segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Troglodita

Bem longe do meu mundo, mas bem perto fisicamente ouço palavras que pairam no ar e se tornam ilegíveis. Ilegíveis porque se direccionam para o meu sistema auditivo e surdas porque se intrometem no meu campo de visão. Outrora vozes apoderavam-se desta sala onde estou inserido, contudo as vozes metamorfaram-se em sons, por sua vez em frases, de seguida em palavras até no meu ser nem sequer existirem mais. Elas continuam a seguir ou seu rumo, mas já não as percepciono. Sempre ou quase sempre elas ainda tentam, com fragilidade, invadir-me o espaço. Irrito-me (!), visto que algo que não existe lá vai existindo, ou fazendo que existe.
O Troglodita que lança esses sinais sonoros, esses símbolos de descrição imperceptível, emite a sua segurança de quem quer fazer mal por gozo. O seu charme maldoso vem-se confundindo com poder, a que todos nós que o rodeamos obedecemos tranquilamente. Assumimos nós que o Troglodita é rei desta natureza e que a sua função não é mais do que essa : ridicularizar-nos e infernizar-nos com tais medonhas acções. Assemelha-se a um ser pacífico, que rejeita o conflito e preocupa-se com o bem estar comum, mas engana-se quem assim observa. A análise é muito mais feita entre linhas do que qualquer livro de Saramago, esta é uma personagem típica de um policial onde o assassino é aquele que todos nós menos esperávamos. Ele é de facto o assassino: o assassino de mentes, o assassino de sentidos. Foi absolutamente necessário refugiar-me em mim porque tudo o que tenho que me permite captar o exterior foi, voluntariamente, feito o "shift + delete". O escumalha bem que é persistente mas eu não o deixo entrar. Assim deve ser. Não me deixarei corromper.
Porém, os meus companheiros estão, tal como eu, desde sempre a sofrer nas mãos daquele bicho. Será que eles adoptaram a mesma soluçao que adoptei ?! É impossível perceber, não estou presente. E agora ?! Penso neles. Atingirar-lhes-á aquelas armas exactamente como a mim me atinge ?! Torço que não as encarem de tal forma. Espero sinceramente que estejam bem. Cumprimentos sentidos a quem está aí fora.
Agora, e por fim, vou desligar-me e voltar mais tarde a reiniciar-me, aí já fora de perigo espero. Memorizo este dia, guardando-o no meu disco rígido, passando a informação, antes de mais, pelo um anti-vírus veroz. A pasta principal é hoje e sempre: nós. Nós somos a razão pela qual eu luto. Luto por mim, mas sobretudo por nós.

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