segunda-feira, 1 de setembro de 2008

RENOVAÇÃO DO BLOGUE - "A Cela"





Aprisionado na minha impotência racional que desde logo racionalizo a potência a alcançar. A razão não é mais do que uma pequena cela bem decorada e acolhedora, com uma janela sem grades de onde podemos avistar qualquer paisagem ou cenário; de onde, inclusive é possível nos libertarmos, avançando-a e encarando a livre irracionalidade. Muitos, provavelmente, nunca lá estiveram presos, outros desprenderam-se facilmente através daquele quadro pitoresco, eu (como alguns infelizes) desejo árduamente sentir todas aquelas cores, cheiros, materiais e emoções que daquele cubículo admiro. Não consigo. Desejo mas não quero. Quero mas não quero. Receio. Porque recear é o pão nosso de cada dia quando presos estamos.
O medo que consequentemente surge é fruto de uma razão pura e permanente. É a doença/trauma que no corpo humano se propaga quando este se alimenta de pensamentos e análises que não passam apenas disso.

Hoje, observo e imagino o que está lá fora. Vejo-a, a ela, olhos claros viciantes só de olhar. Sento-me e continuo a observar. Racionalmente, vejo o que poderia ser, mas não o é. Sorrisos partilhados ao som de uma música para além de sonora, sem nunca desviar os meus olhos dos dela. Ironicamente, a razão que me possibilita aqui e agora imaginar, é um sonho onde nele não existe razão. Até porque é isso que idealizo: sentimentos que me preencham o ego e me esvaziem o cérebro.
Pouco a pouco, aqueles olhos verdes azulados vão-me comendo a matéria presente no meu crânio. Faz-me dar uma gargalhada, e outra. Cada vez mais, até horas depois ficar inteiramente leve.
Entretanto, levanto-me e aproximo-me da janela, o filme continua. Dou-lhe as mãos e sinto. Finalmente sinto. Anseio lá chegar e sentir ainda mais. Ela chama-me, o meu coração implora, quero saltar ! Enfim, beijamo-nos suavemente, um toque de seda nos lábios carnudos com um fundo branco e querido de uns dentes que até ali enfeitavam o seu reconfortante sorriso.
Cai no chão desta sala que me prende, a primeira lágrima de uma felicidade meramente imaginada. Só falta um abraço naquele ser que me faz escrever este texto, será realidade quando o meu corpo encaixar com o dela. Tenho, por tudo que saltar esta janela. Tenho que a saltar ! Tenho que me libertar ! Tenho ! Devo ! É melhor que consiga !
Contudo, fico por este ter, dever e melhorar. Não consigo mais do que isso. Sento-me novamente, deito-me por fim, e com as mãos na nuca servindo de apoio à cabeça, lembro-me como seria mas que não é.
Aprisionado pela razão.
Vou-me encontrando lá contigo enquanto não ganho coragem para mais.

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