domingo, 7 de dezembro de 2008

O Regresso

Agora que o Sol se pôs, choro timidamente. Poderia fazê-lo ostensivamente, mas tenho vergonha de mim, vergonha das minhas lágrimas que correm, lentamente, o meu rosto. À falta de luminosidade, penso ver alguém surgir nesta sala como uma aparição combatendo a minha solidão. E choro ainda mais. Desta vez de uma junção de medo, adrenalina e entorpecimento. Mas com mais embaraço me presenteio: já não estarei sozinho, penso que as lágrimas que já caem desorganizadamente me incomodam a mim e àquele outro.

- Quem és? – pergunto, com esforço de mais para não soluçar.
- Quem és? É a minha resposta à tua pergunta.

A sua voz pareceu-me familiar, tal como o brilho dos olhos que se destacava naquela escuridão. Aliás, além do seu vulto o seu olhar era a única coisa de concreto que me era permitido avistar. Esta primeira troca de palavras fez-me acalmar, não porque por dentro estaria calmo, mas porque chorar já não faria sentido e porque o facto de poder falar com alguém naquele preciso instante seria a solução ideal para esquecer que o Sol tinha morrido e que só renasceria daqui a algumas horas. Continuei:

- De onde vens?
- Do mesmo sítio de onde tu vens.

Queria realmente conversar, contudo aquela conversa inicial não me estaria a fazer qualquer sentido. A partir dali, tudo o que poderia vir a dizer teria que ser bem digerido de antemão pela minha razão, construindo uma base de raciocínio lenta mas segura para que não me surgissem respostas às minhas perguntas das quais me fizessem ter ainda mais dificuldade em retomar a conversa. E assim o fiz:

- Eu sou a luz quando se apaga e sou oriundo de mim mesmo. Respondo-te, para que te possa perguntar sem que me respondas com uma nova pergunta. Repito: Quem és e de onde vens?
- Eu sou a luz quando se acende e sou oriundo de ti mesmo!

Sorri com a sua voz que me soava a um acorde mais suave de um também suave instrumento musical.

– Agora sorris, quando há pouco choravas. Fui engraçado de alguma maneira? Quem terá sido então impiedoso ao ponto de te fazer chorar?

Apercebi-me da viragem daquele diálogo, notou-se desde logo duas diferenças: recebi uma resposta através de uma afirmação, e recebi perguntas sem que as tivesse perguntado primeiro.

- Chorava por ser o que sou, continuo chorando por dentro. Quero ser luz, quero deixar de ser quase luz. Sorri por me teres iluminado com a tua aparição, nem que por momentos.
- Chora! Não sorrias. Chora!
- Ninguém me diz que deva chorar. Por que é que tu o fazes ?
- Porque só assim te lembrarás do que um dia não foste luz. Sorrindo banalizas o momento negativo por que passas, sorri quando tens que sorrir, chora quando tens que chorar.

As suas palavras, em cada som que ia emitindo iam-me remetendo-me para junto de mim, perto da minha alma que se encontrava afastada por decisão minha. Não queria de todo que assistisse a esta minha decadência e descrença. Dividi os meus pensamentos e a minha razão – acolhendo-os com as emoções - do meu espírito. Presumi que tal fosse possível até o ouvir falar. Chamei-me a mim de volta.

- Obrigado. Estás-me a fazer bem.
- Obrigado eu por me fazeres voltar. Adeus.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Corpos Intocáveis

