terça-feira, 7 de outubro de 2008

Corpos Intocáveis

Pinto na tela da minha visão quadros eróticos de beleza. Corpos nús, sexos livres de uma prisão que uma qualquer matéria socialmente se impôs como um guardião do impudor e da devassidão. Os rostos brilham, todos brilham porque finalmente se tornaram rostos de um corpo, e não de um boneco colorido e artificial.
As expressões, penso serem sisudas e carrancudas, dignas de um capitão em alto mar prestes a dar uma ordem imediata a um dos seus marujos. Embora, nesta minha visão, essa realidade aliena-se para os confins do real da minha imaginação, vendo na verdade ilusória sorrisos solares, iluminando o quadro em toda a sua área. Os sorrisos são então a natureza dentro da natureza, originária da natureza do Homem. A luz é irradiada de vários pontos, cada um deles portanto, possui o seu sol privado.
A lua é o órgão sexual de cada um, é a noite que chega, a meta do dia o início da escuridão do prazer sexual. A volúpia é atingida, exactamente como o lobisomem atinge a metemorfose no nascer da versão cheia. Admirar agora com os meus olhos exteriores a lua que se espreguiça sobre mim, lembra-me e remete-me invariavelmente para os meus olhos interiores que admiram, por sua vez, as vaginas depiladas e outras que tais, presentes no meu quadro pessoal.
A paisagem que suporta estes homens e mulheres passa quase por despercebida, assim não fossem eles próprios, paisagem. Um céu. Enublado. Um solo roçando o imperceptível, de cor (do pouco possível de se descortinar) acastanhada, com tons de amarelo. E, o meu olhar volta a eles. Quem são? Não sei. Não são identificados. Julgo não existirem na minha vida, e se existirem na vida que ainda virei a ter, será uma incrível coincidência.
Ora, é por não os conhecer que a magia desta tela ganha força, até ao ponto de me obrigar, saudavelmente continuar a escrever. Quero agora e finalmente (a excitação já transcendia as palavras) tocá-las, acariciá-las, sem sensualidade nem sedução; sem tabús ou preconceitos; sem traumas e experiências na memória; sem memória aliás ! Senti-las pela primeira vez, como se fosse um menino à descoberta do sexo oposto. Podendo rir se me apetecer, ter uma erecção se assim se proporcionar, brincar com o corpo -particularmente com o órgão sexual – de forma despreocupada, mas intensa. Porque a preocupação é a maior inimiga da intensidade. Experimentar um objecto humano da mesmo forma que que experimentaria um novo jogo de tabuleiro, uma relíquia para um miúdo. É novo. Novidade. Sim uma relíquia ! Sim um objecto ! Um dos animados, que permite tudo, nada censura e com prazer disponibiliza.
Concluo com satisfação e grande sensação de compreensão, que todas as personagens que lá estão desejam o que eu desejo. No entanto, não conseguem ! E sei a razão para tal. É maravilhoso ! Não se tocam, porque se amam, sorriem como sóis porque amam-se sem se tocarem.

Um quadro produzido graças, em boa parte, à personagem Edwige d´ “O Livro do Riso e Do Esquecimento” de Milan Kundera.

E se o sexo e o amor não tiverem ligação possível ? E se não puderem coexistir ? Se amarmos fazemos sexo. Se não amarmos fazemos sexo. E se nao fizermos sexo amamos ? Continuamos a amar?E se fizermos sexo amamos ainda mais?
Pergunto-me, em suma – mas nunca finalizando – se o amor é mais forte do que qualquer outro sentimento, sensação ou até necessidade por que é que ele está constantemente dependente do sexo, e o sexo independente do amor ?

1 comentário:

Elektrik_Girl disse...

Kundera, outra referência. Desta feita, não li tudo isto em condições, dei apenas uma vista de olhos. As últimas interrogações também são algo sobre o qual me questiono frequentemente. Haverá amor sem sexo? Penso que é um tipo de paixão platónica,o amor deverá à partida ser algo de completo, pelo menos tento pensar assim. Contudo, bem vistas as coisas, há mesmo diversas formas de sentir, e talvez esse tipo de questões permaneça sempre reticiente.