quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

Puro Ser Humano

Neutralizarem-nos de sentimentos e/ou formas de estar indiferentes proporcionar-nos-ia um maquinismo imbatível apesar de ao mesmo tempo e consequentemente nos gelar.

A vergonha é uma mulher de turbante, pronta para não falar, ouvir fazendo de conta que nao ouve e pensar que não será aconselhável o fazer.
A timidez é um animal domesticado que irradia, de certo, alguma beleza (encanto direi), no entanto aprisiona-se na sua irracionalidade moderada e inerente : o dono racional é e será para sempre seu dono.
A preocupação é uma pequena concha levada e trazida pelo mar, é um círculo que apenas nos leva de volta ao sítio de onde partimos : o nada.
A ansiedade é uma pilha carregável de duração constante e renovável. Tanto é útil, reconfortante e enérgica como também desconsoladora, enganadora e prejudicial.
A sinceridade é um assassino profissional que olha nos olhos do alvo antes de premir o gatilho e acabar sinceramente com uma vida. Identifica-se com a morte por ser do mais puro, como uma seda. As vítimas agradecem a sinceridade do olhar mas acabam por ser sempre feridos até ao último suspiro.

O que é globalmente e unanimemente encarado como “bom” ou “não mau” não é uma coisa nem outra. Prevalece o inqualificável, o necessário, o essencial, o interessante e o indíviduo, desvanecendo-se o qualificável, o correcto, o político, o bem, o comum, o mundo.





Fora do contexto : paixão é uma chama que não arde, não se vê, insensivelmente sente-se. Até que um dia enchemo-la com mais lenha, propaga-se e queima-nos os olhos deixando-nos cegos. Aí amamos.

domingo, 4 de novembro de 2007

Poema

Quase madrugada

Na inquietude de uma luz a entrar na escuridão
Os olhos entre abertos, o crepúsculo quente
O isqueiro que raramente acende, o abrupto chão
O som que pouco se ouve, a palavra que mente
A mão que nada sente, e a razão que assim se contente
Com o quase, com o quase, a vida não é um quase
Por vezes, o céu tem que ser azul e brilhante
O amor cintilante, sorridente e reconfortante
O Sol finalmenente te aquecerá e acabará o impasse.

Corvo mantém-te longe que aqui respira-se
Noite, conselheira mãe, tem atenção a ela
Vem pássaro azul, é decisava a tua presença
O fim é deveras cruel que seja esse
Canta, canta alto a ela que é tão bela
O Corvo foi embora, o teu sorriso compensa.



Inspirado no Filme "Sylvia" de Christine Jeffs ( A vida de Sylvia Plath, famosa e reconhecida escritora norte-americana, que se suícidou aos 30 anos), e em todas as pessoas que vou conhecendo e que me deram um pouco de si para este poema.

sábado, 27 de outubro de 2007

Faminto

Sede de conhecimento, fome de pensamentos organizados em pequenas gavetas, onde sempre que assim quisesse poderia escolher qual o alimento para cada dia.
Ser faminto na razão é, exageradamente distinto da necessidade puramente fisiológica do alimento comestível. A grande diferença está na insaciedade : por muito que se coma, o estômago superior sentir-se-á, sempre, insensivelmente vazio ou talvez indigesto.
Mera informação infinita, ilusivo infinito, que me faz ganhar litros de saliva racional, que me ampara da desidratação, mas me consome pela gula e a frustração de poder cheirar, de poder tocar sem, no êxtase, conseguir transformá-la no nosso devido alimento. Estado de loucura !
Futuramente, a indigestão continuará, continuando eu por necessidade e obrigatoriedade a tomar os meus medicamentos : uma caneta nos dedos durante duas horas, digerida com papel para saudavelmente ser registado pelo estômago superior; e pois claro, uma colher de pensamentos soltos, depois de todas as refeições reflectivas, que levarão à criação de anti-corpos de palavras.


A razão, a alma, a psyche, o que assim lhe queiram chamar, sendo o veículo prioritário na vida do Homem, sem dúvida alguma, permitir-nos-á praticar o Bem, incutir valores e princípios a todos que nos vao rodeando, fazendo do Mundo um lugar cada vez melhor. No entanto, as estradas que esse veículo percorrerá serão certamente sinuosas, levando a vómitos e enjoos racionais, que finalmente se concluirá num diagnóstico : quem é guiado pelo pensamento tem o poder de criar a Saúde, mas nunca será saudável.