Pinto na tela da minha visão quadros eróticos de beleza. Corpos nús, sexos livres de uma prisão que uma qualquer matéria socialmente se impôs como um guardião do impudor e da devassidão. Os rostos brilham, todos brilham porque finalmente se tornaram rostos de um corpo, e não de um boneco colorido e artificial.
As expressões, penso serem sisudas e carrancudas, dignas de um capitão em alto mar prestes a dar uma ordem imediata a um dos seus marujos. Embora, nesta minha visão, essa realidade aliena-se para os confins do real da minha imaginação, vendo na verdade ilusória sorrisos solares, iluminando o quadro em toda a sua área. Os sorrisos são então a natureza dentro da natureza, originária da natureza do Homem. A luz é irradiada de vários pontos, cada um deles portanto, possui o seu sol privado.
A lua é o órgão sexual de cada um, é a noite que chega, a meta do dia o início da escuridão do prazer sexual. A volúpia é atingida, exactamente como o lobisomem atinge a metemorfose no nascer da versão cheia. Admirar agora com os meus olhos exteriores a lua que se espreguiça sobre mim, lembra-me e remete-me invariavelmente para os meus olhos interiores que admiram, por sua vez, as vaginas depiladas e outras que tais, presentes no meu quadro pessoal.
A paisagem que suporta estes homens e mulheres passa quase por despercebida, assim não fossem eles próprios, paisagem. Um céu. Enublado. Um solo roçando o imperceptível, de cor (do pouco possível de se descortinar) acastanhada, com tons de amarelo. E, o meu olhar volta a eles. Quem são? Não sei. Não são identificados. Julgo não existirem na minha vida, e se existirem na vida que ainda virei a ter, será uma incrível coincidência.
Ora, é por não os conhecer que a magia desta tela ganha força, até ao ponto de me obrigar, saudavelmente continuar a escrever. Quero agora e finalmente (a excitação já transcendia as palavras) tocá-las, acariciá-las, sem sensualidade nem sedução; sem tabús ou preconceitos; sem traumas e experiências na memória; sem memória aliás ! Senti-las pela primeira vez, como se fosse um menino à descoberta do sexo oposto. Podendo rir se me apetecer, ter uma erecção se assim se proporcionar, brincar com o corpo -particularmente com o órgão sexual – de forma despreocupada, mas intensa. Porque a preocupação é a maior inimiga da intensidade. Experimentar um objecto humano da mesmo forma que que experimentaria um novo jogo de tabuleiro, uma relíquia para um miúdo. É novo. Novidade. Sim uma relíquia ! Sim um objecto ! Um dos animados, que permite tudo, nada censura e com prazer disponibiliza.
Concluo com satisfação e grande sensação de compreensão, que todas as personagens que lá estão desejam o que eu desejo. No entanto, não conseguem ! E sei a razão para tal. É maravilhoso ! Não se tocam, porque se amam, sorriem como sóis porque amam-se sem se tocarem.

Um quadro produzido graças, em boa parte, à personagem Edwige d´ “O Livro do Riso e Do Esquecimento” de Milan Kundera.

E se o sexo e o amor não tiverem ligação possível ? E se não puderem coexistir ? Se amarmos fazemos sexo. Se não amarmos fazemos sexo. E se nao fizermos sexo amamos ? Continuamos a amar?E se fizermos sexo amamos ainda mais?
Pergunto-me, em suma – mas nunca finalizando – se o amor é mais forte do que qualquer outro sentimento, sensação ou até necessidade por que é que ele está constantemente dependente do sexo, e o sexo independente do amor ?

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Guerra do conhecimento

Pudera ser eu a luz do Sol que tudo ilumina e a luz escura da noite que tudo escurece.
Pudera conseguir atraír a mim todo o conhecimento - o certo e o errado - sem que para isso, comece lutas interiores destrutíveis.
Uma guerra com batalhas diversas, umas (poucas) ganhas outras perdidas, vai-me desgastando ao pouco e, contraditoriamente vai-me também, fazendo ter motivação para viver. Porque viver é conhecer, conhecer é viver. Respirar é o início da aprendizagem , viver é o desenvolvimento dessa aprendizagem e a vida como um todo é o conhecimento (quase) absoluto.
Respirar não custa: é inato ; viver é vento que nos leva para onde ele assim quiser, resta-nos forçar o caminho que achamos melhor, mesmo que seja em sentido inverso - poderá ser bastante doloroso; A vida é um sonho: algo a alcançar, mas demasiado inalcançável - o conhecimento absoluto não existe em nós, porque nem sequer temos a noção do que é abosulto, não há um limite.
Continuo com esse sonho, com essa guerra que me invade como um inimigo pronto a atirar e a ganhar. Eu respondo com tiros de saberes superficiais, com o desejo de mais.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Troglodita

