:

- Sara! Assustaste-me! Foda-se!

Sara sorri e responde:

- Não foi minha intenção Fernando. Estava preocupada contigo. Não apareces no trabalho; não respondes às minhas mensagens, nem muito menos às minhas chamadas. Decidi visitar-te!
- Meti férias. Depois de o fim-de-semana lá volto à rotina tenebrosa e ao mesmo tempo viciante. Nestes dois dias por casa, dois dias de refúgio, tendo servido quase como um pequeno retiro espiritual, apercebi-me que a rotina não é mais do que a antítese e o sinónimo do sono. A antítese, obviamente porque estamos acordados e no sono dormimos; o sinónimo porque na verdade, cumprir horários num trabalho que nem é nem nunca foi o sonhado, voltar para casa, voltar ao trabalho, lidas de casa, estar com amigos nos tempos livres não é mais do que cumprires adormecidamente aquilo que te foi imposto pela sociedade, ou melhor dizendo recorrendo a um espírito antropológico e não sociológico, a mim próprio que assim o quis. Podia gozar os meus dois dias de férias divertindo-me, fazendo algo que dificilmente consigo fazer no dia-a-dia. Mas não será estar connosco próprios bem acordados, com o nosso verdadeiro eu, em contacto com a nossa alma que conseguimos fazer algo de diferente, algo que isso sim raramente tempos tempo, disponibilidade e acima de tudo vontade de o fazer. Sim vontade! Tal como nos custa levantar da cama depois de uma boa noite de sono, é-nos difícil e impiedoso acordarmos de uma vida de entorpecimento. Aí a vontade claramente não resiste. Perde-se algures durante este sono profundo.

Sara que ouvia pacientemente e atentamente o seu amigo identificou-se claramente com aquilo que lhe foi dito e a conversa continua:

- Significa que agora durmo e tu vives…
- Significa que tu estás de olhos abertos mas fechados e eu fechei-os abrindo-os para sempre, este sempre que foi para mim estes dois dias e todos os outros, poucos, que irão de vir. Para mim é esse o "para sempre".
- Entristece-me a visão que me deste.
- Depois dessa tristeza virá a fúria, depois a frustração e, por último a resignação.
- Do que me é possível conhecer de mim, penso vir a saltar etapas até à última com uma sensação de resignada derrota.
- Derrota!
- Derrota!

Os olhos de Fernando brilham bruscamente e exclama:

- Fomos vencidos pela vida!
- Será que foi a vida nos venceu ou fomos nós que nos derrotamos a nós próprios. Como referiste anteriormente devemos assumir as nossas limitações, as nossas incapacidades. E a grande incapacidade será claramente a de não conseguirmos retirar da vida aquilo que queremos. Por isso, não me parece que seja uma vitória desta, porque ela não nos quer ganhar, nós é que preferimos perder. Perder é sempre mais fácil!
- Ora nem mais! Sabes que olhando para trás não me conheço, vendo o que sou hoje continuo sem me conhecer e no futuro não me conhecerei com certeza, aliás nem me quero conhecer.
- Será assim o auto-conhecimento do eu passado, do eu presente e do eu futuro essencial ao triunfo?
- Concluo que essencial não será, importante sim. Importante não adormecermos na rotina, importante diariamente reflectirmos e mesmo não sendo talvez possível conhecermo-nos perfeitamente, identificarmos sim o que fomos, o que somos e o que ainda podemos ser. Este seria o caminho se aos vinte anos não tivéssemos entrado neste estado de sonolência que tornou a situação irremediável.
- Qual situação? A vida!
- A vida é a grande situação e uma situação merece ser encarada exactamente como uma situação em que nos entregamos a ela profundamente até esta ser resolvida. Achamos nós e acham quase todos que a situação será resolvida por ela própria. Mas não é. Ai não que não é!”


Terá começado Fernando aqueles dois dias tão intensos de refúgio espiritual com o mesmo exercício referido por mim inicialmente?