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Antítese

Escrever poderá ser, nada mais nada menos, do que uma antítese óbvia da razão. Não haverá melhor disfarce carnavalesco, a máscara das sintaxes permite a quem a utliza com ajuste e perícia inúmeras formas de enganar a razão. A sua*1 e a de todos*2.

*1 A sua é enganada inconscientemente, pois as palavras tomam um controlo incalculável e imperceptível, pois é isso que o faz mover, é um poder incontrolável, é uma oligarquia da linguagem, onde a alma primeiramente quer governar, mas pobre deixa-se ser governado pelo que é mais apetitoso. Aí temos mais uma antítese curiosa : para liderar é necessário ser liderado. A razão por tanta vontade (Muitos falam o quão incorrecto e prejudicial pode ser a vontade) de manipular a vida, é batida sem mágoa pelas próprias armas simples/banais da própria vida.

*2 A de todos é, minuciosamente, defraudada, desta vez conscientemente (terceira antítese: Consciência e Inconsciência) pela razão de quem a se serve do dom da palavra. E afiarmar-me-iam : "Estarás a contradizer-te, pois anteriormente, terás dito que a razão é manipulada, portanto não poderá, por ventura, ter a capacidade de manipular outrem". A refutação a essa afirmação é-me facilmente explicável e, absolutamente, descritível : o activo controla o passivo sem sequer se aperceber que ele está também a ser controlado pela mesmíssima arma que está a usar e a abusar para dissuadir o objecto. Ou seja, a mentira prevalece sem ninguém concluir que é uma mentira. Porque acima de tudo, cada um mente e aldraba a sua razão, encadeando a razão de todos outros numa bola gigante e em crescimento, sem fim á vista, de mentiras e mais mentiras.

Depois destas duas situações, a conclusão dúbia, sempre dúbia, que posso chegar é que incessantemente, tem-se tentado, sem sucesso, alcançar uma desejada e, acima de tudo, intolerável verdade ! Mas a buscar será interminável, visto que enquanto existir a antítese raínha nada fará sentido : existem mentiras, mas só existe uma verdade. Porquê ?! Prefiro acreditar no valor antitético da coisa, siginficando, prefiro realmente acreditar que a minha verdade pode ser mentira, e a tua mentira pode ser verdade, e que a minha verdade pode ser a tua mentira, e a minha mentira pode ser a tua verdade ; prefiro acreditar governar-me a mim próprio e deixar-te governar-me, ou governar-te a ti e tu a mim ; prefiro conscientemente atingir a minha inconsciência, ou inconscientemente ser consciente. O importante será nunca deixar nada de lado, não excluir o que é contrário, não ter medo do erro, do que é falso, do que é sentido, do que é causado por percepções duvidosas.

Certamente, optarei pela pluralidade e não pela singularidade, optarei pelo tudo e o nada e não pelo DEFINIDO.

Escrever poderá ser, nada mais nada menos, do que uma antítese óbvia da razão.
Estou a ser altamente contraditório, não ?!

Deixem-me usar a minha máscara de Filósofo da treta para enfraquecer a ridícula busca pela verdade.

Eu sou a antítese.

domingo, 21 de outubro de 2007

6.14

No primeiro dia em que escrevo para este blog são exactamente 6h14m da manhã, vinte e dois de Outubro de 2007. Desdo logo, factuei algo : o tempo. Desde logo, a partir daí, desse facto, sou condicionado por memórias e pensamentos antecipados por percepções e sensações particulares. Assim o Ser Humano é conduzido, por filtros de recordações, experiências e emoções que nos precipitam em buracos de profundidade inalcançável, que nos fazem, durante essa queda, perceber que a razão não é mais do que uma simples pena a cair de um precipício. Ou seja, durante toda a vida nos iremos questionar sobre tudo que nem sequer sabemos que é tudo, e responderemos com um nada que não o conhecemos, pois não existe. O pior é que esse tumúltuo de questões sem resposta prolongar-se-á vagorasamente e, provavelmente, eternamente ( para quem acredita na eternidade).

"Vou dormir, dormir, dormir,
V0u dormir sem despertar,
Mas não dormir sem sentir
Que estou dormindo a sonhar."

Com Ricardo Reis me apresento e despeço deste primeiro dia de palavras racionalizadas em uma razão quebrável e frágil, visto que poderei estar apenas a sonhar.

Se assim for, está a ser um longo e fértil sonho que acabará quando perceber que jamais será possível despertar dele. E porquê ?! Porque a existência é, acima de tudo, questionável...