Bem longe do meu mundo, mas bem perto fisicamente ouço palavras que pairam no ar e se tornam ilegíveis. Ilegíveis porque se direccionam para o meu sistema auditivo e surdas porque se intrometem no meu campo de visão. Outrora vozes apoderavam-se desta sala onde estou inserido, contudo as vozes metamorfaram-se em sons, por sua vez em frases, de seguida em palavras até no meu ser nem sequer existirem mais. Elas continuam a seguir ou seu rumo, mas já não as percepciono. Sempre ou quase sempre elas ainda tentam, com fragilidade, invadir-me o espaço. Irrito-me (!), visto que algo que não existe lá vai existindo, ou fazendo que existe.
O Troglodita que lança esses sinais sonoros, esses símbolos de descrição imperceptível, emite a sua segurança de quem quer fazer mal por gozo. O seu charme maldoso vem-se confundindo com poder, a que todos nós que o rodeamos obedecemos tranquilamente. Assumimos nós que o Troglodita é rei desta natureza e que a sua função não é mais do que essa : ridicularizar-nos e infernizar-nos com tais medonhas acções. Assemelha-se a um ser pacífico, que rejeita o conflito e preocupa-se com o bem estar comum, mas engana-se quem assim observa. A análise é muito mais feita entre linhas do que qualquer livro de Saramago, esta é uma personagem típica de um policial onde o assassino é aquele que todos nós menos esperávamos. Ele é de facto o assassino: o assassino de mentes, o assassino de sentidos. Foi absolutamente necessário refugiar-me em mim porque tudo o que tenho que me permite captar o exterior foi, voluntariamente, feito o "shift + delete". O escumalha bem que é persistente mas eu não o deixo entrar. Assim deve ser. Não me deixarei corromper.
Porém, os meus companheiros estão, tal como eu, desde sempre a sofrer nas mãos daquele bicho. Será que eles adoptaram a mesma soluçao que adoptei ?! É impossível perceber, não estou presente. E agora ?! Penso neles. Atingirar-lhes-á aquelas armas exactamente como a mim me atinge ?! Torço que não as encarem de tal forma. Espero sinceramente que estejam bem. Cumprimentos sentidos a quem está aí fora.
Agora, e por fim, vou desligar-me e voltar mais tarde a reiniciar-me, aí já fora de perigo espero. Memorizo este dia, guardando-o no meu disco rígido, passando a informação, antes de mais, pelo um anti-vírus veroz. A pasta principal é hoje e sempre: nós. Nós somos a razão pela qual eu luto. Luto por mim, mas sobretudo por nós.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Por detrás do Espelho




A luz da vela que incendeia o meu espírito mantém-se simetricamente acesa, uma simetria que os meus olhos não conseguem acompanhar. Pudera eu ser uma chama que não se apaga e que constantemente ilumina quem está ao seu redor. Por vezes, exteriormente escureço-me, reflecte muito pouco do que existe atrás do espelho. Aí o fogo consome tudo o que existe para consumir, semelhante a um presumível inferno onde ninguém entra a não ser eu. O meu inferno particular de onde não posso sair, e que tanto segue os escritos da bíblia como os contraria, acabando por ser aqui e acolá muito reconfortante e poderosamente motivador.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

RENOVAÇÃO DO BLOGUE - "A Cela"





Aprisionado na minha impotência racional que desde logo racionalizo a potência a alcançar. A razão não é mais do que uma pequena cela bem decorada e acolhedora, com uma janela sem grades de onde podemos avistar qualquer paisagem ou cenário; de onde, inclusive é possível nos libertarmos, avançando-a e encarando a livre irracionalidade. Muitos, provavelmente, nunca lá estiveram presos, outros desprenderam-se facilmente através daquele quadro pitoresco, eu (como alguns infelizes) desejo árduamente sentir todas aquelas cores, cheiros, materiais e emoções que daquele cubículo admiro. Não consigo. Desejo mas não quero. Quero mas não quero. Receio. Porque recear é o pão nosso de cada dia quando presos estamos.
O medo que consequentemente surge é fruto de uma razão pura e permanente. É a doença/trauma que no corpo humano se propaga quando este se alimenta de pensamentos e análises que não passam apenas disso.

Hoje, observo e imagino o que está lá fora. Vejo-a, a ela, olhos claros viciantes só de olhar. Sento-me e continuo a observar. Racionalmente, vejo o que poderia ser, mas não o é. Sorrisos partilhados ao som de uma música para além de sonora, sem nunca desviar os meus olhos dos dela. Ironicamente, a razão que me possibilita aqui e agora imaginar, é um sonho onde nele não existe razão. Até porque é isso que idealizo: sentimentos que me preencham o ego e me esvaziem o cérebro.
Pouco a pouco, aqueles olhos verdes azulados vão-me comendo a matéria presente no meu crânio. Faz-me dar uma gargalhada, e outra. Cada vez mais, até horas depois ficar inteiramente leve.
Entretanto, levanto-me e aproximo-me da janela, o filme continua. Dou-lhe as mãos e sinto. Finalmente sinto. Anseio lá chegar e sentir ainda mais. Ela chama-me, o meu coração implora, quero saltar ! Enfim, beijamo-nos suavemente, um toque de seda nos lábios carnudos com um fundo branco e querido de uns dentes que até ali enfeitavam o seu reconfortante sorriso.
Cai no chão desta sala que me prende, a primeira lágrima de uma felicidade meramente imaginada. Só falta um abraço naquele ser que me faz escrever este texto, será realidade quando o meu corpo encaixar com o dela. Tenho, por tudo que saltar esta janela. Tenho que a saltar ! Tenho que me libertar ! Tenho ! Devo ! É melhor que consiga !
Contudo, fico por este ter, dever e melhorar. Não consigo mais do que isso. Sento-me novamente, deito-me por fim, e com as mãos na nuca servindo de apoio à cabeça, lembro-me como seria mas que não é.
Aprisionado pela razão.
Vou-me encontrando lá contigo enquanto não ganho coragem para mais.

domingo, 9 de março de 2008

Perfeição Vs Inveja (!!)

A perfeição esbarra continuamente na inveja. Há alguma definição possível para estes dois substantivos tão comuns como vulgarmente usados e abusados ?
Algo que, desde logo consigo concluir de forma intuitiva, é que ambos são indisolúveis, confundem-se ; um existindo dá origem ao outro, outro existindo dá origem a um, outro não existindo sobressai deficientemente um, os dois existindo naturalmente misturam-se como duas núvens num céu, fundem-se sem nos apercebermos dessa fusão.
Isto é, a inveja é aos meus olhos a sensação (?) mais predominante na mente do ser humano. Racional, inato ou instintivo não consigo voluntariamente e resignadamente responder qual nem o porquê de assim ser, até porque o meu objectivo não é encontrar essa resposta, muito menos fazer essa(s) pergunta(s). O meu objectivo é sim demonstrar que ela (inveja !) predomina e vigora a partir do momento que existe na nossa razão a concepção de perfeição. O desejo animal de querer sempre mais, de saciar uma insatisfação eterna faz com que vejamos em outras pessoas, objectos, imagens, situações reflexos de nós próprios. Reflexos intemporais, reflexos que eventualmente gostaríamos de poder reflectir e que ainda não foi reflectido. Esse gostar, desejar, querer no condicional condiciona desde o primórdio, o Homem como ser significativamente invejoso.
Concluir-se-ia talvez que a definição de perfeição não deveria sequer ser discutida, até que pudesse chegar a um ponto em que a palavra caíria em desuso e mais nenhuma mente pudesse reter essa ideia. Contudo, como poderíamos nós viver, sentir, pensar e acima de tudo sonhar sem termos um objectivo como a perfeição, a alcançar ?!
A inveja é, portanto uma consequência que tem consequências, é rejeitável e ao mesmo tempo interminável e indispensável; a inveja é o instrumento que escava a terra esperando chegar à profundidade da perfeição, é a água que inunda o buraco impedindo-nos em sermos perfeitos.

03/03/2008

Entretanto...

Se entretanto não houvesse entretanto, o desenvolvimento seria reversível e a conclusão imediata. A paciência do por enquanto impacientemente se concretiza de uma forma, por vezes obrigatória para que a vida possa descansadamente seguir o seu curso normal.
O que quero com isto dizer é que o rio referido por Ricardo Reis nas suas "Odes" poderia muito bem e convenientemente ser o mar; escolho sem hesitar, um segundo que seja, o formar e o rebentar das ondas, o repentismo e o imediato, a tranquilidade e o silêncio das noites marítimas calmas e o inverno ruidoso e bravio das tardes à beira mar.
Concordo e custa-me admitir, pratico a ociosidade sentimental de Reis, por basicamente falta de alternativa. Busco a Sereia que mergulhe de cabeça, vindo à superfície logo após, agarrando nos seus cabelos molhados que em bloco se grudam caprichosamente no pescoço e nas costas numa imagem perfeita do auge da natureza. Como na longa metragem "A Cidade Dos Anjos", a vida não é muito mais do que sentido mergulho no mar antigo, e a nossa vida não é muito mais do que as outras pessoas queiram que ela seja. Venho-me deparando com animais que vivem em margens fluviais alimentando-se do rio que vêem passar, sabendo de antemão que este o levaria a desaguar no mar.
Contudo, continuam e persistem em darem-me as mãos, prendendo-me nas suas vidas sedentárias que partilho. Quero fugir e não consigo. Onde está a sereia que tem o poder de fazer da minha vida o que eu quero que ela seja ? Anseio pelo bem-dito encontro entre os nossos corpos unidos contra o rebentar de uma onda. Quando voltarmos à superfície estaremos apaixonados: um pelo o outro, cada um pela sua vida.
Entretanto, entretanto ?! Entretanto a corrente passa por mim com um até já de esperança.

11/01/2008


Nota: Se a influência externa em nossas vidas, nos nossos caminhos é tão significativa não nos poderemos fechar dentro da nossa alma; O remédio sempre temporário será analisarmos o exterior - o nosso, não o exterior comum mas sim o exterior de cada um.
Acredito que sim : a escolha moderada, reflectida e ponderada das pessoas com quem nos envolvemos num qualquer tipo de relação originará um encontro mais facilitado e bem sucedido das estradas desejadas que cada um de nós planeia percorrer até atingir o seu destino.